Ela não poderia nunca perceber aquelas lágrimas. Há coisas que são indizíveis, e outras que não se podem dizer. Ele não lhe poderia nunca explicar que as lágrimas eram apenas o resultado de uma complexa mistura de sentimentos. Mas talvez o que mais o assustava não fosse a despedida pesada, soturna, a incerteza dos minutos seguintes. As despedidas matam sem sequer matar, e quando ele se apercebeu disso pensou que talvez fosse melhor morrer, que talvez doesse menos. Ela não poderia nunca perceber as lágrimas que caiam da sua cara, ele tampouco poderia explicar. Não lhe poderia dizer que chorava por, uma vez mais, não poder adiar o sonho de ficar. Porque para isso teria que dizer que queria ficar para sempre. Com ela. Porque para isso teria que explicar que a num determinado momento na vida se conhece outra pessoa e que, nesse preciso instante, se sabe que se vai ficar com aquela pessoa para sempre, um dia de cada vez. E ela era essa pessoa. Porque há duas palavras com efeitos estranh...
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A mostrar mensagens de 2006
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Ela tinha o dom de lhe roubar as palavras, como se fosse mesmo possível roubar as palavras a alguém. Mas ela conseguia. E fazia-o com um sorriso tão natural que ninguém acreditaria que pudesse de facto roubar. E ele sorria, envergonhado, por não ter palavras para dizer. Então ela, já sem sorriso, mas com olhos de desejo, pedia-lhe para fazerem amor. Ele sem palavras, beijava-a como se dissesse sim. E então, o mundo eram eles. Ele amava-a muito, ela ainda não tinha a certeza, mas ia dizendo que sim (em certos momentos as dúvidas pareciam não existir). Eram felizes, muito felizes, até um dia. Um dia quase a perdeu, e ainda hoje tem medo que isso volte a acontecer. ya
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Parece-me óbvio que, por vezes, sejam necessárias certas decisões sem qualquer carga lógica. Quase sempre é preciso dar um passo atrás para dar dois em frente. Ou algo do género. Os clichés resultam sempre tão bem quando é hora de acalmar a alma. E o mais estúpido é ainda sentirmos necessidade de nos mentir. De nos enganar-mos a nós próprios. O recalcamento pode ser um processo extremamente doloroso. Inevitavelmente acabamos todos por tentar arranjar defesas, para a perspectiva de todos, mas todos, morrermos sozinhos. Podem dar-nos a mão, mas chegado o momento vamos sozinhos. E ainda bem. Porque afinal nada poderia jamais ser igual. Mas continuamos a acreditar e a iludir-nos, porque precisamos dessa mentira, dessa ilusão para continuar. Porque a ideia de um amor para sempre, da felicidade eterna é confortável. Porque senão não vale a pena continuar, senão morremos. Mas chega a hora e todos acabamos por recusar o que procuramos – e procuramos todos o mesmo -, o amor, a felicidade. E...
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Desta vez não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim. E de certeza que esta é apenas aquela fase a que psicólogos, psiquiatras e outros que tais chamam negação. Eu só quero adiar um pouco mais o regresso a mim mesmo. Porque eventualmente o tempo ensina-nos que estamos bem sozinhos, mostra-nos que afinal não precisamos daquela pessoa a quem jurámos sem ela não sabermos viver. O tempo é o velho cliché. A vida dobra-nos, molda-nos e mostra-nos que o amanhã é só mais um dia. As tuas fotografias continuam na parede, a matar os últimos resquícios de memória. Mas também elas, como todas as outras recordações, materiais e imateriais, acabarão arquivadas num sítio qualquer só identificado pela etiqueta com o teu nome. Desta vez ainda não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim, e como em qualquer outro fim, a história acaba assim: as fotografias na parede, as recordações a baloiçar no pensamento. Mas a vida não pára, e amanhã é só mais um dia. Não te vou esque...
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Talvez de uma forma ou de outra tudo seja igual. A cabeça é um problema, e o amor é mesmo fodido. Não sei, talvez tenha que ser assim. A fantasia sempre melhor que a realidade. Os sonhos sempre arruinados pelo acordar. O relógio que não pára e ainda bem. A noite e o dia a repetirem-se com a exactidão de uma cópia. E, no fim, sempre a angústia, a ansiedade, a desilusão. As expectativas nunca partilhadas. E a invisibilidade que mata. E precisar, só preciso de mim e do mundo. Mas não resisto à ilusão, sempre a mesma. A cabeça é um problema, e o amor é mesmo fodido. A consciência do fim que tudo tem. Espero que o próximo seja o meu. Penso. Arrependo-me. Porque o desejo não é de morte, é de desaparecimento. É o desejo de pensar que alguém pode sentir a minha falta. O desejo de pensar que tenho algo que só eu posso dar. Não sei. O tempo – que não faz tic-tac, mas um tic-tic ou tac-tac, bem menos rítmico – insiste em passar. E o problema é esse. Nada muda e o tempo continua a passar. Uma...
Agradecimento
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Obrigado a todos aqueles que continuam a visitar este blog , e a comentar e a elogiar. O tempo tem sido escasso, e tenho tentado dedicar-me totalmente a um velho objectivo: cem páginas. Juntamente com todas as outras obrigações, o tempo disponível para o blog é verdadeiramente pouco. Tentarei ser um pouco mais assíduo nos próximos tempos. Porque talvez seja essa a melhor forma de agradecer a vossa fidelidade para com a minha escrita. Muito obrigado . Até já.
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A campainha tocou. Odeio que me acordem de manhã, e àquela hora era demasiado de manhã. Podia matar-te, não trouxesses na mão o sorriso que sabes ser o meu preferido. Acompanhei-te à sala, pedi-te uns minutos, ainda com o cérebro demasiado ensopado em sono. Café. Banho. Talvez o banho primeiro. Tu riste-te, pegaste-me na mão e arrastaste-me para o quarto. Disseste-me que estavas ali para dormir comigo, com os meus braços a envolver o teu corpo. Tiraste a roupa, deitaste-te ao meu lado. Senti o teu calor, uma súbita harmonia a envolver-me os sentidos. Adormeci. Adormecemos. Acordei e não estavas lá.
Violino
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O nosso amor é um violino. São as notas graves, sustidas. As mesmas notas suspensas à loucura. Um adágio em ritmo de allegro. O teu corpo que se revela entre os lençóis, entre cada uma das notas. É o ritmo da loucura, do violino que grita para lá da razão. Sem expectativas, sem esperanças que o teu corpo me seja devolvido, um dia, um minuto. Recordo a tua gargalhada, as tuas brincadeiras. A forma como tentavas escapar de um beijo, só para provocar. Estranho bebermos dos lábios um do outro o amor que nunca tivemos. Somos mil histórias inacabadas que ainda não é desta que parecem terminar. A nossa história são histórias cruzadas, entrelaçadas, abraçadas. Somos um olhar nunca antes olhado. Palavras desconectadas, rabiscadas numa folha. Somos a incerteza de um sentimento estranho que parece procurar sustento, como se tudo estivesse a acontecer pela primeira vez, tragicamente pela primeira vez. Como se tudo fosse apenas o mundo à espera de ser descoberto. Mas não, somos aquela nota do v...
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Os teus beijos sabem a sonho. Nem a mais nem a menos que a sonho, porque apenas em sonho os tenho. A tua ausência dói, uns dias mais que outros, especialmente hoje. Porque os sonhos já não chegam, porque os lábios suspiram por um beijo que se adia e parece nunca chegar. Mas pior é o corpo que não se deixa enganar e embarca num desejo que necessita execução. A cabeça é uma dependente, vai atrás. A tua sensualidade devasta, desbasta. O teu corpo ensurdece, e os beijos somam-se, multiplicam-se, ecoam. A roupa cai entre suspiros exasperados, os corpos desejam-se mais e mais. A cabeça é uma dependente, vai atrás, a cabeça já não faz o que tem a fazer e ainda bem. Os corpos sabem, só eles sabem. E quando se unem, o meu corpo ao teu corpo, tudo faz sentido. A cabeça entende e não interfere, deixa-se ir. A cabeça é uma dependente. A dor e o prazer confundem-se terrivelmente, por momentos pensei que nos estivéssemos a matar. Por momentos pensei que nos estivéssemos a amar. Assim ficámos, os...
Voz
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Sempre vi a música como um acessório. Não me lembro de ouvir música, ponto. É sempre enquanto leio, enquanto escrevo, enquanto me deito na cama e fico a olhar para o tecto à espera que as pequenas manchas de humidade comecem a formar desenhos. Não me lembro de ouvir música, apenas ouvir. Como nos filmes, a música é apenas um acessório, algo que embala a vida, que marca o ritmo. A Teresa, que canta adoravelmente, não foi excepção. Foi um acessório, daqueles que durante o tempo que dura o encanto abrilhantam a vida, até se tornarem banais. Vi-a pela primeira vez a cantar num bar. Cantava em francês, o que já não é habitual, e só me prendeu a atenção por esse factor. Passei o tempo em que ela esteve a cantar a tentar encaixar as palavras nos pequenos fósseis que me restam das aulas de francês do ciclo. A sonoridade dos pês e dos rês pronunciados da maneira que só os franceses sabem, encantou-me. A música nem a ouvi, não me lembro de a ouvir. Habituámo-nos demasiado ao inglês. A globaliz...
Lado a Lado
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Gostavam de passear. Não davam as mãos, nem os braços, nem se abraçavam. Caminhavam lado a lado e isso era tudo. Umas vezes falavam, outras não. Ela do lado de dentro, sempre do lado de dentro do passeio. Ela nunca se apercebeu sequer disso. Se no início ele a encaminhava para esse lado, ela acabou por o fazer inconscientemente. Caminhavam lado a lado sem direcção. Iam fazendo o caminho ao caminhar. Ela escolhia. Escolhia se viravam à esquerda ou à direita, ele ia atrás, sempre do lado de fora, sempre do lado da estrada. Ele não gostava de tomar decisões, também não achava isso assim tão importante quando estava com ela. Queria estar com ela, apenas. Um dia sob um sol cansativo, quente e cru, ela apercebeu-se. O tempo, para ele, parou. Ela perguntou porque é que sempre que andavam juntos ele a fazia ficar do lado de dentro do passeio. Ele soçobrou, sempre tivera esperança que ela nunca chegasse a perceber. Engoliu em seco, enfrentou a realidade. Foi sincero: “Porque assim, se algum...
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Os seus encontros seguiam um estranho ritual, eram uma celebração daquilo para que não conseguiam encontrar palavras. Deitavam-se, lado a lado, muito juntos, muito abraçados. Trocavam beijos ocasionais enquanto mudavam de assunto, como quem muda de disco e, naqueles segundos de silêncio, mal pode esperar pelo que vem a seguir. Até o sono se tornar incontrolável, falavam. De tudo, dos fantasmas do passado e do presente, dos medos, dos sonhos e desilusões. Falavam de coscuvilhices e de assuntos sem assunto. Mas, acima de tudo, conheciam-se. Devoravam-se mutuamente como se nunca se tivessem conhecido nos anos em que se conheceram. Até que adormeciam, lado a lado, muito juntos, muito abraçados. Como se desde sempre dormissem assim. Com uma naturalidade que o facto de apenas se estarem a descobrir não parecia possibilitar. Ele acordava primeiro, sempre primeiro que ela, adormecia sempre depois. Deixava-se ficar, com o braço em volta do corpo dela, sentindo-a ali. Certificando-se que não e...
Acordar
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Abro a janela, sinto o frio, sinto a vida. Acendo um cigarro que é só mais um cigarro. Sem pensamentos que venham com ele e fujam com o expirar lento do fumo que se confunde com o vapor do frio. A cidade cai adormecida, embalada pela trémula luz laranja dos seus caminhos. A Sara dorme também, e não parece tão frágil assim. Não parece estar a pensar em algo que mais que não aquilo que parece fazer tão bem e que eu, por herança familiar, é raro conseguir. Mas a Sara está ali deitada e não está noutro lugar, como costuma estar. Sempre a pensar em algo mais, sempre a duvidar até das suas próprias dúvidas. A Sara está ali deitada, na minha cama que eu raramente uso, e está mesmo ali. Não está noutro sítio. A Sara, por qualquer enviusamento da memória, faz-me lembrar a minha professora primária. Mais nova, muito mais nova e muito mais bonita. Mas com o mesmo olhar de quem pode ensinar tudo, com a mesma paciência e dedicação de quem ensina uma criança de cinco anos a ler e a escrever, e que ...
Isabel
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De histórias de amor percebo pouco ou nada. Nunca foi o meu forte. Quanto mais conheço, mais tenho a sensação de que é um mundo em que não vale a pena entrar. Não por fobia, ou dúvida ou qualquer outro motivo tão irracional quanto o medo. Acho que a sucessão de experiências me levou a dispensar a loucura de algo mais que o biológico roçar de corpos. O amor não é mais que isso, uma reacção química para disfarçar a necessidade de toque, de presença. A mim chega o som da televisão que ligo sempre que chego a casa, e que nunca vejo. A mim chegam as mulheres que consigo seduzir, e a quem explico cuidadosamente que não posso oferecer mais do que o meu corpo. Aceitam sempre, pelo menos no momento, aceitam sempre. Depois desaparecem revoltadas, raivosas como se não tivessem na realidade aceite o corpo que as satisfez. Como se não padecessem da mesma necessidade que eu, como se os seus corpos não lhes pedissem o mesmo que o meu. Quando acordo já lá não estão, o que até agradeço. De manhã sou ...