16.1.06

Isabel

De histórias de amor percebo pouco ou nada. Nunca foi o meu forte. Quanto mais conheço, mais tenho a sensação de que é um mundo em que não vale a pena entrar. Não por fobia, ou dúvida ou qualquer outro motivo tão irracional quanto o medo. Acho que a sucessão de experiências me levou a dispensar a loucura de algo mais que o biológico roçar de corpos. O amor não é mais que isso, uma reacção química para disfarçar a necessidade de toque, de presença. A mim chega o som da televisão que ligo sempre que chego a casa, e que nunca vejo. A mim chegam as mulheres que consigo seduzir, e a quem explico cuidadosamente que não posso oferecer mais do que o meu corpo.

Aceitam sempre, pelo menos no momento, aceitam sempre. Depois desaparecem revoltadas, raivosas como se não tivessem na realidade aceite o corpo que as satisfez. Como se não padecessem da mesma necessidade que eu, como se os seus corpos não lhes pedissem o mesmo que o meu. Quando acordo já lá não estão, o que até agradeço. De manhã sou rabugento, e em casa prefiro a televisão a uma mulher.

A Isabel foi diferente, recusou-me o corpo. Assim me puxou para ela. Olhos redondos, grandes. Seios perfeitos, do tamanho da mão. A alvura da pele a contrastar com o colorido das roupas. A Isabel sorria enquanto me falava de amor. Por educação deixei-a acabar. Como a todas as outras expliquei os meus termos. Que era só o corpo e nada mais. Que se quisesse podia ir embora. Sem dúvida, uma conversa demasiado séria para duas pessoas terem deitadas numa cama, com a pouca roupa que ainda têm vestida a pedir para sair.

Porque o corpo suplicava, e não a cabeça (nunca a cabeça), pedi-lhe que ficasse, que fosse embora só de manhã. Com os olhos maiores do que nunca disse-me que ficava, mas que não me dava o corpo. Disse que dormia ao meu lado, que me iria fazer o pequeno-almoço.

– De manhã, só bebo café. por favor não fiques.

– Será o melhor café que já bebeste.

Com isto, abriu o armário, mexeu nas minhas coisas – o que eu procurei ignorar – e escolheu uma camisa minha para se tapar. Talvez para me obrigar a não pensar no seu corpo com o qual continuei a imaginar. Desligou a televisão, que eu voltei a ligar logo depois. Voltou a desligar e eu voltei a ligar, repetição que se repetiu até concordarmos em que ficaria ligada sem som. Disse-me boa noite, sem beijo, e adormeceu, como se toda a vida tivesse dormido ao meu lado. Depois de muitas voltas lá consegui adormecer também, o corpo pedia-me aquilo que a Isabel não me iria dar.

O café, reconheci a contra-gosto, estava bom. Ainda assim, durante as duas primeiras horas nada disse, sentei-me em frente à televisão, bebi o café que realmente estava óptimo e fumei vários cigarros, sem ter ainda lucidez para os contar. Nesse tempo, a Isabel arrumou a casa que estava organizadamente desarrumada. Nunca tive empregada pela violação de privacidade que implica ter alguém a arrumar as minhas coisas. Tenho muitas insónias e as limpezas dão-me sono. Mando lavar e engomar a minha roupa fora, longe de casa. Não gosto que mexam nas minhas coisas, e ao contrário da camisa, desta vez não consegui ignorar. Levantei-me, atravessei o corredor em passo acelerado, pesado, que a Isabel não ouviu por estar a cantar enquanto limpava o pó de uma estante carregada de livros que eu cuidadosamente desarrumara. Entrei no quarto, hesitei.

– Porque fazes isto? – explodi revoltado, raivoso.

– Porque gosto de ti.

Assim, a Isabel, que me recusou o corpo, destruiu-me a Razão.