Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta fiction

resignação

Não sei como explicar isto. É difícil perceber esta coisa a que chamam coração e que não é mais que uma amálgama de sentimentos. Dói mais assim. Não poder rasgar o peito e agarrar qualquer coisa até que pare. Dói mais assim. Há dias que parecem demasiado longos, outros demasiado curtos e é isso que os distingue. Acordo, adormeço (quase sempre com dificuldade), e dias há em que nada acontece pelo meio. É uma dor generalizada. Sem que consiga distinguir onde mais dói. Se é ansiedade, melancolia ou paixão, não sei. Não é fácil. Não sei como explicar. Mas começo por isto: sinto uma permanente saudade de tudo. Do que passou e do que está para vir. Foi isso que me fez voltar. Foram as saudades daquilo que sentia quando bebíamos sumo de morango, em picnics improvisados no quintal de tua casa. E tu dizias: és irremediavelmente defeituoso. E sorrias. E agarravas-me a mão e dizias: mas tens bom coração. Parecias gostar de mim. Quando o Outono chegou deixámos de nos encontrar. Ficou a saudade. Co...
Café. Banho. Talvez o banho primeiro. Disseste: fica só mais uns minutos. Trocámos dois ou três beijos que não contei para não parecerem poucos. Passei a mão pelo teu braço, à procura daquela tua marca de nascimento, para ter a certeza que estava acordado. Que eras tu. Disseste: já podes ir, é aqui que o fim começa. Perguntaste sem deixar de olhar a parede: o que ficou por dizer? Respondi: o fim começou muito tempo tempo antes de nós.

the more things change, the more they stay the same

Era capaz de jurar que a certa altura dissemos para sempre e que isso foi o princípio do fim. Era capaz de jurar que não foi mais que um piscar de olhos entre a eternidade e o fim. Até um dia, daqui a muito tempo, numa rua de Tóquio ou qualquer outro sítio do mundo. Foi assim. Sem mais. Porque é assim que tudo acaba. Sem mais. Eu sei. Parece que o tempo parou. Que tudo mudou e ficou na mesma. Sem espaço para duvidar da lógica ou da falta dela. Parei o carro à porta de tua casa, e tu entraste. Como sempre. Bebemos café, bebemos vinho, sentámo-nos à mesa, no sofá. Apagámos o tempo. Como se tivesse parado no momento em que te disse adeus. O vazio que parecia esquecido preencheu-se. Como se o lugar nunca tivesse deixado de ser teu, ainda que os sentimentos sejam outros. A única coisa a que me posso agarrar é saber que ocupas demasiado espaço em mim para te poder ter na minha vida sem ser por inteiro. E não sei o que fazer com isso.
Entre aqueles dois quadros, consigo imaginar o desenho que me desenhaste e nunca chegaste a oferecer. Mas ainda me lembro dele. Do desenho em si apenas de forma vaga. Um esboço do teu esboço. Lembro-me de mo mostrares ao longe, porque “de perto notam-se as imperfeições”. Disseste: vou fazer outro, melhor. Mal nos conhecíamos, e digo isto como se hoje fosse diferente, como se nos conhecêssemos melhor. É mais fácil assim. Na verdade, ninguém pode conhecer quem seja para além de si mesmo, nem isso. É mais fácil, tudo o que vá mais além é assustador, o que não é difícil. Quase tudo me apavora terrivelmente. O amor é uma dessas coisas, mas não vem a propósito. Poupamos trabalho e dedicamo-nos a outros desafios. Gostava de poder ter esse desenho na parede. Hoje, resto único daquilo que poderíamos ter sido e nunca fomos e ainda bem. Talvez preenchesse um outro vazio qualquer que não o que tu deixaste. Afinal, funcionamos todos assim: compensamos umas coisas com as outras e chegamos ao fim e n...

a morte pelo meio

Não sei bem por onde começar. Quando a monotonia se instala durante algum tempo, a tendência é para que depois aconteça tudo de uma vez. O coração quase que pára, mas não. Ainda não é desta. As pessoas morrem de muitas formas, outras nunca morrem. Death and taxes . Mas nem isso. Cada vez tenho menos certezas e ainda bem. Começo a gostar. Percebo pouco sobre a vida, e ainda menos sobre o amor. Sou sozinho, e a paixão tem por hábito trazer ao de cima o pior em mim. Nunca percebi esta contradição. Ando por aí à deriva e não me sinto perdido. Um passo a seguir ao outro. Sem mais a acrescentar. Estranho? Talvez. Mas nem por isso confuso. As coisas sucedem-se, umas depois das outras sem dar tempo para respirar. Saí de casa, voltei quando a tempestade passou. A morte pelo meio.

causa-consequência

Os acontecimentos decorrem ao longo do tempo como consequência de uma qualquer causa. Começam e acabam em momentos facilmente identificáveis. Parece simples, não parece? Mas não é. Há sempre algo que nos faz voltar, e a saudade não explica tudo. Provavelmente não explica absolutamente nada. De nós, ficou o silêncio que nos era tudo (e que agora é mesmo tudo). Um fosso intransponível. Sei cada vez menos, como qualquer outro. Acumulo memórias que não arquivo devidamente. Prendo-as às coisas para que não desapareçam e agarro-me ao que fomos. É a única forma de esquecer o que hoje somos. É a solução mais saudável, a única forma de continuar. É um bicho estranho, o humano. Somos, ou éramos, ou fomos. Confundo facilmente os tempos verbais quando falo de ti. Em pensamento é menos confuso. Somos, perdão, fomos perfeitos. Em tudo: nos sorrisos, nos abraços, nos risos, nas palavras, nos momentos, nas conversas noite fora e dia também, nos filmes, na música. Fomos mais do mesmo e soubemo-nos bem ...

não és tu, sou eu.

Tiras-me o coração do sítio. Às vezes pergunto-me se valerá a pena. Os suspiros afiados, isto é. As noites que se estendem até ser dia. Os dias a subtraírem-se uns aos outros e talvez me façam falta depois. Não sei para onde vou. São quase oito da noite e é possível que me tenha enganado no caminho para casa. Os dias estão mais curtos e há algo de reconfortante nisso. Pousei as malas que não tenciono desfazer. Descalcei-me. Espero ter trazido tudo excepto o coração. Faz-me esse último favor: guarda-o até conseguir arranjar-lhe de novo espaço no peito. Não quero confundir depressão com melancolia. Por enquanto não. Ainda é cedo para viver e não vale a pena ter pressa em voltar. Talvez esconda as malas num armário para não me lembrar delas, talvez as deite fora. Tiras-me o coração do sítio. Talvez vá a Paris. Talvez aprenda finalmente a tocar piano. Gostava de saber cantar. Ou dançar. Um dia talvez comece de novo. Não olhaste para trás quando te despediste. Disse-te: não és tu, sou eu. A...
Talvez seja melhor assim. Sem palavras pesadas e mergulhados em silêncio. Eu viro costas e tu também. Os caminhos separam-se num até já e com demasiado por dizer. Não vale a pena insistir. Digo-te que vou comprar tabaco, que vou ter que ficar a trabalhar até tarde. Qualquer coisa simples. Que se perceba que é mentira, mas que seja incontestável. Se chegámos até aqui foi por mero acaso. Uma coincidência delimitada no espaço e no tempo. Nada nos empurra para a frente. Talvez seja melhor assim.

entre o candeeiro e o sinal.

- É esta a minha casa. Podes parar aí, entre o candeeiro e o sinal. Ele parou o carro e desligou o motor. Não disse nada para não a encorajar a sair. Ela procura as chaves de casa na carteira. Sente-se frustrada porque nunca encontra nada. Ele sente-a a fugir e sabe que tem que fazer algo. - O jantar estava bom, não estava? Devíamos repetir. Ela responde que sim e não diz mais nada. Olha em frente. Tem as chaves de casa na mão e não diz nada. Ele olha para ela e depois olha em frente, tentando ver o mesmo que ela. Ficam assim uns minutos. Ela mexe no rádio, procura uma estação que não incomode demasiado. Explica-lhe que ainda não recuperou do último namorado, que já passou mais de um ano mas que ainda sente o cheiro dele na roupa. Tudo lhe lembra ele, porque ele era, é, tudo. Talvez nunca deixasse de o ser. Volta a mexer no rádio. - Não consigo ouvir esta música. Ele não pergunta porquê. Hesita em dizer o que seja. Ela continua a falar, mais sozinha que com ele. Não sabe porque o faz p...
Quero matar-te. Estou apaixonado. É a pior que me pode acontecer. O que quer que seja é o primeiro passo para o fim de tudo. Acontece sempre demasiado cedo e é como uma bomba. Destrói tudo. Começa em mim e depois propaga-se. Só pára quando nada mais restar que não nós. Não sou assim. Estou apaixonado. Não consigo evitar este desejo de tudo incendiar. Não dá. Mais vale esquecer. Não dá. O corpo já não aguenta o coração. Senta-te aí. Enche o copo. Acende um cigarro. Estás confortável? Óptimo. Sabes o que tens a fazer. Tens-me acorrentado e só tens que puxar o gatilho. Não sei como isto foi acontecer. Sabes o que tens a fazer. Diz-me que nunca mas nunca mesmo. E não me digas que nunca é demasiado forte. Puxa o gatilho. Não sabes? Claro que sabes. No teu coração não há lugar para mim. Puxa o gatilho. Vá, tu consegues. Porquê a hesitação? Bebe mais um copo, dois. Embebeda-te terrivelmente e que isso te sirva de desculpa. Mata-me. Anda lá. Chorar é para os fracos. Não consegues? Porquê? Mata...
Primeiro foram as fotografias. Apaixonei-me por elas, como se fosse possível alguém se apaixonar por um simples olhar, um ponto de vista. Só depois vieste tu. Trazias nos lábios o silêncio quebrado pelas palavras adequadas. Bebias demasiado café porque tinhas medo de adormecer. Dizias: os fantasmas estão mais vivos à noite. E bebias mais café, não fossem eles assombrar-te. Fotografavas tudo. Como se não fosse possível algo fazer sentido sem um enquadramento devidamente escolhido. Fotografavas-te a ti. Para teres a certeza que ainda estavas viva. Era essa a tua forma de comunicar, já que as palavras pareciam descair sempre para o silêncio. Um dia disseste que tinhas saudades do mar, de pisar a areia. Se te podia levar lá. Disse-te que sim, na condição de não voltarmos. De ficarmos por lá sem haver mais nada. As ondas a deslizarem na areia e a vida a passar. Sem mais nada. No carro, a caminho do mar, qualquer que fosse o mar, olhaste-me e sorriste. Como se me olhasses através da máq...
Separava-os a distância de um cigarro. O que ele fumava pelo caminho todas as noites. Ela não. Raramente fumava e quando o fazia tinha que estar sentada a beber algo. Só assim. Naquele dia ele entrou em casa dela com a chave que tinha para qualquer emergência. Ela vivia sozinha e perdia quase tudo. Abriu a porta, chamou-a. Sentou-se no sofá, acendeu um cigarro. Antes que ela pudesse reclamar por ele não ter tocado à campainha, disse: és o último amor da minha vida. Disse: não quero procurar mais, encontrei, encontrei-te, depois de ti não poderei voltar a amar, és perfeita. Pensou: roubava-te um beijo se a vergonha depois não me impedisse de voltar a ver-te.

antes morrer.

Não gosto da felicidade. É um sobressalto. Nunca saber com o que contar. Quando é que se vai cair outra vez. Mais vale assim. Sem ambição, esperança, sonhos. Sem sequer um augúrio de algo que possa estar para viver. O melhor é não esperar nada. Esquecer tudo. Apaixonar-me sem qualquer esperança por alguém que seja como uma parede. Capaz de ouvir. Incapaz de reagir. Por alguém que deposite as suas mágoas em mim, mas só isso. E que parta quando já nada mais houver para sarar, sem que tenha chegado a dar mais que uma marca profunda na pele. O arrependimento do que nunca chega a acontecer. A dor por companhia. A consciência de nunca caber em lado algum. Arrastar os dias só porque sim. Mais vale isto. Sei com o que contar que é nada. Mais vale isto. Nunca esperar por aquilo que preciso. Ouvir as mágoas porque é tudo que se pode alcançar. Guardar-me em silêncio para não me deixarem a meio. Aguentar. O que é preciso é aguentar. Sobreviver custe o que custar. Só para não dar parte fraca. Ser f...
Começou no carro. No trânsito a ouvir a estação de rádio de sempre, a música que dava vezes e vezes sem fim. Batia com os dedos no volante a acompanhar o ritmo. Apercebeu-se que a música mais não é que um sequência lógica e matemática de sons. Foi aí que começou. Sabe-o agora que é tarde demais. Todos os dias, no carro, a ir para o emprego ou a voltar para casa, fosse qual fosse a música, tentava encontrar-lhe a fórmula, e daí encontrar a fórmula que se aplicasse a todas as músicas. Percebeu o porquê dos diferentes estilos musicais e representou-o em números. Depois descobriu que os livros, os filmes, tudo o que contasse uma história seguia determinados padrões que não podiam ser alterados. Só assim fazia sentido. Anota tudo. Escreveu uma tese que jamais alguém aceitou, e achou que talvez ficasse famoso por encontrar a sequência de todo o comportamento humano. Anos e anos de pesquisa científica resumidos em algumas páginas. Acredita ter um dom que lhe permitia padronizar tudo. Tudo. ...
Para o bem e para o mal. É quase perverso este tudo querer. Gostava que isto acabasse aqui. Num beijo ou noutra coisa qualquer que mate o coração de uma vez por todas. Eu ainda acredito. E tu nem sequer existes. Gostava que isto não tivesse chegado sequer a começar. O coração não aguenta. Agora é tarde demais. Conheces-me demasiado para que te possa deixar partir sem antes te matar em mim. É a última vez. Como todas as outras últimas vezes. Tenho o coração gasto, como em todas as outras vezes. Roubas-me o mundo logo pela manhã, quando abres os olhos. O silêncio fica-te tão bem. És linda. Muito mais que muito. A culpa é tua. És adorável. A culpa é minha por não te ter mantido à distância. Gostava que isto acabasse aqui. Para o bem e para o mal. Sem ter que te matar. Não quero. Tenho o coração gasto de tanto gostar e mesmo assim continuo. Não sei porquê. Nem como. Acordo todos os dias a pensar invariavelmente em ti. E não sei adormecer sem ti. Uma qualquer limitação fisiológica imposta ...
A Sofia tem um namorado novo. É fotógrafo. Quase nunca se vêem e não tem mal. Encontram-se ao domingo. É sagrado. Para ele. Ela gosta do silêncio na casa, de encontrar as coisas onde as deixou. Só sente falta de alguém quando está doente e tem que cuidar de si mesma. Mas não é isso que a afasta do seu silêncio. Tem dias em que gostava de o sentir por perto. Em especial às quartas, quando a semana vai a meio e o cansaço se sente mais. Mas resiste. Não lhe telefona, não diz nada. Ele que telefone, que ela passa bem sem pessoas e não gosta assim tanto de sexo. Um destes domingos chegou a casa dele apressada. Ansiosa. Disse: é quase noite, temos que aproveitar enquanto há luz. À noite tudo morre, até nós. Pousou a carteira, ofereceu-lhe um beijo que ele recusou sem saber bem porquê. Talvez saiba. Sentou-se na cama coberta de branco imaculado. Começou a tirar a roupa. Estende a mão para uma das câmaras espalhadas pela casa e dá-lha. Diz-lhe que faça dela o que quiser e ele não sabe o que ...
Ela sabia que se desaparecesse ninguém reparava. E ninguém reparou.
Já não sabia que mais fazer para continuar a amá-lo. As recordações começavam a desaparecer, ainda que mantivesse intactas as fotografias dele na parede. Sentava-se regularmente no sofá onde se deitavam os dois. Abria um livro. Fechava o livro para se concentrar nas recordações que lhe fugiam, não queria correr o risco de se projectar nas personagens do livro e confundir tudo. Recusava os comprimidos que um tio que era médico lhe tinha dado. Queria manter-se lúcida, real. Falava regularmente com as fotografias dele, com as fotografias dos dois em Copenhaga. Tinha a casa sempre cheia de sons e de pó. Ouvia as músicas que ambos ouviam no carro quando passeavam lentamente pela marginal e eram cobertos de buzinas pelos mais apressados. O tempo passava devagar, quase parado. O seu olhar a absorver tudo, a sentir tudo, com a mão esquerda por cima da dele na alavanca das mudanças. Um dia começaram no mar e só pararam na nascente de um rio que desaguava nesse mesmo mar. Pediu-lhe que fica...

espelho de ti

Gosto pouco de cortar o cabelo, as lâminas rentes à cabeça incomodam-me. Mas o pior não é isso. São os espelhos por todo o lado, a obrigação de me olhar nos olhos sem o alívio de poder passar água na cara. Obrigam-me a tirar os óculos. A visão deturpa-se, mas não esconde as olheiras. Não disfarça os olhos cansados, os lábios secos da espera. O corpo que amadurece e se prepara para envelhecer. Quando dou por mim, e faço-o sempre tarde demais, estou demasiado mergulhado em quem sou. Como se entrasse pelos meus próprios olhos e pela minha própria boca a dentro e violasse todas as recordações. Mergulho demasiado em mim, e é como se mergulhasse também nos teus olhos e no teu corpo. É assustador ver de perto este amor que nos separa. O barbeiro pousa as lâminas, pega no espelho pequeno que mostra a nuca e não mostra nada. Pergunta-me se está bem assim e nunca lhe diria que não. Ponho os óculos. Espero os segundos necessários para que a visão se reajuste. Respiro de alívio. Tenho meno...
Consigo hoje descrever cada uma das razões porque te amo. Sei onde começou e porquê. Sei qual é a parte do teu corpo doce de que gosto mais, e já não te respondo com um simples "todo". Sei onde, como, porquê e quando. Consigo explicar cada detalhe, cada momento, cada estremecer do corpo quando estás por perto. É por isso que tem que acabar, o amor só pode existir quando não há razão para que exista.