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10.12.10

resignação

Não sei como explicar isto. É difícil perceber esta coisa a que chamam coração e que não é mais que uma amálgama de sentimentos. Dói mais assim. Não poder rasgar o peito e agarrar qualquer coisa até que pare. Dói mais assim. Há dias que parecem demasiado longos, outros demasiado curtos e é isso que os distingue. Acordo, adormeço (quase sempre com dificuldade), e dias há em que nada acontece pelo meio.

É uma dor generalizada. Sem que consiga distinguir onde mais dói. Se é ansiedade, melancolia ou paixão, não sei. Não é fácil. Não sei como explicar. Mas começo por isto: sinto uma permanente saudade de tudo. Do que passou e do que está para vir. Foi isso que me fez voltar. Foram as saudades daquilo que sentia quando bebíamos sumo de morango, em picnics improvisados no quintal de tua casa. E tu dizias: és irremediavelmente defeituoso. E sorrias. E agarravas-me a mão e dizias: mas tens bom coração. Parecias gostar de mim.

Quando o Outono chegou deixámos de nos encontrar. Ficou a saudade. Contigo era mais fácil: entendias-me melhor. Mesmo quando eu usava quarenta palavras para explicar aquilo para que bastava apenas uma. Ficou a saudade, ficou a dor indistinguível que arrasta as horas, e apenas duas coisas para entreter o coração: a esperança de voltar ao que tive e a resignação de não o poder fazer.

18.2.10

Café. Banho. Talvez o banho primeiro. Disseste: fica só mais uns minutos. Trocámos dois ou três beijos que não contei para não parecerem poucos. Passei a mão pelo teu braço, à procura daquela tua marca de nascimento, para ter a certeza que estava acordado. Que eras tu. Disseste: já podes ir, é aqui que o fim começa. Perguntaste sem deixar de olhar a parede: o que ficou por dizer? Respondi: o fim começou muito tempo tempo antes de nós.

4.12.09

the more things change, the more they stay the same

Era capaz de jurar que a certa altura dissemos para sempre e que isso foi o princípio do fim. Era capaz de jurar que não foi mais que um piscar de olhos entre a eternidade e o fim. Até um dia, daqui a muito tempo, numa rua de Tóquio ou qualquer outro sítio do mundo. Foi assim. Sem mais. Porque é assim que tudo acaba. Sem mais. Eu sei. Parece que o tempo parou. Que tudo mudou e ficou na mesma. Sem espaço para duvidar da lógica ou da falta dela.

Parei o carro à porta de tua casa, e tu entraste. Como sempre. Bebemos café, bebemos vinho, sentámo-nos à mesa, no sofá. Apagámos o tempo. Como se tivesse parado no momento em que te disse adeus. O vazio que parecia esquecido preencheu-se. Como se o lugar nunca tivesse deixado de ser teu, ainda que os sentimentos sejam outros. A única coisa a que me posso agarrar é saber que ocupas demasiado espaço em mim para te poder ter na minha vida sem ser por inteiro. E não sei o que fazer com isso.

6.1.09

Entre aqueles dois quadros, consigo imaginar o desenho que me desenhaste e nunca chegaste a oferecer. Mas ainda me lembro dele. Do desenho em si apenas de forma vaga. Um esboço do teu esboço. Lembro-me de mo mostrares ao longe, porque “de perto notam-se as imperfeições”. Disseste: vou fazer outro, melhor. Mal nos conhecíamos, e digo isto como se hoje fosse diferente, como se nos conhecêssemos melhor. É mais fácil assim. Na verdade, ninguém pode conhecer quem seja para além de si mesmo, nem isso. É mais fácil, tudo o que vá mais além é assustador, o que não é difícil. Quase tudo me apavora terrivelmente. O amor é uma dessas coisas, mas não vem a propósito. Poupamos trabalho e dedicamo-nos a outros desafios.

Gostava de poder ter esse desenho na parede. Hoje, resto único daquilo que poderíamos ter sido e nunca fomos e ainda bem. Talvez preenchesse um outro vazio qualquer que não o que tu deixaste. Afinal, funcionamos todos assim: compensamos umas coisas com as outras e chegamos ao fim e não fizemos nada porque sim. Faz parte, não é? Somos um puzzle de peças encaixadas fora de lugar: forçadas, encravadas, e no fim não corresponde ao desenho da caixa, vá-se lá entender porquê.

Um dia foste embora e não nos despedimos sequer, não era preciso. Nunca nos uniu mais do que a sorte que une dois estranhos com lugares aleatoriamente juntos no comboio. Mas hoje, ao olhar para a parede em branco, lembrei-me de ti. E lembrei-me de muito mais do que gostava de ser capaz.

2.12.08

a morte pelo meio

Não sei bem por onde começar. Quando a monotonia se instala durante algum tempo, a tendência é para que depois aconteça tudo de uma vez. O coração quase que pára, mas não. Ainda não é desta. As pessoas morrem de muitas formas, outras nunca morrem. Death and taxes. Mas nem isso. Cada vez tenho menos certezas e ainda bem. Começo a gostar.

Percebo pouco sobre a vida, e ainda menos sobre o amor. Sou sozinho, e a paixão tem por hábito trazer ao de cima o pior em mim. Nunca percebi esta contradição. Ando por aí à deriva e não me sinto perdido. Um passo a seguir ao outro. Sem mais a acrescentar. Estranho? Talvez. Mas nem por isso confuso. As coisas sucedem-se, umas depois das outras sem dar tempo para respirar. Saí de casa, voltei quando a tempestade passou. A morte pelo meio.

21.11.08

causa-consequência

Os acontecimentos decorrem ao longo do tempo como consequência de uma qualquer causa. Começam e acabam em momentos facilmente identificáveis. Parece simples, não parece? Mas não é. Há sempre algo que nos faz voltar, e a saudade não explica tudo. Provavelmente não explica absolutamente nada. De nós, ficou o silêncio que nos era tudo (e que agora é mesmo tudo). Um fosso intransponível.

Sei cada vez menos, como qualquer outro. Acumulo memórias que não arquivo devidamente. Prendo-as às coisas para que não desapareçam e agarro-me ao que fomos. É a única forma de esquecer o que hoje somos. É a solução mais saudável, a única forma de continuar. É um bicho estranho, o humano.

Somos, ou éramos, ou fomos. Confundo facilmente os tempos verbais quando falo de ti. Em pensamento é menos confuso. Somos, perdão, fomos perfeitos. Em tudo: nos sorrisos, nos abraços, nos risos, nas palavras, nos momentos, nas conversas noite fora e dia também, nos filmes, na música. Fomos mais do mesmo e soubemo-nos bem assim. Faltou-nos o mais importante: gostar. Gostar um do outro como se nada mais houvesse para gostar. Ou simplesmente gostar: como quem gosta mais da manhã ou da noite. Fomos mais do mesmo e soubemo-nos bem assim. Enquanto durou.

Há sempre algo que nos faz voltar. Se é que se pode voltar a algo que nunca chegámos a acabar. A saudade não explica nada. Quando nada mais sobra, quando tudo parece perdido e só nos temos a nós somos (éramos, desculpa, mas não podemos continuar assim) o oásis que nos esconde do mundo. Depois endireitamos os ombros, erguemos a cabeça, olhamos à volta e os dias já não são tão escuros. Enchemo-nos de força e deixamos de nos achar tão perfeitos assim. Afinal, nem sequer gostamos. Mas, bem sei, acabamos por voltar. É irresistível. A saudade não explica nada.

28.10.08

não és tu, sou eu.

Tiras-me o coração do sítio. Às vezes pergunto-me se valerá a pena. Os suspiros afiados, isto é. As noites que se estendem até ser dia. Os dias a subtraírem-se uns aos outros e talvez me façam falta depois. Não sei para onde vou. São quase oito da noite e é possível que me tenha enganado no caminho para casa. Os dias estão mais curtos e há algo de reconfortante nisso.

Pousei as malas que não tenciono desfazer. Descalcei-me. Espero ter trazido tudo excepto o coração. Faz-me esse último favor: guarda-o até conseguir arranjar-lhe de novo espaço no peito. Não quero confundir depressão com melancolia. Por enquanto não. Ainda é cedo para viver e não vale a pena ter pressa em voltar. Talvez esconda as malas num armário para não me lembrar delas, talvez as deite fora. Tiras-me o coração do sítio.

Talvez vá a Paris. Talvez aprenda finalmente a tocar piano. Gostava de saber cantar. Ou dançar. Um dia talvez comece de novo. Não olhaste para trás quando te despediste. Disse-te: não és tu, sou eu. Acho que te disse: conheci outra pessoa. E podia ter dito qualquer coisa que te fizesse não voltar atrás. Preciso da solidão mais que tudo. Agora tenho dúvidas. Talvez me arrependa. Talvez não. Por via das dúvidas, acendo um cigarro que me sabe mal. Disse-te: não és tu, sou eu. E sou mesmo. Nem os pés contra o chão de madeira me demovem disso. No meio do caos há pessoas diferentes das outras. Produtos defeituosos com excesso de coração e pensamento. Sim, vivo demasiado em mim e às vezes não tenho espaço para mais ninguém. Não és tu, sou eu. Tenho mais prazer numa vida imaginada – em ilusões, sonhos que nunca passam disso mesmo, em antecipações de qualquer coisa que pode acontecer –, que nas coisas demasiado reais. Talvez um dia comece de novo e seja diferente.

Mas, sabes, o problema é que são muito poucos os inícios que valem a pena continuar. A primeira vez é sagrada. E sempre melhor. Insistir é apenas a tentativa de regressar a algo que jamais se pode voltar a sentir. Não vale a pena. Na maior parte das vezes nem é preciso começar. O melhor é sempre a incerteza do que está para acontecer. A dúvida de que possa acontecer. É a adrenalina e sei lá que hormonas mais a acelerar pelas veias feitas auto-estradas. A expectativa. Aqueles últimos dois segundos antes do primeiro beijo. Sim, também me pareceram pelo menos trinta segundos quando nos beijámos a primeira vez: tínhamos ido ver um filme francês, passado em Montmartre, quis mostrar-te aquelas ruas antes de te levar lá. Repetimos a sucessão de beijos da cena: na bochecha, no pescoço, no olho. Primeiro eu a ti, depois tu a mim. Só então os lábios se tocaram. No final, sorrimos e saímos de mãos dadas. Mas isso foi antes.

O problema é parar. É um vício que nos assalta o cérebro. Valemo-nos de tudo para não esquecer aquilo que procuramos e, ainda assim, acabamos sempre cair exaustos sem saber o que procuramos ao certo. O problema é começar de novo: encaixar o coração de volta e partir à procura daquilo que nunca existiu.

Disse-te: não és tu, sou eu. Agora tenho dúvidas. Talvez me arrependa. Talvez não. Esperei junto ao telefone que ligasses só para não atender. Esfreguei os pés um no outro. Tenho saudades. Talvez me arrependa. Talvez não. O que eu não esperava é que tu soubesses que nada me fará mudar de ideias. Agora não importa. É demasiado tarde e as intenções não contam para nada.

20.7.08

Talvez seja melhor assim. Sem palavras pesadas e mergulhados em silêncio. Eu viro costas e tu também. Os caminhos separam-se num até já e com demasiado por dizer. Não vale a pena insistir. Digo-te que vou comprar tabaco, que vou ter que ficar a trabalhar até tarde. Qualquer coisa simples. Que se perceba que é mentira, mas que seja incontestável. Se chegámos até aqui foi por mero acaso. Uma coincidência delimitada no espaço e no tempo. Nada nos empurra para a frente. Talvez seja melhor assim.

11.7.08

entre o candeeiro e o sinal.

- É esta a minha casa. Podes parar aí, entre o candeeiro e o sinal.

Ele parou o carro e desligou o motor. Não disse nada para não a encorajar a sair. Ela procura as chaves de casa na carteira. Sente-se frustrada porque nunca encontra nada. Ele sente-a a fugir e sabe que tem que fazer algo.

- O jantar estava bom, não estava? Devíamos repetir.

Ela responde que sim e não diz mais nada. Olha em frente. Tem as chaves de casa na mão e não diz nada. Ele olha para ela e depois olha em frente, tentando ver o mesmo que ela. Ficam assim uns minutos. Ela mexe no rádio, procura uma estação que não incomode demasiado. Explica-lhe que ainda não recuperou do último namorado, que já passou mais de um ano mas que ainda sente o cheiro dele na roupa. Tudo lhe lembra ele, porque ele era, é, tudo. Talvez nunca deixasse de o ser. Volta a mexer no rádio.

- Não consigo ouvir esta música.

Ele não pergunta porquê. Hesita em dizer o que seja. Ela continua a falar, mais sozinha que com ele. Não sabe porque o faz porque tanto faz. Perdeu a vida e tarda em reencontrá-la. O coração insiste em permanecer parado, o sangue não circula. Tem o corpo gelado. Ainda não consegue sair da concha em que se fechou. Não tem afectos para dar.

- As pessoas também hibernam, andam por aí sonolentas. Como se nada as afectasse. Ninguém percebe que é por não conseguirem sentir, por não conseguirem dar o que seja. É uma questão de sobrevivência. O que não faz sentido, porque também não estou viva.

Ela encolhe os ombros. Ele brinca com a chave na ignição. Diz-lhe que tudo vai ficar bem. Que pode esperar. Diz-lhe que é linda e que de certeza os olhos lhe voltarão a brilhar. Está apaixonado sem qualquer esperança. Sabe que nunca a terá, mas ainda não sabe que não a voltará a ver. Puxa-a para um abraço que ela finge aceitar. O coração permanece parado e lembra-se dos abraços que sabiam a mil. Ele acredita que lhe conquistou a confiança e para ela foi indiferente. Ele tem o coração cheio, a transbordar. Ela lembra-se do amor que ainda sente e tem vontade de chorar.

- Acho que vou entrar. Obrigado pelo jantar.

Ele que repete que deveriam repetir e fica à espera que ela entre. Liga o carro e olha para o sinal, que só agora repara ser de sentido único.

7.7.08

Quero matar-te. Estou apaixonado. É a pior que me pode acontecer. O que quer que seja é o primeiro passo para o fim de tudo. Acontece sempre demasiado cedo e é como uma bomba. Destrói tudo. Começa em mim e depois propaga-se. Só pára quando nada mais restar que não nós. Não sou assim. Estou apaixonado. Não consigo evitar este desejo de tudo incendiar. Não dá. Mais vale esquecer. Não dá. O corpo já não aguenta o coração. Senta-te aí. Enche o copo. Acende um cigarro. Estás confortável? Óptimo. Sabes o que tens a fazer. Tens-me acorrentado e só tens que puxar o gatilho. Não sei como isto foi acontecer. Sabes o que tens a fazer. Diz-me que nunca mas nunca mesmo. E não me digas que nunca é demasiado forte. Puxa o gatilho. Não sabes? Claro que sabes. No teu coração não há lugar para mim. Puxa o gatilho. Vá, tu consegues. Porquê a hesitação? Bebe mais um copo, dois. Embebeda-te terrivelmente e que isso te sirva de desculpa. Mata-me. Anda lá. Chorar é para os fracos. Não consegues? Porquê? Mata-me de uma vez, porra! É o que dói mais. Esta indefinição de nunca sermos capazes de nos matar. Esta explosão contida mil vezes a consumir o oxigénio. O coração histérico. Eu não sou assim. Estou apaixonado. É o fim de tudo.

26.6.08

Primeiro foram as fotografias. Apaixonei-me por elas, como se fosse possível alguém se apaixonar por um simples olhar, um ponto de vista. Só depois vieste tu. Trazias nos lábios o silêncio quebrado pelas palavras adequadas. Bebias demasiado café porque tinhas medo de adormecer. Dizias: os fantasmas estão mais vivos à noite. E bebias mais café, não fossem eles assombrar-te.

Fotografavas tudo. Como se não fosse possível algo fazer sentido sem um enquadramento devidamente escolhido. Fotografavas-te a ti. Para teres a certeza que ainda estavas viva. Era essa a tua forma de comunicar, já que as palavras pareciam descair sempre para o silêncio. Um dia disseste que tinhas saudades do mar, de pisar a areia. Se te podia levar lá. Disse-te que sim, na condição de não voltarmos. De ficarmos por lá sem haver mais nada. As ondas a deslizarem na areia e a vida a passar. Sem mais nada.

No carro, a caminho do mar, qualquer que fosse o mar, olhaste-me e sorriste. Como se me olhasses através da máquina. Senti-me fotografado. Como se por qualquer razão estivesses a guardar aquele momento para sempre. Seguraste a minha mão que não largaste até chegarmos ao mar. Ficámos por lá. Até que as ondas nos levaram sem sequer dizermos adeus.

22.6.08

Separava-os a distância de um cigarro. O que ele fumava pelo caminho todas as noites. Ela não. Raramente fumava e quando o fazia tinha que estar sentada a beber algo. Só assim. Naquele dia ele entrou em casa dela com a chave que tinha para qualquer emergência. Ela vivia sozinha e perdia quase tudo. Abriu a porta, chamou-a. Sentou-se no sofá, acendeu um cigarro. Antes que ela pudesse reclamar por ele não ter tocado à campainha, disse: és o último amor da minha vida. Disse: não quero procurar mais, encontrei, encontrei-te, depois de ti não poderei voltar a amar, és perfeita. Pensou: roubava-te um beijo se a vergonha depois não me impedisse de voltar a ver-te.

15.6.08

antes morrer.

Não gosto da felicidade. É um sobressalto. Nunca saber com o que contar. Quando é que se vai cair outra vez. Mais vale assim. Sem ambição, esperança, sonhos. Sem sequer um augúrio de algo que possa estar para viver. O melhor é não esperar nada. Esquecer tudo. Apaixonar-me sem qualquer esperança por alguém que seja como uma parede. Capaz de ouvir. Incapaz de reagir. Por alguém que deposite as suas mágoas em mim, mas só isso. E que parta quando já nada mais houver para sarar, sem que tenha chegado a dar mais que uma marca profunda na pele. O arrependimento do que nunca chega a acontecer. A dor por companhia. A consciência de nunca caber em lado algum. Arrastar os dias só porque sim. Mais vale isto. Sei com o que contar que é nada. Mais vale isto. Nunca esperar por aquilo que preciso. Ouvir as mágoas porque é tudo que se pode alcançar. Guardar-me em silêncio para não me deixarem a meio. Aguentar. O que é preciso é aguentar. Sobreviver custe o que custar. Só para não dar parte fraca. Ser feliz é que não. Antes morrer.

10.6.08

Começou no carro. No trânsito a ouvir a estação de rádio de sempre, a música que dava vezes e vezes sem fim. Batia com os dedos no volante a acompanhar o ritmo. Apercebeu-se que a música mais não é que um sequência lógica e matemática de sons. Foi aí que começou. Sabe-o agora que é tarde demais. Todos os dias, no carro, a ir para o emprego ou a voltar para casa, fosse qual fosse a música, tentava encontrar-lhe a fórmula, e daí encontrar a fórmula que se aplicasse a todas as músicas. Percebeu o porquê dos diferentes estilos musicais e representou-o em números. Depois descobriu que os livros, os filmes, tudo o que contasse uma história seguia determinados padrões que não podiam ser alterados. Só assim fazia sentido.

Anota tudo. Escreveu uma tese que jamais alguém aceitou, e achou que talvez ficasse famoso por encontrar a sequência de todo o comportamento humano. Anos e anos de pesquisa científica resumidos em algumas páginas. Acredita ter um dom que lhe permitia padronizar tudo. Tudo. Senta-se à janela de casa, na mesa do canto de um café, num banco de jardim. Passa os dias e as horas a observar as pessoas. Seja quem for. Prometeu a si mesmo encontrar o segredo de tudo. A lógica matemática da vida. Esquece-se de comer, dormir, tomar banho. Esquece-se de si mesmo. Anota tudo. Calcula tudo. Não fala com ninguém. Não acha necessário. Recorta revistas e jornais. Lê muito. Tenta aplicar a tese que escrevera à sua nova teoria. As relações interpessoais são apenas relações comerciais. Tudo pode ser calculado e previsto.

No emprego finge trabalhar. Olha pela janela e bate com a caneta nos dentes ao ritmo da vida. Os colegas não se aproximam. O chefe acabará por despedi-lo. E ele não se importa. Sabe que está destinado a algo maior. Conseguiu reduzir uma relação entre duas pessoas a uma equação com diversas variáveis. Algumas entretanto transformadas em constantes. Contudo, na busca do seu destino maior, esqueceu-se do mais óbvio: as variáveis são isso mesmo. Variáveis.

29.5.08

Para o bem e para o mal. É quase perverso este tudo querer. Gostava que isto acabasse aqui. Num beijo ou noutra coisa qualquer que mate o coração de uma vez por todas. Eu ainda acredito. E tu nem sequer existes. Gostava que isto não tivesse chegado sequer a começar. O coração não aguenta. Agora é tarde demais. Conheces-me demasiado para que te possa deixar partir sem antes te matar em mim. É a última vez. Como todas as outras últimas vezes. Tenho o coração gasto, como em todas as outras vezes. Roubas-me o mundo logo pela manhã, quando abres os olhos. O silêncio fica-te tão bem. És linda. Muito mais que muito. A culpa é tua. És adorável. A culpa é minha por não te ter mantido à distância. Gostava que isto acabasse aqui. Para o bem e para o mal. Sem ter que te matar. Não quero. Tenho o coração gasto de tanto gostar e mesmo assim continuo. Não sei porquê. Nem como. Acordo todos os dias a pensar invariavelmente em ti. E não sei adormecer sem ti. Uma qualquer limitação fisiológica imposta no dia em que te vi. Esse sorriso catastrófico que tudo mata. Tenho o corpo vencido, cada poro entupido de ti. Tenho a dor de não me conseguir lembrar do teu cheiro. Por muito que o procure em todo o lado. Nas roupas. Nos livros. Nas recordações sempre demasiado enevoadas, demasiado ao longe. O meu coração não aguenta este passar lento dos dias a suspirar por qualquer coisa que nem eu sei bem o quê. Estou derrotado, vencido. E continuo. Amo-te. Para o bem e para o mal.

20.5.08

A Sofia tem um namorado novo. É fotógrafo. Quase nunca se vêem e não tem mal. Encontram-se ao domingo. É sagrado. Para ele. Ela gosta do silêncio na casa, de encontrar as coisas onde as deixou. Só sente falta de alguém quando está doente e tem que cuidar de si mesma. Mas não é isso que a afasta do seu silêncio. Tem dias em que gostava de o sentir por perto. Em especial às quartas, quando a semana vai a meio e o cansaço se sente mais. Mas resiste. Não lhe telefona, não diz nada. Ele que telefone, que ela passa bem sem pessoas e não gosta assim tanto de sexo.

Um destes domingos chegou a casa dele apressada. Ansiosa. Disse: é quase noite, temos que aproveitar enquanto há luz. À noite tudo morre, até nós. Pousou a carteira, ofereceu-lhe um beijo que ele recusou sem saber bem porquê. Talvez saiba. Sentou-se na cama coberta de branco imaculado. Começou a tirar a roupa. Estende a mão para uma das câmaras espalhadas pela casa e dá-lha. Diz-lhe que faça dela o que quiser e ele não sabe o que fazer. Dispara um rolo inteiro seguido. Sem olhar. Cada fotografia é uma bala a atravessar o coração. Sangra um sangue que não se vê.

A Sofia deita-se para trás na cama. Enrola-se em si mesma. O corpo esguio e a pele muito branca. Sente o diafragma da câmara a disparar uma vez mais. A alma a ser-lhe roubada. Quando já nada resta de si mesma, pega na roupa entretanto espalhada pelo quarto. Veste-se. Beija-lhe a face. Diz: até para a semana, talvez.

12.5.08

Ela sabia que se desaparecesse ninguém reparava.

E ninguém reparou.

11.5.08

Já não sabia que mais fazer para continuar a amá-lo. As recordações começavam a desaparecer, ainda que mantivesse intactas as fotografias dele na parede. Sentava-se regularmente no sofá onde se deitavam os dois. Abria um livro. Fechava o livro para se concentrar nas recordações que lhe fugiam, não queria correr o risco de se projectar nas personagens do livro e confundir tudo.

Recusava os comprimidos que um tio que era médico lhe tinha dado. Queria manter-se lúcida, real. Falava regularmente com as fotografias dele, com as fotografias dos dois em Copenhaga. Tinha a casa sempre cheia de sons e de pó. Ouvia as músicas que ambos ouviam no carro quando passeavam lentamente pela marginal e eram cobertos de buzinas pelos mais apressados. O tempo passava devagar, quase parado.

O seu olhar a absorver tudo, a sentir tudo, com a mão esquerda por cima da dele na alavanca das mudanças. Um dia começaram no mar e só pararam na nascente de um rio que desaguava nesse mesmo mar. Pediu-lhe que ficassem um pouco ali, e ele calou o motor. Não se ouvia nada. E ela deslizou no espaço exíguo do carro para o colo dele. Tirou-lhe a roupa sem nunca deixar de o olhar nos olhos. Tirou a sua própria roupa sem nunca deixar de o olhar nos olhos. Agarrou-o com força, com toda a força que tinha.

Fala regularmente com as fotografias dele, diz-lhes sempre boa noite quando se deita. Antes de adormecer jura ser capaz de sentir as mãos dele a percorrerem-lhe todo o corpo, sem se aperceber que são as suas próprias mãos que lhe percorrem o corpo.

6.5.08

espelho de ti

Gosto pouco de cortar o cabelo, as lâminas rentes à cabeça incomodam-me. Mas o pior não é isso. São os espelhos por todo o lado, a obrigação de me olhar nos olhos sem o alívio de poder passar água na cara. Obrigam-me a tirar os óculos. A visão deturpa-se, mas não esconde as olheiras. Não disfarça os olhos cansados, os lábios secos da espera. O corpo que amadurece e se prepara para envelhecer.


Quando dou por mim, e faço-o sempre tarde demais, estou demasiado mergulhado em quem sou. Como se entrasse pelos meus próprios olhos e pela minha própria boca a dentro e violasse todas as recordações. Mergulho demasiado em mim, e é como se mergulhasse também nos teus olhos e no teu corpo. É assustador ver de perto este amor que nos separa.


O barbeiro pousa as lâminas, pega no espelho pequeno que mostra a nuca e não mostra nada. Pergunta-me se está bem assim e nunca lhe diria que não. Ponho os óculos. Espero os segundos necessários para que a visão se reajuste. Respiro de alívio. Tenho menos cabelo, pareço mais velho. O que ainda não me desagrada, mas é sintoma de que me estou a enganar. Na idade, e contigo.

1.5.08

Consigo hoje descrever cada uma das razões porque te amo. Sei onde começou e porquê. Sei qual é a parte do teu corpo doce de que gosto mais, e já não te respondo com um simples "todo". Sei onde, como, porquê e quando. Consigo explicar cada detalhe, cada momento, cada estremecer do corpo quando estás por perto. É por isso que tem que acabar, o amor só pode existir quando não há razão para que exista.