Entre aqueles dois quadros, consigo imaginar o desenho que me desenhaste e nunca chegaste a oferecer. Mas ainda me lembro dele. Do desenho em si apenas de forma vaga. Um esboço do teu esboço. Lembro-me de mo mostrares ao longe, porque “de perto notam-se as imperfeições”. Disseste: vou fazer outro, melhor. Mal nos conhecíamos, e digo isto como se hoje fosse diferente, como se nos conhecêssemos melhor. É mais fácil assim. Na verdade, ninguém pode conhecer quem seja para além de si mesmo, nem isso. É mais fácil, tudo o que vá mais além é assustador, o que não é difícil. Quase tudo me apavora terrivelmente. O amor é uma dessas coisas, mas não vem a propósito. Poupamos trabalho e dedicamo-nos a outros desafios.
Gostava de poder ter esse desenho na parede. Hoje, resto único daquilo que poderíamos ter sido e nunca fomos e ainda bem. Talvez preenchesse um outro vazio qualquer que não o que tu deixaste. Afinal, funcionamos todos assim: compensamos umas coisas com as outras e chegamos ao fim e não fizemos nada porque sim. Faz parte, não é? Somos um puzzle de peças encaixadas fora de lugar: forçadas, encravadas, e no fim não corresponde ao desenho da caixa, vá-se lá entender porquê.
Um dia foste embora e não nos despedimos sequer, não era preciso. Nunca nos uniu mais do que a sorte que une dois estranhos com lugares aleatoriamente juntos no comboio. Mas hoje, ao olhar para a parede em branco, lembrei-me de ti. E lembrei-me de muito mais do que gostava de ser capaz.
Gostava de poder ter esse desenho na parede. Hoje, resto único daquilo que poderíamos ter sido e nunca fomos e ainda bem. Talvez preenchesse um outro vazio qualquer que não o que tu deixaste. Afinal, funcionamos todos assim: compensamos umas coisas com as outras e chegamos ao fim e não fizemos nada porque sim. Faz parte, não é? Somos um puzzle de peças encaixadas fora de lugar: forçadas, encravadas, e no fim não corresponde ao desenho da caixa, vá-se lá entender porquê.
Um dia foste embora e não nos despedimos sequer, não era preciso. Nunca nos uniu mais do que a sorte que une dois estranhos com lugares aleatoriamente juntos no comboio. Mas hoje, ao olhar para a parede em branco, lembrei-me de ti. E lembrei-me de muito mais do que gostava de ser capaz.

9 comentário(s):
Os momentos e sentimentos ficam na memória... e surgem todos num turbilhão, mesmo que não seja esse o nosso desejo.
love it :)
Muitas vezes gostaríamos de poder esquecer algumas coisas... esquecer definitivamente talvez não, mas colocá-las num baú bem fundo, bem escondido.
Gostei do texto.
eu não gosto nada de despedidas...
=(
beijo
Mas hoje, ao olhar para a parede em branco, lembrei-me de ti. E lembrei-me de muito mais do que gostava de ser capaz.
...
Adorei o texto, está fantástico.
E, infelizmente, não nos sentimos todos assim, em alguns momentos da vida?
Estes encontros e desencontros que pregam partidas àqueles que realmente sabem apreciar e guardar os pequenos instantes da Vida.
Parabéns por este brilhante e encantador texto revelador de tristeza e saudade, mas transpirando bondade e sentimentos!
Simplesmente ADOREI!!!!
Beijinhos,
Ana Martins
Como te compreendo. Às vezes pensamos já ter esquecido algo, ou alguém, e a sua recordação volta mais viva que nunca!
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