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A mostrar mensagens de 2005

#1

Numas escadas de Paris, ou noutra qualquer rua que o êxtase não permitiu identificar. Foram cigarros atrás de cigarros, como se o mundo estivesse para acabar e tudo o que ainda houvesse fossem cigarros e cinzeiros a transbordar. Como se só o sonho da tua mão sobre a minha me fizesse adormecer. Como se o toque do teu sorriso sobre o meu corpo me sustentasse. Pedi-te só mais um pouco e tu disseste que não que Paris não podia esperar por ti. Acabaste por ficar e nem precisaste de muito tempo para que a despedida e um pronuncio de saudade me consumisse. Então convidaste-me a ir contigo e renasci esperançado. Durante uma semana, vimos museus e exposições de arte, que eu não compreendia. Mas que tu, pacientemente, me explicavas quase quadro a quadro. Esqueci a saudade, a despedida antecipada. Numas escadas de Paris, trocámos segredos cúmplices. Olhos azuis envoltos em cabelos longos e um sorriso de menina a encher todo o rosto. Paris foi a minha morte, porque eventualmente acabaram os mu...

P = 0

Reuniu todos os dados, pegou na calculadora e, durante dias, rodeou-se de números e contas e equações. Adorava matemática, em especial o cálculo de probabilidades. Dizia que era o mais próximo que se podia chegar da prestidigitação. Cálculo após cálculo. Correlou teorias, variáveis. Zero. P sempre igual a zero. P = 0. P = Nunca. Os números não mentem, não enganam, nem tampouco conhecem a ironia. Nada houve a fazer. A Matemática nunca erra. A Matemática traçou, com precisão científica, o nosso destino. Nunca. Sem argumentação possível. Então, porque para ela os números eram tudo, entregou-se a eles, deixou que os cálculos precisos e exactos orientassem a sua vida. Respondia com percentagens às propostas que lhe apresentavam. Nunca dizia sim ou não, respondia em probabilidades. E a nós zero. Sempre zero. Então pedi-te que recalculasses, que juntasses as variáveis da emoção. Acrescentei: o mundo é feito de impossibilidades. Tu sorriste e lançaste-te sobre a calculadora que não mentia....
Sempre achei complicado perceber o que a Luísa queria realmente dizer com certas coisas. Acho que muitas dessas coisas dizia só por dizer, ou porque lhe parecia algo inteligente de ser dito. Há frases que parecem encaixar perfeitamente em certas situações, mesmo que não queiram dizer absolutamente nada. A Luísa sempre cultivou aquela postura de intelectual – tão típica dos esquerdistas – que nunca era mais do que pseudo. Contudo, essa postura garantia-lhe o acesso a certos circuitos sociais que, desde adolescente, ambicionava frequentar. Magnetizava-se facilmente a escritores, sem que soubesse escrever mais que um recado ou um post-it. Porém, os escultores eram a sua assolapada – e assumida – paixão. São as mãos que criam, que moldam, percebes? – e eu não percebia, afinal todas as artes surgem das mãos. Mãos que escrevem, que seguram o pincel, que seguram o martelo e o escopro. Não, nunca percebi a sensualidade de bater com um martelo num escopro, que não é mais que um prego grande...
Não se afastavam mais do que um antebraço de distância. Como se os seus corpos nus os envergonhassem. Assim, bem juntos, não havia espaço para observar muito mais que os olhos, talvez o resto da face. Nada mais conseguiam ver um do outro. Faziam amor muito juntos, ele por cima dela, sempre ele por cima dela. Cada vez que ele se tentava levantar mais um pouco ela segurava-o. Ele aceitava, sabia que cada uma dessas tentativas não era fruto de uma distracção momentânea causada pelo prazer. Ela perdoava todas essas tentativas. Ela raramente se vinha. Nas duas ou três vezes em que se deixava levar pelo prazer mantinha o silêncio o mais que podia, que conseguia. Como se o seu corpo manifestando prazer também a envergonhasse. Quando ele se vinha, saía de cima dela, deitava-se ao lado, de costas para ela e só mudava de posição depois de ela sair pelo outro lado da cama e a ouvia fechar-se na casa de banho. Vestia-se apenas quando ouvia o chuveiro correr. Quando ela voltava já ele d...

Mónica

Estes dias assim trazem-me sempre recordações da Mónica, que usava óculos e eu sempre lhe disse que era por ler demasiado. Só deixámos de nos ver porque ela me trocou por um livro de um escritor italiano que ela jurava a pés juntos ser fantástico, e que não conseguia parar de ler. A Mónica, que tinha sido criada pelos avós, tivera desde pequena uma paixão assolapada pelo seu avô. Júlio era o seu nome e tinha uma divisão da casa a que chamava biblioteca, sem que esse compartimento tivesse mais elegância que uma dispensa de livros em que o pó se acumula, e que não lera nem metade deles. Tinha uma cultura excepcional, obviamente não sabia tudo, mas sempre que era confrontado com algo novo fazia questão de investigar. Os únicos livros que leu com verdadeiro gosto foram os volumes da enciclopédia: não tinha paciência para ler histórias, e não encontrava qualquer fonte de sabedoria nisso. A Mónica prometera a si mesma saber, pelo menos, tanto como o avô, e fazia-o da forma que o Avô Júli...

Luna Azul

A Dona Isabel, que insiste em ser tratada apenas por Isabel, intrigou-me logo no primeiro contacto sem que conseguisse perceber porquê. A Dona Isabel, que não consigo tratar apenas por Isabel, conquistou o meu respeito ao contra-argumentar as minhas rápidas impressões sobre aquela cidade estranha. Revelou-se uma encantadora e humilde conversadora. Disse-lhe que encontrara bastante desenvolvimento na cidade desde a minha última visita. Contestou: “Acha?”, com uma cortesia quase desarmante. Argumentei, ela contra-argumentou e sugeriu o café com laranja. Acabei por optar pelo café cigano que alguém me havia sugerido. Eventualmente, acabei por perceber que a Dona Isabel, melhor que ninguém, conhecia os seus cafés. As suas sugestões revelaram-se deliciosas combinações de café, algumas tão simples como um fantástico mazagrã. Ao longo dos dias, deixei-me perfumar com os aromas do café e do chocolate, todos feitos pela própria. A Dona Isabel, uma Mulher assim não pode ser só Isabel, fugiu ao D...
Gosto do café doce, o mais doce possível. Talvez porque não goste de café, como não gosto de coisas demasiado reais. Mas preciso de cafeína, mantém os sentidos despertos, exagera a dor. Bebo cinco cafés por dia, mas só nos dias em que não bebo mais. Deixei de me preocupar com a saúde no dia em que te conheci. Na verdade, deixei de me preocupar com tudo o que não estivesse de alguma forma relacionado contigo. Foi o que me valeu. Se não tivesses sido tu, ou melhor, se não tivesse sido o facto de me perder completamente em ti, tinha-me desmoronado. Porque a culpa aqui será sempre minha, fui eu que me deixei cair em tentação, fui eu que rejeitei a realidade. Tu não chegaste a aperceber-te de nada, o que também foi bom para mim. Assim, apenas bebia café (com muito açúcar) contigo e com tudo o mais imaginário possível. Gostava de te ter tido. Apenas para poder sentir, na pele, a dor de te perder. À qual juntaria seis, sete, ou mesmo oito cafés por dia. Não quereria perder pitada de algo ca...

dias que correm...

talvez possamos começar de novo...