17.11.05

Sempre achei complicado perceber o que a Luísa queria realmente dizer com certas coisas. Acho que muitas dessas coisas dizia só por dizer, ou porque lhe parecia algo inteligente de ser dito. Há frases que parecem encaixar perfeitamente em certas situações, mesmo que não queiram dizer absolutamente nada. A Luísa sempre cultivou aquela postura de intelectual – tão típica dos esquerdistas – que nunca era mais do que pseudo. Contudo, essa postura garantia-lhe o acesso a certos circuitos sociais que, desde adolescente, ambicionava frequentar.

Magnetizava-se facilmente a escritores, sem que soubesse escrever mais que um recado ou um post-it. Porém, os escultores eram a sua assolapada – e assumida – paixão. São as mãos que criam, que moldam, percebes? – e eu não percebia, afinal todas as artes surgem das mãos. Mãos que escrevem, que seguram o pincel, que seguram o martelo e o escopro. Não, nunca percebi a sensualidade de bater com um martelo num escopro, que não é mais que um prego grande, e arrancar bocados de pedra. Se me falasse do traço de um desenho, das pinceladas numa tela, do ritmo de um poema, talvez conseguisse chegar a compreender. Não, não gosto de escultura.

A Luísa que se inscreveu num curso de escultura, moldou a partir de barro uma incrível variedade de cinzeiros e taças que ofereceu aos amigos como conquistas. Disfarçava a falta de jeito com óculos de massa e adjectivando a suas esculturas de naif. Pseudo no meio de pseudos, sabia mexer-se e melhor ainda jogava os seus trunfos. A Luísa não era nada, nem escultura, nem artista. Gostava de arte, e era tudo.

Mais tarde descobriu que gostava de fingir e dedicou-se ao teatro, tendo o mesmo sucesso que na escultura. Os amigos todos adoraram as peças, as de barro e as de teatro. Ela sabia disso, mas fingia que não. Ela sabia disso, e um dia não conseguiu fingir mais. Nesse mesmo dia, a Luísa telefonou e pediu-me que a fosse buscar e que a levasse para qualquer lado e que a amasse e que fugíssemos dali para fora, para longe de tudo, dos pseudo-amigos, das pseudo-artes. Às sete horas fui buscar a Luísa que tentava disfarçar que tinha passado as últimas horas a chorar. Entrou no carro, segurou-me a mão e disse por favor não digas nada. E eu não disse, limitei-me a conduzir.

A Luísa tem apenas um defeito, é tão bonita que dói. A ela, mas principalmente a mim, que me deixei arrastar para longe de tudo. Principalmente a mim quando descobri que apenas eu não fingia.