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A mostrar mensagens de dezembro, 2003

Infidelidade

Certo dia, telefonaste-me, querias encontrar-te comigo. Depressa senti na boca o sabor da vingança. Preparei todo o discurso, sobre a vizinha, como a tinha conhecido, como a tinha seduzido, até ao infímo e mais sórdido pormenor. Tocaste à campaínha e mal abri a porta disseste que te ias casar. Uma vez mais derrotado. Pediste-me uma última noite e eu disse que não e depois arrependi-me. Tu acedeste e passámos uma última noite juntos. Pedi-te que ficasses comigo, tu sorriste e disseste "és um tolinho" ou algo ainda mais irritante. Depois, e por isto tive vontade de te matar, disseste que te tinhas cruzado com uma vizinha no corredor, que era gira, que a devia comer. Disse-te que já tinha pensado nisso e que ia ao teu casamento. Deito-me na cama e atravessa-me o pensamento a questão da infidelidade, desço dois andares e vou ter com a vizinha que se chama Catarina e conto tudo, ela dá-me um estalo e diz que nunca mais me quer ver. Duas semanas depois cruzamo-nos no corredor, conv...

Primeiro Beijo

Desde aquele primeiro beijo que me esqueci como apreciar outra mulher. Só te quero a ti. Prende-me a ti o facto de te conhecer já lá vão oito anos e não me conheceres de todo. É recíproco. Prende-me a ti o facto de não te poder ter e a esperança de te poder voltar a ter. Volto à conversa e invento uma desculpa. Que tenho que ir. Pago a conta e saio com a promessa de voltar a ligar. Tenho a certeza que não o vou fazer. Recolhi a mala da pensão. Tentei pagar com cartão mas só aceitava dinheiro. Lá consegui entre trocos na carteira e no bolso juntar os três contos e quatrocentos. Voltei para casa. Nem sei porque saí. De todas as formas, fazia isto de tempos em tempos para ter a sensação de ser turista na minha própria cidade. Não foi o caso. Talvez tenha pensado que isto te faria procurar-me. Não resultou. Não perguntaste se estava tudo bem, nem falaste comigo numa qualquer ooutra língua como fazes sempre nos meus devaneios turísticos. Ignoraste. Depois de ti voltei a apaixonar-me, voltei...
Se toda esta situação fizesse sentido eu saberia como reagir. Mas não faz. Por isso fiz as malas e fui para uma pensão barata passar a noite. Deixei-te mensagem no antendedor de chamadas com o nome, morada e número de telefone da pensão, acrescentei uma curta explicação de como lá chegar. Tudo muito bem explicado para o caso de me quereres procurar. Pouso o telemóvel na mesa de cabeceira, dispo a camisa e deito-me na cama a ver televisão, enquanto isso penso. Ponho de parte os pensamentos e adormeço. Passei a noite à espera, dormindo. Acordei e fui à procura de um café para tomar o pequeno-almoço. No caminho pensei em ti. Como me deste a volta à cabeça quando te conheci. Como me fizeste abdicar de tudo aquilo por um só beijo teu. Tudo correu bem. Até dizeres que querias casar comigo e eu dizer-te que não podia. Um café e uma torrada, por favor. Ao fim da manhã quando começava a desesperar telefonaste. Pensei em matar-te mas não o fiz. Perguntaste-me onde estava e eu disse-te exactament...
Se eu conseguisse deixar de pensar que amanhã posso morrer talvez conseguisse dormir. Já sei como é. As insónias são uma irritante constante da minha vida. Desde que ela me deixou que é assim. Desde que ela apareceu na minha vida que assim é. Porque a conheci e me apaixonei. Porque não consigo dormir com alguém ao meu lado. Porque me deixou e não consegui deixar de pensar nela. Não consigo dormir. È tarde. É domingo. Adormeço tarde. Acordo cedo com o barulho irritante do aspirador e o cantarolar da mulher da limpeza. Já pensei em despedi-la e arranjar uma que só trabalhe de tarde. Já pensei em muita coisa que nunca cheguei a fazer. Antes assim. Evito chatices. Amanhã é um novo dia e não consigo dormir porque amanhã posso morrer e hoje ainda não vivi tudo. Às vezes penso que dormir é deitar tempo fora. Quando isso acontece adormeço com todas as forças que tenho e acordo cansado. Desiludido por ter acordado. Há dias que passo sem pensar. Há dias que passo sem dormir. Há dias que quase mo...