29.1.08

A Luísa gosta de ir a festas. Não pelo aspecto social da coisa, porque para isso claramente não tinha jeito. Mas porque é das poucas oportunidades que tem para se sentar num canto a observar as pessoas. Para as invejar. Não gosta quando reparam nela, e pior ainda, quando metem conversa. Olá, sou o Paulo. Olá, sou o André, tu deves ser a Luísa de que tanto se fala. Isola-se de preferência num dos cantos, para poder ter um ângulo maior. E de todas as pessoas da sala talvez seja a única que realmente conhece todas as demais presentes. Cansa-se depressa de conversas de circunstância. O que fazes? Onde moras? A sério? Imaginava-te a morar noutro sítio.

Até que numa das festas, num qualquer apartamento em Alvalade, teve um rival. Alguém que, tal como ela, ficava num dos cantos e se recusava a interagir. E claro, alguém que reparou nela, alguém que a poderia estar a conhecer como ela conhecia todas as outras pessoas presentes. E ele, como ela, saberia os truques, saberia interpretar o posicionamento, os olhares sobre as pessoas. A Luísa sentiu-se observada sem licença, o que era ainda pior do que a sensação de tentarem falar com ela só porque sim. Porque fazia parte dos pressupostos de estar numa festa.

A Luísa tem lábios que apetecem beijar, um olhar doce. Tem o mistério de que os homens tanto gostam. Usa óculos, e tem alturas em que se esquece que os óculos não tapam o olhar, como os de sol. Às vezes é como nos filmes, com um qualquer truque de câmara todos os presentes na sala desaparecem, ficam só os dois. Observam-se. Lutam em silencio across the room.

A Luísa nervosa, exposta. Como se lhe estivessem a observar as mais profundas entranhas da personalidade. Tinha que agir, tinha que aniquilar a concorrência. Encheu-se de coragem. Pôs o seu andar mais confiante. Atravessou a sala.

– Olá, eu sou a Luísa. Sou jornalista e moro na Avenida de Roma. Vamos sair daqui?

E ele seguiu-a até ao carro. Sem dizer nada, sempre a observar, sempre a conhecer. A Luísa ligou o carro, arrancou. Ele finalmente falou.

– Já agora, chamo-me...

– Não quero saber, não preciso de saber.

Voltaram ao silêncio, só quebrado por ele para perguntar se podia acender um cigarro. Ao que ela respondeu apenas com um aceno de cabeça. Foram duas horas e meia de silêncio. Passaram a ponte, estavam já longe de Lisboa. A Luísa saiu da estrada. Parou o carro no meio de um descampado. Quando ele se preparava para falar, beijou-o. Desarmou-o. Beijaram-se. Caçaram-se como predadores são.

Quando se cansaram, pararam. Olharam-se e pela primeira vez sorriram um pouco. Derrotados pela exaustão. A Luísa ganhou, sabia que tinha ganho. Quanto mais não fosse porque ele julgava ter ganho. A Luísa pôs o olhar mais apaixonado, o sorriso mais terno. Estendeu-se para chegar à mala que estava no banco de trás. Ele sorria, sorria muito. Já não era a primeira festa em que tinha visto a Luísa e nunca pensou que pudesse acabar assim. No meio do nada, sem dizer nada. Ela esgravatava na mala, sem encontrar o que procurava.

Ele não conteve um esboço de riso, porque delicia-se com o facto de as mulheres nunca encontrarem nada na carteira. A Luísa, irritada, porque pela primeira vez alguém a tinha conquistado, em vez de um cigarro, tirou da mala a arma com que tinha planeado matar-se. Disparou três vezes contra o peito dele. Acendeu um cigarro, pôs a nona de Beethoven, e sentiu a sua própria vida a borbulhar de novo.


obrigado
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