A Luísa gosta de ir a festas. Não pelo aspecto social da coisa, porque para isso claramente não tinha jeito. Mas porque é das poucas oportunidades que tem para se sentar num canto a observar as pessoas. Para as invejar. Não gosta quando reparam nela, e pior ainda, quando metem conversa. Olá, sou o Paulo. Olá, sou o André, tu deves ser a Luísa de que tanto se fala. Isola-se de preferência num dos cantos, para poder ter um ângulo maior. E de todas as pessoas da sala talvez seja a única que realmente conhece todas as demais presentes. Cansa-se depressa de conversas de circunstância. O que fazes? Onde moras? A sério? Imaginava-te a morar noutro sítio. Até que numa das festas, num qualquer apartamento em Alvalade, teve um rival. Alguém que, tal como ela, ficava num dos cantos e se recusava a interagir. E claro, alguém que reparou nela, alguém que a poderia estar a conhecer como ela conhecia todas as outras pessoas presentes. E ele, como ela, saberia os truques, saberia interpretar o posic...
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A mostrar mensagens de janeiro, 2008
o amor também se gasta
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Suponho que seja o único caminho a seguir, voltar atrás e destruir o que ainda resta de nós. Porque só assim podemos esquecer, só assim podemos largar. Só assim poderemos alguma vez parar de nos procurar numa ausência preenchida de sentimentos ainda por esgotar – o amor também se gasta. Suponho que o único caminho seja gastarmos o que resta desse amor que tem que acabar. Sempre com a certeza que será a última vez, que tem os dias contados. Com a capacidade de entender que durará apenas até o amor se gastar de vez. Que ainda que possa parecer que tudo está bem outra vez, tudo voltará ao mesmo mais dia, menos dia. O fim tem sabor de sequela. A dor ainda é demasiada para a vivermos separados, pareceu tudo de repente, não pareceu? O coração não aguenta, as mãos insistem em estender-se sobre a mesa procurando-se. Há toda uma necessidade de resistir a mais impulsos que aqueles a que é possível resistir. E nas palavras (poucas) que trocamos descaímo-nos sempre para aqueles nomes carinhosos ...
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A primeira coisa que a Rita faz quando chega a casa é tirar os sapatos. Tem que usar saltos altos o dia todo, moem-lhe os pés. E para além do alívio, adora a sensação de tirar os pés dos sapatos e sentir a diferença de altura para o chão, sentir-se de novo mais baixa. Dá alguns passos, curtos, saboreia os pés a pisar o chão frio, e só depois calça os chinelos para os voltar a sentir quentes. Como qualquer coisa, bebe (mais) um café, deita-se no sofá e só quando está com frio se cobre. Adormece por dez minutos e acorda sem vontade de ir para a cama. Desliga a televisão, lê algumas páginas do livro que está a ler. É no fim da terceira frase – que não tinha absolutamente nada a ver com isso – que se apercebe que agora que tinha sucesso se sentia ainda mais entediada que quando o não tinha. Pelo menos antes sonhava. Nada lhe resta para desejar. Enche um copo com whisky. Uma garrafa que tinha para oferecer aos amigos e que nunca tinha sido aberta. Encostou-se à janela, acendeu um cigarr...