Preferia que assim não fosse, mas há sempre um depois. É assustador. Porque quando pensas que retomaste o controlo das coisas, há um sorriso que arrebata. Há alguém que se põe ao teu lado e te pega na mão e te diz “vamos?”, e tu que fazes? Nada. Deixas-te ir sem saber bem onde, apenas porque aquela mão a segurar na tua te dá uma sensação que pensavas não poder voltar a sentir. Depois há os sorrisos, as gargalhadas de coisas sem riso, os beijos. os corpos que parecem encaixar na perfeição e que se puxam inexplicavelmente. Tens aquela mão que se entrelaça na tua, e que te puxa, que te leva não sabes bem para onde, ainda que o saibas perfeitamente. É assustador. E perfeito.
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A mostrar mensagens de novembro, 2007
and every word is nonsense but I understand it *
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Quase nada resta agora que o tempo trouxe a distância necessária à compreensão. Porque o tempo tem esta particularidade irritante de realmente tudo curar. Porque o vazio que fica acaba por ser substituído por outro qualquer vazio mais abstracto. Deixa de ser aquele alguém e passa a ser apenas alguém. Há também o masoquismo inerente à coisa, e o luto necessário. Há o cultivar do vazio que fica, o irresistível cravar da unha na ferida. É o coração que dói, mas é a cabeça que bate contra a parede. É o coração que morre e a cabeça que continua. E só aí, só quando nada resta ao coração para continuar a bater, é que o vazio se preenche. Por mera questão de sobrevivência. A cabeça continua, continuou. Sobreviveu, à espera de algo que pudesse reactivar a circulação: o teu sorriso que sempre sorri, os pequenos detalhes, as pequenas ironias. São as músicas, as fotografias, os livros, as palavras, a linguagem só nossa que partilhamos. É tudo aquilo que sou reflectido de uma forma que conforta...
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Não espero que compreendas. Talvez a única maneira possível de estar no mundo seja sozinho. Para todos os efeitos a culpa é minha. Porque te disse que podíamos ficar amigos quando o amor se esgotasse a si mesmo, sem te dizer que pouco me preocupo com os meus amigos, que não tenho tempo para eles. Eventualmente acabarás por aceitar as saudades como parte integrante de um outro qualquer sentimento, que então não saberás muito bem definir. Ou uma mera existência sem nada que se lhe possa associar. Alguém que passou, apenas. Por mim, tudo bem. Delicio-me demasiado com os caminhos do meu próprio pensamento, da minha própria imaginação. Encontro muito mais felicidade nas coisas como elas poderiam ser, do que nas coisas como são. Não espero que compreendas que, na minha estranha curiosidade por tudo, eu não queira sequer saber. Que possas adoecer, até morrer. Que possas encontrar beijos mais doces, braços mais ternos. Que possas até convencer-te que afinal não valho o tempo gasto comigo. ...
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É como se o cansaço me preenchesse por dentro. Como se preenchesse cada espaço vazio e empurrasse tudo o que existe contra as paredes, como se asfixiasse. O raciocínio já não existe, os pensamentos brotam soltos, sem nexo, sem ligação. Não durmo há três dias e já não sinto o cansaço. Já não me sinto sequer. Vagueio e é tudo. Como se o corpo respondesse sozinho, numa qualquer absoluta abstinência de emoções. Absorvido numa estranha forma de pensar. Palavras soltas, sem pronomes, artigos e quaisquer outras palavras que tenham apenas como função ligar outras palavras umas às outras. Dormir. Dormir. Dormir. Amanhã. Amor. Tu. Dormir. Pensar. Morrer. Dormir.
the wrong second of a two seconds story*
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A Sara seguia a cento e quarenta e seis quilómetros por hora no comboio. Por qualquer razão, tinha reparado e fixado o olhar no pequeno painel electrónico num dos topos da carruagem. Meia dúzia de caracteres e tanta informação. Velocidade, temperatura (interior e exterior), horas… e talvez nunca tivesse reparado no tempo que um minuto demora a passar. Ao fim de dois aborreceu-se, encostou-se para trás, abriu o livro que trazia para ler. E naquele último segundo (que agora lhe pareceu rápido) antes de se debruçar na página que marcava com o dedo, olhou à volta. De todas as pessoas que preenchiam de vida o espaço exíguo da carruagem, fixou-se numa. Fixou-se num olhar que atravessava o vidro e abraçava o mundo como se o visse pela primeira vez. Como se o tempo não existisse sequer. As mãos, grandes mas delicadas, pousadas sobre as pernas. Agora, a Sara olhava para aquele homem com o mesmo olhar que a tinha prendido. E o tempo, que lhe parecia parado, na realidade passava depressa. A Sara ...