20.9.07

Naquela noite não se beijaram como sempre faziam. Ele entrou, sentou-se à frente dela. Ela descruzou e voltou a cruzar as pernas. Perguntou-lhe se queria um chá quente, disse que lhe ia buscar uma toalha. Ele aceitou, agradeceu. Enquanto ele se secava, ela, encostada na ombreira da porta da cozinha observava.

– Bebe enquanto está quente.

Ele agradeceu, embrulhou-se ainda mais na manta que agora o cobria. Olhou-a, sentiu-a. O sangue a começar a fluir de novo.

– O que vieste cá fazer? Disse que não queria estar com ninguém.

– A mim também não me apetecia estar com ninguém.

Naquela noite não se beijaram, nem sequer falaram. Sabiam que seria inútil remexer em assuntos sobre os quais nada mais há a dizer. Afinal, estavam um com o outro para não estarem sozinhos, ainda que não lhes apetecesse estar com ninguém. Talvez fosse esse o único pressuposto, tolerarem a presença silenciosa um do outro.

Deitaram-se ao lado um do outro, próximos, mas não demasiado. Não fosse o desejo ocupar o silêncio. Mas também não dormiram. Quando o sol nasceu, ela levantou-se.

– Tenho que ir trabalhar, mas deixa-te ficar. Tens comida no frigorífico.

Antes de adormecer, embalado pelo som da água a cair no chuveiro, apercebeu-se. A mulher da vida dele não era aquela com que sonhava, mas aquela que lhe havia roubado o coração. Mas os olhos fecharam-se antes que ela saísse do banho, e nunca lho chegou a dizer.