31.12.03

Infidelidade

Certo dia, telefonaste-me, querias encontrar-te comigo. Depressa senti na boca o sabor da vingança. Preparei todo o discurso, sobre a vizinha, como a tinha conhecido, como a tinha seduzido, até ao infímo e mais sórdido pormenor. Tocaste à campaínha e mal abri a porta disseste que te ias casar. Uma vez mais derrotado. Pediste-me uma última noite e eu disse que não e depois arrependi-me. Tu acedeste e passámos uma última noite juntos. Pedi-te que ficasses comigo, tu sorriste e disseste "és um tolinho" ou algo ainda mais irritante. Depois, e por isto tive vontade de te matar, disseste que te tinhas cruzado com uma vizinha no corredor, que era gira, que a devia comer. Disse-te que já tinha pensado nisso e que ia ao teu casamento.

Deito-me na cama e atravessa-me o pensamento a questão da infidelidade, desço dois andares e vou ter com a vizinha que se chama Catarina e conto tudo, ela dá-me um estalo e diz que nunca mais me quer ver. Duas semanas depois cruzamo-nos no corredor, convidei-a para um café, ficou tudo bem. Ela gostava mesmo de mim. Era-me indiferente. Gosto dela. Penso, é tarde demais.

Primeiro Beijo

Desde aquele primeiro beijo que me esqueci como apreciar outra mulher. Só te quero a ti. Prende-me a ti o facto de te conhecer já lá vão oito anos e não me conheceres de todo. É recíproco. Prende-me a ti o facto de não te poder ter e a esperança de te poder voltar a ter.

Volto à conversa e invento uma desculpa. Que tenho que ir. Pago a conta e saio com a promessa de voltar a ligar. Tenho a certeza que não o vou fazer. Recolhi a mala da pensão. Tentei pagar com cartão mas só aceitava dinheiro. Lá consegui entre trocos na carteira e no bolso juntar os três contos e quatrocentos. Voltei para casa. Nem sei porque saí. De todas as formas, fazia isto de tempos em tempos para ter a sensação de ser turista na minha própria cidade. Não foi o caso. Talvez tenha pensado que isto te faria procurar-me. Não resultou. Não perguntaste se estava tudo bem, nem falaste comigo numa qualquer ooutra língua como fazes sempre nos meus devaneios turísticos. Ignoraste.

Depois de ti voltei a apaixonar-me, voltei a amar mas não era o mesmo sem ti. Nunca te disse isto, nem nada sobre isto. Nunca te disse o quanto gostava de ti. Provavelmente rir-te-ias na minha cara. Da minha cara. Talvez um dia te fale da rapariga que se mudou a semana passada para o meu prédio. É gira. Talvez te fale de cada pormenor do seu corpo e da forma como me suscita desejo. Estou a pensar seduzi-la. São dois andares de distância até uma noite de sexo. Talvez um dia te fale de tudo isso e de outras coisas mais. Como se isso te importasse...

30.12.03

Se toda esta situação fizesse sentido eu saberia como reagir. Mas não faz. Por isso fiz as malas e fui para uma pensão barata passar a noite. Deixei-te mensagem no antendedor de chamadas com o nome, morada e número de telefone da pensão, acrescentei uma curta explicação de como lá chegar. Tudo muito bem explicado para o caso de me quereres procurar.

Pouso o telemóvel na mesa de cabeceira, dispo a camisa e deito-me na cama a ver televisão, enquanto isso penso. Ponho de parte os pensamentos e adormeço. Passei a noite à espera, dormindo. Acordei e fui à procura de um café para tomar o pequeno-almoço. No caminho pensei em ti. Como me deste a volta à cabeça quando te conheci. Como me fizeste abdicar de tudo aquilo por um só beijo teu. Tudo correu bem. Até dizeres que querias casar comigo e eu dizer-te que não podia.

Um café e uma torrada, por favor. Ao fim da manhã quando começava a desesperar telefonaste. Pensei em matar-te mas não o fiz. Perguntaste-me onde estava e eu disse-te exactamente onde. Trazias vestido um sorriso que, a princípio, me reconfortou mas depois me preocupou. Sentaste-te e começaste a falar.

Como se não soubesses que isso me desfaz por dentro começaste a falar de todos os hoomens que levaste para a cama e os que não levaste mas quiseste levar. Opto por dar-te ainda mas razões para julgares que nao me importo mesmo. Continuas a falar. Como se fosse algo que realmente me interessasse disponibilizo-me para conhecer o teu mais recente namorado.

Sei que me vai doer, mas é mais fácil quando o ciúme tem uma forma física. É melhor para o ego quando podemos destruir na imaginação aquela pessoa ridícula que nos roubou o que julgamos nosso. Para mim é melhor assim.

29.12.03

Se eu conseguisse deixar de pensar que amanhã posso morrer talvez conseguisse dormir. Já sei como é. As insónias são uma irritante constante da minha vida. Desde que ela me deixou que é assim. Desde que ela apareceu na minha vida que assim é. Porque a conheci e me apaixonei. Porque não consigo dormir com alguém ao meu lado. Porque me deixou e não consegui deixar de pensar nela. Não consigo dormir. È tarde. É domingo. Adormeço tarde. Acordo cedo com o barulho irritante do aspirador e o cantarolar da mulher da limpeza. Já pensei em despedi-la e arranjar uma que só trabalhe de tarde. Já pensei em muita coisa que nunca cheguei a fazer. Antes assim. Evito chatices.

Amanhã é um novo dia e não consigo dormir porque amanhã posso morrer e hoje ainda não vivi tudo. Às vezes penso que dormir é deitar tempo fora. Quando isso acontece adormeço com todas as forças que tenho e acordo cansado. Desiludido por ter acordado. Há dias que passo sem pensar. Há dias que passo sem dormir. Há dias que quase morri. Tenho medo de amanhã. No dia em que foste embora foi o dia em que adormeci e te larguei a mão e não te disse adeus.