Acordar
Abro a janela, sinto o frio, sinto a vida. Acendo um cigarro que é só mais um cigarro. Sem pensamentos que venham com ele e fujam com o expirar lento do fumo que se confunde com o vapor do frio. A cidade cai adormecida, embalada pela trémula luz laranja dos seus caminhos. A Sara dorme também, e não parece tão frágil assim. Não parece estar a pensar em algo que mais que não aquilo que parece fazer tão bem e que eu, por herança familiar, é raro conseguir. Mas a Sara está ali deitada e não está noutro lugar, como costuma estar. Sempre a pensar em algo mais, sempre a duvidar até das suas próprias dúvidas. A Sara está ali deitada, na minha cama que eu raramente uso, e está mesmo ali. Não está noutro sítio. A Sara, por qualquer enviusamento da memória, faz-me lembrar a minha professora primária. Mais nova, muito mais nova e muito mais bonita. Mas com o mesmo olhar de quem pode ensinar tudo, com a mesma paciência e dedicação de quem ensina uma criança de cinco anos a ler e a escrever, e que ...