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A mostrar mensagens de janeiro, 2006

Acordar

Abro a janela, sinto o frio, sinto a vida. Acendo um cigarro que é só mais um cigarro. Sem pensamentos que venham com ele e fujam com o expirar lento do fumo que se confunde com o vapor do frio. A cidade cai adormecida, embalada pela trémula luz laranja dos seus caminhos. A Sara dorme também, e não parece tão frágil assim. Não parece estar a pensar em algo que mais que não aquilo que parece fazer tão bem e que eu, por herança familiar, é raro conseguir. Mas a Sara está ali deitada e não está noutro lugar, como costuma estar. Sempre a pensar em algo mais, sempre a duvidar até das suas próprias dúvidas. A Sara está ali deitada, na minha cama que eu raramente uso, e está mesmo ali. Não está noutro sítio. A Sara, por qualquer enviusamento da memória, faz-me lembrar a minha professora primária. Mais nova, muito mais nova e muito mais bonita. Mas com o mesmo olhar de quem pode ensinar tudo, com a mesma paciência e dedicação de quem ensina uma criança de cinco anos a ler e a escrever, e que ...

Isabel

De histórias de amor percebo pouco ou nada. Nunca foi o meu forte. Quanto mais conheço, mais tenho a sensação de que é um mundo em que não vale a pena entrar. Não por fobia, ou dúvida ou qualquer outro motivo tão irracional quanto o medo. Acho que a sucessão de experiências me levou a dispensar a loucura de algo mais que o biológico roçar de corpos. O amor não é mais que isso, uma reacção química para disfarçar a necessidade de toque, de presença. A mim chega o som da televisão que ligo sempre que chego a casa, e que nunca vejo. A mim chegam as mulheres que consigo seduzir, e a quem explico cuidadosamente que não posso oferecer mais do que o meu corpo. Aceitam sempre, pelo menos no momento, aceitam sempre. Depois desaparecem revoltadas, raivosas como se não tivessem na realidade aceite o corpo que as satisfez. Como se não padecessem da mesma necessidade que eu, como se os seus corpos não lhes pedissem o mesmo que o meu. Quando acordo já lá não estão, o que até agradeço. De manhã sou ...
A culpa é da falta de tempo...