não és tu, sou eu.
Tiras-me o coração do sítio. Às vezes pergunto-me se valerá a pena. Os suspiros afiados, isto é. As noites que se estendem até ser dia. Os dias a subtraírem-se uns aos outros e talvez me façam falta depois. Não sei para onde vou. São quase oito da noite e é possível que me tenha enganado no caminho para casa. Os dias estão mais curtos e há algo de reconfortante nisso. Pousei as malas que não tenciono desfazer. Descalcei-me. Espero ter trazido tudo excepto o coração. Faz-me esse último favor: guarda-o até conseguir arranjar-lhe de novo espaço no peito. Não quero confundir depressão com melancolia. Por enquanto não. Ainda é cedo para viver e não vale a pena ter pressa em voltar. Talvez esconda as malas num armário para não me lembrar delas, talvez as deite fora. Tiras-me o coração do sítio. Talvez vá a Paris. Talvez aprenda finalmente a tocar piano. Gostava de saber cantar. Ou dançar. Um dia talvez comece de novo. Não olhaste para trás quando te despediste. Disse-te: não és tu, sou eu. A...