Os sentimentos não se podem quantificar. É simples. Pelo menos, parece. Seja como for não poderemos nunca saber que quantidade de cada sentimentos trazemos dentro de nós, o coração não é uma receita. Não se quantifica em gramas, metros, ou qualquer outra unidade. Eventualmente contabilizam-se as cicatrizes prostradas no músculo, é isso que conta, as feridas ainda abertas e o coração sem parar de bater. Porque se o coração se pode quantificar então também é apenas músculo. Curioso é que é sempre de mais ou de menos. É amor de mais ou amor de menos. Nunca chega. Sufoca. Foi assim com a Joana, com a Alexandra. Foi assim com a Maria e com a Isabel. Com a Joana foi amor de menos, tudo encaixava, mas o sentimento foi curto, deixava os pés de fora. Não sobreviveu ao Inverno. Com a Alexandra foi o oposto. Amor de mais, amor que sufoca e que se consome e destrói o resto. Que nem era assim tanto. E não sobreviveu ao Verão. Demasiado calor, tive saudades dos pés gelados. Com a Maria não...
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A mostrar mensagens de fevereiro, 2008
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Sou um sem-abrigo. Não tenho um sítio a que chame casa, ainda que tenha tecto e paredes e móveis e coisas. Não pertenço aqui nem ali. Sou de todo o lado. Porque em todo o lado tenho algo que me prende. Pudesse eu pegar em casas e ruas inteiras e trocá-las de cidade. Pudesse eu trazer-te para aqui. Não consigo parar. Sufoco facilmente em qualquer lado, não estou completo em lado algum, e viajo de um lado para o outro sempre à espera de me encontrar. Triste por ter que ir, feliz por voltar e por chegar, ansioso por partir e ficar. Sempre a ter que escolher entre isto e aquilo. Abdicar de uma coisa em prol de outra. Tudo é que não. Era o que faltava. Não tenho casa, nem família. Tenho amigos que são quase irmãos e pouco mais. Tenho amor e paixões que nunca o chegam a ser, e quando são há sempre quilómetros pelo meio. Pudesse eu pegar em ruas e cidades inteiras. Pudesse eu trazer-te para aqui, para este estranho mundo e chamar-te um daqueles nomes carinhosos parvos. Pudesse eu encher a...
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Havia a estrada e uma música aleatória a tocar. O resto era o silêncio das coisas não ditas, dos segredos guardados até não ser possível continuar a escondê-los. Desculpa mentir. Desculpa ainda não ter explicado. Só nós é que continuamos a insistir em não ver. Pelo menos tu. O segredo é meu e talvez assim deva continuar. Olhos na estrada, mãos no volante, e tu a passeares o olhar por tudo o que passa. Noventa e sete quilómetros. E não te posso dizer também que depois de todo o silêncio – que, de tão confortável, se fez inexistente – aquele meio-abraço dado a medo soube a tudo. O teu corpo, ainda que ao de leve, contra o meu. Não te vou dizer que cada centímetro de viagem valeu aqueles dois segundos. Não te vou dizer que devia ter regressado há muito e que, se fico, é por ti. Que faz demasiado sentido estar contigo. Que todos os elos de lógica se quebraram na falta de argumentos. Já não sei resistir. Porque é a ti que lembro, em ti que penso. Estrada fora em silêncio, ou pela noite ...
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A certa altura, a Susana encontrou o amor da vida dela. Foi a maior libertação que poderia alguma vez sentir. Agora, podia concentrar-se em encontrar a pessoa com quem passar o resto da vida. Porque são sempre pessoas diferentes. E nunca resulta pelas razões mais estúpidas. Porque é a velha história dos opostos. E o amor da vida é sempre demasiado oposto. Demasiado arrancado do coração. A Susana, como todos nós, amou demasiado o amor da vida dela. Perdeu demasiado tempo a sonhar, a achar que ia durar para sempre. Perdeu demasiado tempo a dar demasiado de si. O amor da vida tem esta coisa dos demasiados que na altura parece sempre tão perfeito, mas apenas porque não vemos a condenação no fim da estrada. Parecendo que não, o simples facto de se achar que é para sempre estraga tudo, sempre. Porque o amor da vida surge sempre na altura que achamos que mais estávamos a precisar, quando ainda acreditamos incondicionalmente no amor e na paixão e nos sonhos a dois. O amor da vida ainda não t...