3.6.07

Ligou a televisão sabendo que a iria desligar logo de seguida. Talvez pudesse dá-la a alguém, vendê-la não. Toda a gente tem já pelo menos uma televisão. Ele tinha televisão por cabo, Internet, telemóvel. Tudo o que pudesse fazer dele uma pessoa normal. Talvez devesse livrar-se de tudo isso, de todas as formas nada o entretinha como seria suposto. Os livros só lia um de cada escritor, e apenas livros que alguém aconselhava, de outro modo não saberia escolher.

Desligou a televisão, pôs um disco compacto, um dos quatro que tem. Um de jazz, um de ópera, a nona de Beethoven e um de rock, que nunca ouve. Toca o telefone. Deixa tocar três vezes antes de atender, como sempre. Era ela, como todos os dias àquela hora, não queria estar sozinha e ele dizia-lhe para aparecer. Das poucas companhias que ainda tolerava. O mundo cansava-o cada vez mais.

Quando ela tocava à campainha, já ele tinha lavado a loiça, feito a cama, deitado a roupa para lavar. Talvez fosse a última pessoa a quem ainda tentava agradar. Ela chegava, com um filme na mão que alugava pelo caminho. Ele não seria capaz de escolher. Assim como assim nunca acabavam de o ver. Ele sentava-se no sofá, num dos cantos, ela deitava-se ao lado dele. Algures a meio do filme, ele roubava-lhe um beijo. Sentia-se aborrecido, reparava demasiado nas imperfeições e irrealismos do filme. Achava toda e qualquer ficção demasiado previsível. E beijá-la, ainda que o fizesse todas as noites e da mesma forma, era uma forma de sacudir o tédio, de não ter que falar. Pagava-lhe em carícias o silêncio. Ela não se importava, até gostava. Era da maneira que não tinha que procurar um companheiro todas as sextas à noite, quando ia sair com as amigas. Aliás, a única noite da semana que não passava com ele.

As roupas quase rasgadas, espalhadas pelo chão. Os corpos suados, o perfume dos sexos ainda excitados. A respiração ainda acelerada. O fumo dos cigarros a preencher a sala. Palavras nenhumas, ou quase nenhumas. Declarações de amor, ainda menos. Claramente, não se tratava de amor, antes de algo bem mais intenso: a solidão de dois corpos que se necessitam um ao outro para fazerem sentido.