24.6.06

Violino

O nosso amor é um violino. São as notas graves, sustidas. As mesmas notas suspensas à loucura. Um adágio em ritmo de allegro. O teu corpo que se revela entre os lençóis, entre cada uma das notas. É o ritmo da loucura, do violino que grita para lá da razão. Sem expectativas, sem esperanças que o teu corpo me seja devolvido, um dia, um minuto. Recordo a tua gargalhada, as tuas brincadeiras. A forma como tentavas escapar de um beijo, só para provocar.

Estranho bebermos dos lábios um do outro o amor que nunca tivemos. Somos mil histórias inacabadas que ainda não é desta que parecem terminar. A nossa história são histórias cruzadas, entrelaçadas, abraçadas. Somos um olhar nunca antes olhado. Palavras desconectadas, rabiscadas numa folha. Somos a incerteza de um sentimento estranho que parece procurar sustento, como se tudo estivesse a acontecer pela primeira vez, tragicamente pela primeira vez. Como se tudo fosse apenas o mundo à espera de ser descoberto.

Mas não, somos aquela nota do violino sustida para lá da loucura, para lá do momento. Somos o quebrar das regras do ritmo e da musicalidade, tão cientificamente estudadas. Nós não sabemos o que somos. Como se o momento nos aniquilasse. Não sou eu, nem és tu. Somos nós, só nós e só nós é que importamos. Bebemos dos lábios um do outro o amor que não temos, somos o hoje e o amanhã e mais certezas não podemos ter. somos o conforto desconfortável de não sabermos quem somos.

O nosso amor é um violino, e são as mãos que cruzamos, e a descoberta de quem somos um no outro. Somos nós, só nós, e enquanto isso o violino continua.