21.11.08
agradecimento
Obrigado.
=) [ ] *
causa-consequência
Sei cada vez menos, como qualquer outro. Acumulo memórias que não arquivo devidamente. Prendo-as às coisas para que não desapareçam e agarro-me ao que fomos. É a única forma de esquecer o que hoje somos. É a solução mais saudável, a única forma de continuar. É um bicho estranho, o humano.
Somos, ou éramos, ou fomos. Confundo facilmente os tempos verbais quando falo de ti. Em pensamento é menos confuso. Somos, perdão, fomos perfeitos. Em tudo: nos sorrisos, nos abraços, nos risos, nas palavras, nos momentos, nas conversas noite fora e dia também, nos filmes, na música. Fomos mais do mesmo e soubemo-nos bem assim. Faltou-nos o mais importante: gostar. Gostar um do outro como se nada mais houvesse para gostar. Ou simplesmente gostar: como quem gosta mais da manhã ou da noite. Fomos mais do mesmo e soubemo-nos bem assim. Enquanto durou.
Há sempre algo que nos faz voltar. Se é que se pode voltar a algo que nunca chegámos a acabar. A saudade não explica nada. Quando nada mais sobra, quando tudo parece perdido e só nos temos a nós somos (éramos, desculpa, mas não podemos continuar assim) o oásis que nos esconde do mundo. Depois endireitamos os ombros, erguemos a cabeça, olhamos à volta e os dias já não são tão escuros. Enchemo-nos de força e deixamos de nos achar tão perfeitos assim. Afinal, nem sequer gostamos. Mas, bem sei, acabamos por voltar. É irresistível. A saudade não explica nada.
20.11.08
28.10.08
não és tu, sou eu.
Pousei as malas que não tenciono desfazer. Descalcei-me. Espero ter trazido tudo excepto o coração. Faz-me esse último favor: guarda-o até conseguir arranjar-lhe de novo espaço no peito. Não quero confundir depressão com melancolia. Por enquanto não. Ainda é cedo para viver e não vale a pena ter pressa em voltar. Talvez esconda as malas num armário para não me lembrar delas, talvez as deite fora. Tiras-me o coração do sítio.
Talvez vá a Paris. Talvez aprenda finalmente a tocar piano. Gostava de saber cantar. Ou dançar. Um dia talvez comece de novo. Não olhaste para trás quando te despediste. Disse-te: não és tu, sou eu. Acho que te disse: conheci outra pessoa. E podia ter dito qualquer coisa que te fizesse não voltar atrás. Preciso da solidão mais que tudo. Agora tenho dúvidas. Talvez me arrependa. Talvez não. Por via das dúvidas, acendo um cigarro que me sabe mal. Disse-te: não és tu, sou eu. E sou mesmo. Nem os pés contra o chão de madeira me demovem disso. No meio do caos há pessoas diferentes das outras. Produtos defeituosos com excesso de coração e pensamento. Sim, vivo demasiado em mim e às vezes não tenho espaço para mais ninguém. Não és tu, sou eu. Tenho mais prazer numa vida imaginada – em ilusões, sonhos que nunca passam disso mesmo, em antecipações de qualquer coisa que pode acontecer –, que nas coisas demasiado reais. Talvez um dia comece de novo e seja diferente.
Mas, sabes, o problema é que são muito poucos os inícios que valem a pena continuar. A primeira vez é sagrada. E sempre melhor. Insistir é apenas a tentativa de regressar a algo que jamais se pode voltar a sentir. Não vale a pena. Na maior parte das vezes nem é preciso começar. O melhor é sempre a incerteza do que está para acontecer. A dúvida de que possa acontecer. É a adrenalina e sei lá que hormonas mais a acelerar pelas veias feitas auto-estradas. A expectativa. Aqueles últimos dois segundos antes do primeiro beijo. Sim, também me pareceram pelo menos trinta segundos quando nos beijámos a primeira vez: tínhamos ido ver um filme francês, passado em Montmartre, quis mostrar-te aquelas ruas antes de te levar lá. Repetimos a sucessão de beijos da cena: na bochecha, no pescoço, no olho. Primeiro eu a ti, depois tu a mim. Só então os lábios se tocaram. No final, sorrimos e saímos de mãos dadas. Mas isso foi antes.
O problema é parar. É um vício que nos assalta o cérebro. Valemo-nos de tudo para não esquecer aquilo que procuramos e, ainda assim, acabamos sempre cair exaustos sem saber o que procuramos ao certo. O problema é começar de novo: encaixar o coração de volta e partir à procura daquilo que nunca existiu.
Disse-te: não és tu, sou eu. Agora tenho dúvidas. Talvez me arrependa. Talvez não. Esperei junto ao telefone que ligasses só para não atender. Esfreguei os pés um no outro. Tenho saudades. Talvez me arrependa. Talvez não. O que eu não esperava é que tu soubesses que nada me fará mudar de ideias. Agora não importa. É demasiado tarde e as intenções não contam para nada.
31.7.08
20.7.08
Talvez seja melhor assim. Sem palavras pesadas e mergulhados em silêncio. Eu viro costas e tu também. Os caminhos separam-se num até já e com demasiado por dizer. Não vale a pena insistir. Digo-te que vou comprar tabaco, que vou ter que ficar a trabalhar até tarde. Qualquer coisa simples. Que se perceba que é mentira, mas que seja incontestável. Se chegámos até aqui foi por mero acaso. Uma coincidência delimitada no espaço e no tempo. Nada nos empurra para a frente. Talvez seja melhor assim.
11.7.08
entre o candeeiro e o sinal.
Ele parou o carro e desligou o motor. Não disse nada para não a encorajar a sair. Ela procura as chaves de casa na carteira. Sente-se frustrada porque nunca encontra nada. Ele sente-a a fugir e sabe que tem que fazer algo.
- O jantar estava bom, não estava? Devíamos repetir.
Ela responde que sim e não diz mais nada. Olha em frente. Tem as chaves de casa na mão e não diz nada. Ele olha para ela e depois olha em frente, tentando ver o mesmo que ela. Ficam assim uns minutos. Ela mexe no rádio, procura uma estação que não incomode demasiado. Explica-lhe que ainda não recuperou do último namorado, que já passou mais de um ano mas que ainda sente o cheiro dele na roupa. Tudo lhe lembra ele, porque ele era, é, tudo. Talvez nunca deixasse de o ser. Volta a mexer no rádio.
- Não consigo ouvir esta música.
Ele não pergunta porquê. Hesita em dizer o que seja. Ela continua a falar, mais sozinha que com ele. Não sabe porque o faz porque tanto faz. Perdeu a vida e tarda em reencontrá-la. O coração insiste em permanecer parado, o sangue não circula. Tem o corpo gelado. Ainda não consegue sair da concha em que se fechou. Não tem afectos para dar.
- As pessoas também hibernam, andam por aí sonolentas. Como se nada as afectasse. Ninguém percebe que é por não conseguirem sentir, por não conseguirem dar o que seja. É uma questão de sobrevivência. O que não faz sentido, porque também não estou viva.
Ela encolhe os ombros. Ele brinca com a chave na ignição. Diz-lhe que tudo vai ficar bem. Que pode esperar. Diz-lhe que é linda e que de certeza os olhos lhe voltarão a brilhar. Está apaixonado sem qualquer esperança. Sabe que nunca a terá, mas ainda não sabe que não a voltará a ver. Puxa-a para um abraço que ela finge aceitar. O coração permanece parado e lembra-se dos abraços que sabiam a mil. Ele acredita que lhe conquistou a confiança e para ela foi indiferente. Ele tem o coração cheio, a transbordar. Ela lembra-se do amor que ainda sente e tem vontade de chorar.
- Acho que vou entrar. Obrigado pelo jantar.
Ele que repete que deveriam repetir e fica à espera que ela entre. Liga o carro e olha para o sinal, que só agora repara ser de sentido único.
7.7.08
26.6.08
Primeiro foram as fotografias. Apaixonei-me por elas, como se fosse possível alguém se apaixonar por um simples olhar, um ponto de vista. Só depois vieste tu. Trazias nos lábios o silêncio quebrado pelas palavras adequadas. Bebias demasiado café porque tinhas medo de adormecer. Dizias: os fantasmas estão mais vivos à noite. E bebias mais café, não fossem eles assombrar-te.
Fotografavas tudo. Como se não fosse possível algo fazer sentido sem um enquadramento devidamente escolhido. Fotografavas-te a ti. Para teres a certeza que ainda estavas viva. Era essa a tua forma de comunicar, já que as palavras pareciam descair sempre para o silêncio. Um dia disseste que tinhas saudades do mar, de pisar a areia. Se te podia levar lá. Disse-te que sim, na condição de não voltarmos. De ficarmos por lá sem haver mais nada. As ondas a deslizarem na areia e a vida a passar. Sem mais nada.
No carro, a caminho do mar, qualquer que fosse o mar, olhaste-me e sorriste. Como se me olhasses através da máquina. Senti-me fotografado. Como se por qualquer razão estivesses a guardar aquele momento para sempre. Seguraste a minha mão que não largaste até chegarmos ao mar. Ficámos por lá. Até que as ondas nos levaram sem sequer dizermos adeus.
