20.11.08

paris je t'aime



excerto do filme "Paris Je T'aime" intitulado "Faubourg Saint-Denis".

28.10.08

não és tu, sou eu.

Tiras-me o coração do sítio. Às vezes pergunto-me se valerá a pena. Os suspiros afiados, isto é. As noites que se estendem até ser dia. Os dias a subtraírem-se uns aos outros e talvez me façam falta depois. Não sei para onde vou. São quase oito da noite e é possível que me tenha enganado no caminho para casa. Os dias estão mais curtos e há algo de reconfortante nisso.

Pousei as malas que não tenciono desfazer. Descalcei-me. Espero ter trazido tudo excepto o coração. Faz-me esse último favor: guarda-o até conseguir arranjar-lhe de novo espaço no peito. Não quero confundir depressão com melancolia. Por enquanto não. Ainda é cedo para viver e não vale a pena ter pressa em voltar. Talvez esconda as malas num armário para não me lembrar delas, talvez as deite fora. Tiras-me o coração do sítio.

Talvez vá a Paris. Talvez aprenda finalmente a tocar piano. Gostava de saber cantar. Ou dançar. Um dia talvez comece de novo. Não olhaste para trás quando te despediste. Disse-te: não és tu, sou eu. Acho que te disse: conheci outra pessoa. E podia ter dito qualquer coisa que te fizesse não voltar atrás. Preciso da solidão mais que tudo. Agora tenho dúvidas. Talvez me arrependa. Talvez não. Por via das dúvidas, acendo um cigarro que me sabe mal. Disse-te: não és tu, sou eu. E sou mesmo. Nem os pés contra o chão de madeira me demovem disso. No meio do caos há pessoas diferentes das outras. Produtos defeituosos com excesso de coração e pensamento. Sim, vivo demasiado em mim e às vezes não tenho espaço para mais ninguém. Não és tu, sou eu. Tenho mais prazer numa vida imaginada – em ilusões, sonhos que nunca passam disso mesmo, em antecipações de qualquer coisa que pode acontecer –, que nas coisas demasiado reais. Talvez um dia comece de novo e seja diferente.

Mas, sabes, o problema é que são muito poucos os inícios que valem a pena continuar. A primeira vez é sagrada. E sempre melhor. Insistir é apenas a tentativa de regressar a algo que jamais se pode voltar a sentir. Não vale a pena. Na maior parte das vezes nem é preciso começar. O melhor é sempre a incerteza do que está para acontecer. A dúvida de que possa acontecer. É a adrenalina e sei lá que hormonas mais a acelerar pelas veias feitas auto-estradas. A expectativa. Aqueles últimos dois segundos antes do primeiro beijo. Sim, também me pareceram pelo menos trinta segundos quando nos beijámos a primeira vez: tínhamos ido ver um filme francês, passado em Montmartre, quis mostrar-te aquelas ruas antes de te levar lá. Repetimos a sucessão de beijos da cena: na bochecha, no pescoço, no olho. Primeiro eu a ti, depois tu a mim. Só então os lábios se tocaram. No final, sorrimos e saímos de mãos dadas. Mas isso foi antes.

O problema é parar. É um vício que nos assalta o cérebro. Valemo-nos de tudo para não esquecer aquilo que procuramos e, ainda assim, acabamos sempre cair exaustos sem saber o que procuramos ao certo. O problema é começar de novo: encaixar o coração de volta e partir à procura daquilo que nunca existiu.

Disse-te: não és tu, sou eu. Agora tenho dúvidas. Talvez me arrependa. Talvez não. Esperei junto ao telefone que ligasses só para não atender. Esfreguei os pés um no outro. Tenho saudades. Talvez me arrependa. Talvez não. O que eu não esperava é que tu soubesses que nada me fará mudar de ideias. Agora não importa. É demasiado tarde e as intenções não contam para nada.

31.7.08

adeus

As despedidas surgem sempre fora de tempo.











adeus.

20.7.08

Talvez seja melhor assim. Sem palavras pesadas e mergulhados em silêncio. Eu viro costas e tu também. Os caminhos separam-se num até já e com demasiado por dizer. Não vale a pena insistir. Digo-te que vou comprar tabaco, que vou ter que ficar a trabalhar até tarde. Qualquer coisa simples. Que se perceba que é mentira, mas que seja incontestável. Se chegámos até aqui foi por mero acaso. Uma coincidência delimitada no espaço e no tempo. Nada nos empurra para a frente. Talvez seja melhor assim.

11.7.08

entre o candeeiro e o sinal.

- É esta a minha casa. Podes parar aí, entre o candeeiro e o sinal.

Ele parou o carro e desligou o motor. Não disse nada para não a encorajar a sair. Ela procura as chaves de casa na carteira. Sente-se frustrada porque nunca encontra nada. Ele sente-a a fugir e sabe que tem que fazer algo.

- O jantar estava bom, não estava? Devíamos repetir.

Ela responde que sim e não diz mais nada. Olha em frente. Tem as chaves de casa na mão e não diz nada. Ele olha para ela e depois olha em frente, tentando ver o mesmo que ela. Ficam assim uns minutos. Ela mexe no rádio, procura uma estação que não incomode demasiado. Explica-lhe que ainda não recuperou do último namorado, que já passou mais de um ano mas que ainda sente o cheiro dele na roupa. Tudo lhe lembra ele, porque ele era, é, tudo. Talvez nunca deixasse de o ser. Volta a mexer no rádio.

- Não consigo ouvir esta música.

Ele não pergunta porquê. Hesita em dizer o que seja. Ela continua a falar, mais sozinha que com ele. Não sabe porque o faz porque tanto faz. Perdeu a vida e tarda em reencontrá-la. O coração insiste em permanecer parado, o sangue não circula. Tem o corpo gelado. Ainda não consegue sair da concha em que se fechou. Não tem afectos para dar.

- As pessoas também hibernam, andam por aí sonolentas. Como se nada as afectasse. Ninguém percebe que é por não conseguirem sentir, por não conseguirem dar o que seja. É uma questão de sobrevivência. O que não faz sentido, porque também não estou viva.

Ela encolhe os ombros. Ele brinca com a chave na ignição. Diz-lhe que tudo vai ficar bem. Que pode esperar. Diz-lhe que é linda e que de certeza os olhos lhe voltarão a brilhar. Está apaixonado sem qualquer esperança. Sabe que nunca a terá, mas ainda não sabe que não a voltará a ver. Puxa-a para um abraço que ela finge aceitar. O coração permanece parado e lembra-se dos abraços que sabiam a mil. Ele acredita que lhe conquistou a confiança e para ela foi indiferente. Ele tem o coração cheio, a transbordar. Ela lembra-se do amor que ainda sente e tem vontade de chorar.

- Acho que vou entrar. Obrigado pelo jantar.

Ele que repete que deveriam repetir e fica à espera que ela entre. Liga o carro e olha para o sinal, que só agora repara ser de sentido único.

7.7.08

Quero matar-te. Estou apaixonado. É a pior que me pode acontecer. O que quer que seja é o primeiro passo para o fim de tudo. Acontece sempre demasiado cedo e é como uma bomba. Destrói tudo. Começa em mim e depois propaga-se. Só pára quando nada mais restar que não nós. Não sou assim. Estou apaixonado. Não consigo evitar este desejo de tudo incendiar. Não dá. Mais vale esquecer. Não dá. O corpo já não aguenta o coração. Senta-te aí. Enche o copo. Acende um cigarro. Estás confortável? Óptimo. Sabes o que tens a fazer. Tens-me acorrentado e só tens que puxar o gatilho. Não sei como isto foi acontecer. Sabes o que tens a fazer. Diz-me que nunca mas nunca mesmo. E não me digas que nunca é demasiado forte. Puxa o gatilho. Não sabes? Claro que sabes. No teu coração não há lugar para mim. Puxa o gatilho. Vá, tu consegues. Porquê a hesitação? Bebe mais um copo, dois. Embebeda-te terrivelmente e que isso te sirva de desculpa. Mata-me. Anda lá. Chorar é para os fracos. Não consegues? Porquê? Mata-me de uma vez, porra! É o que dói mais. Esta indefinição de nunca sermos capazes de nos matar. Esta explosão contida mil vezes a consumir o oxigénio. O coração histérico. Eu não sou assim. Estou apaixonado. É o fim de tudo.

26.6.08

Primeiro foram as fotografias. Apaixonei-me por elas, como se fosse possível alguém se apaixonar por um simples olhar, um ponto de vista. Só depois vieste tu. Trazias nos lábios o silêncio quebrado pelas palavras adequadas. Bebias demasiado café porque tinhas medo de adormecer. Dizias: os fantasmas estão mais vivos à noite. E bebias mais café, não fossem eles assombrar-te.

Fotografavas tudo. Como se não fosse possível algo fazer sentido sem um enquadramento devidamente escolhido. Fotografavas-te a ti. Para teres a certeza que ainda estavas viva. Era essa a tua forma de comunicar, já que as palavras pareciam descair sempre para o silêncio. Um dia disseste que tinhas saudades do mar, de pisar a areia. Se te podia levar lá. Disse-te que sim, na condição de não voltarmos. De ficarmos por lá sem haver mais nada. As ondas a deslizarem na areia e a vida a passar. Sem mais nada.

No carro, a caminho do mar, qualquer que fosse o mar, olhaste-me e sorriste. Como se me olhasses através da máquina. Senti-me fotografado. Como se por qualquer razão estivesses a guardar aquele momento para sempre. Seguraste a minha mão que não largaste até chegarmos ao mar. Ficámos por lá. Até que as ondas nos levaram sem sequer dizermos adeus.

22.6.08

Separava-os a distância de um cigarro. O que ele fumava pelo caminho todas as noites. Ela não. Raramente fumava e quando o fazia tinha que estar sentada a beber algo. Só assim. Naquele dia ele entrou em casa dela com a chave que tinha para qualquer emergência. Ela vivia sozinha e perdia quase tudo. Abriu a porta, chamou-a. Sentou-se no sofá, acendeu um cigarro. Antes que ela pudesse reclamar por ele não ter tocado à campainha, disse: és o último amor da minha vida. Disse: não quero procurar mais, encontrei, encontrei-te, depois de ti não poderei voltar a amar, és perfeita. Pensou: roubava-te um beijo se a vergonha depois não me impedisse de voltar a ver-te.

15.6.08

antes morrer.

Não gosto da felicidade. É um sobressalto. Nunca saber com o que contar. Quando é que se vai cair outra vez. Mais vale assim. Sem ambição, esperança, sonhos. Sem sequer um augúrio de algo que possa estar para viver. O melhor é não esperar nada. Esquecer tudo. Apaixonar-me sem qualquer esperança por alguém que seja como uma parede. Capaz de ouvir. Incapaz de reagir. Por alguém que deposite as suas mágoas em mim, mas só isso. E que parta quando já nada mais houver para sarar, sem que tenha chegado a dar mais que uma marca profunda na pele. O arrependimento do que nunca chega a acontecer. A dor por companhia. A consciência de nunca caber em lado algum. Arrastar os dias só porque sim. Mais vale isto. Sei com o que contar que é nada. Mais vale isto. Nunca esperar por aquilo que preciso. Ouvir as mágoas porque é tudo que se pode alcançar. Guardar-me em silêncio para não me deixarem a meio. Aguentar. O que é preciso é aguentar. Sobreviver custe o que custar. Só para não dar parte fraca. Ser feliz é que não. Antes morrer.