11.7.08

entre o candeeiro e o sinal.

- É esta a minha casa. Podes parar aí, entre o candeeiro e o sinal.

Ele parou o carro e desligou o motor. Não disse nada para não a encorajar a sair. Ela procura as chaves de casa na carteira. Sente-se frustrada porque nunca encontra nada. Ele sente-a a fugir e sabe que tem que fazer algo.

- O jantar estava bom, não estava? Devíamos repetir.

Ela responde que sim e não diz mais nada. Olha em frente. Tem as chaves de casa na mão e não diz nada. Ele olha para ela e depois olha em frente, tentando ver o mesmo que ela. Ficam assim uns minutos. Ela mexe no rádio, procura uma estação que não incomode demasiado. Explica-lhe que ainda não recuperou do último namorado, que já passou mais de um ano mas que ainda sente o cheiro dele na roupa. Tudo lhe lembra ele, porque ele era, é, tudo. Talvez nunca deixasse de o ser. Volta a mexer no rádio.

- Não consigo ouvir esta música.

Ele não pergunta porquê. Hesita em dizer o que seja. Ela continua a falar, mais sozinha que com ele. Não sabe porque o faz porque tanto faz. Perdeu a vida e tarda em reencontrá-la. O coração insiste em permanecer parado, o sangue não circula. Tem o corpo gelado. Ainda não consegue sair da concha em que se fechou. Não tem afectos para dar.

- As pessoas também hibernam, andam por aí sonolentas. Como se nada as afectasse. Ninguém percebe que é por não conseguirem sentir, por não conseguirem dar o que seja. É uma questão de sobrevivência. O que não faz sentido, porque também não estou viva.

Ela encolhe os ombros. Ele brinca com a chave na ignição. Diz-lhe que tudo vai ficar bem. Que pode esperar. Diz-lhe que é linda e que de certeza os olhos lhe voltarão a brilhar. Está apaixonado sem qualquer esperança. Sabe que nunca a terá, mas ainda não sabe que não a voltará a ver. Puxa-a para um abraço que ela finge aceitar. O coração permanece parado e lembra-se dos abraços que sabiam a mil. Ele acredita que lhe conquistou a confiança e para ela foi indiferente. Ele tem o coração cheio, a transbordar. Ela lembra-se do amor que ainda sente e tem vontade de chorar.

- Acho que vou entrar. Obrigado pelo jantar.

Ele que repete que deveriam repetir e fica à espera que ela entre. Liga o carro e olha para o sinal, que só agora repara ser de sentido único.

7.7.08

Quero matar-te. Estou apaixonado. É a pior que me pode acontecer. O que quer que seja é o primeiro passo para o fim de tudo. Acontece sempre demasiado cedo e é como uma bomba. Destrói tudo. Começa em mim e depois propaga-se. Só pára quando nada mais restar que não nós. Não sou assim. Estou apaixonado. Não consigo evitar este desejo de tudo incendiar. Não dá. Mais vale esquecer. Não dá. O corpo já não aguenta o coração. Senta-te aí. Enche o copo. Acende um cigarro. Estás confortável? Óptimo. Sabes o que tens a fazer. Tens-me acorrentado e só tens que puxar o gatilho. Não sei como isto foi acontecer. Sabes o que tens a fazer. Diz-me que nunca mas nunca mesmo. E não me digas que nunca é demasiado forte. Puxa o gatilho. Não sabes? Claro que sabes. No teu coração não há lugar para mim. Puxa o gatilho. Vá, tu consegues. Porquê a hesitação? Bebe mais um copo, dois. Embebeda-te terrivelmente e que isso te sirva de desculpa. Mata-me. Anda lá. Chorar é para os fracos. Não consegues? Porquê? Mata-me de uma vez, porra! É o que dói mais. Esta indefinição de nunca sermos capazes de nos matar. Esta explosão contida mil vezes a consumir o oxigénio. O coração histérico. Eu não sou assim. Estou apaixonado. É o fim de tudo.

26.6.08

Primeiro foram as fotografias. Apaixonei-me por elas, como se fosse possível alguém se apaixonar por um simples olhar, um ponto de vista. Só depois vieste tu. Trazias nos lábios o silêncio quebrado pelas palavras adequadas. Bebias demasiado café porque tinhas medo de adormecer. Dizias: os fantasmas estão mais vivos à noite. E bebias mais café, não fossem eles assombrar-te.

Fotografavas tudo. Como se não fosse possível algo fazer sentido sem um enquadramento devidamente escolhido. Fotografavas-te a ti. Para teres a certeza que ainda estavas viva. Era essa a tua forma de comunicar, já que as palavras pareciam descair sempre para o silêncio. Um dia disseste que tinhas saudades do mar, de pisar a areia. Se te podia levar lá. Disse-te que sim, na condição de não voltarmos. De ficarmos por lá sem haver mais nada. As ondas a deslizarem na areia e a vida a passar. Sem mais nada.

No carro, a caminho do mar, qualquer que fosse o mar, olhaste-me e sorriste. Como se me olhasses através da máquina. Senti-me fotografado. Como se por qualquer razão estivesses a guardar aquele momento para sempre. Seguraste a minha mão que não largaste até chegarmos ao mar. Ficámos por lá. Até que as ondas nos levaram sem sequer dizermos adeus.

22.6.08

Separava-os a distância de um cigarro. O que ele fumava pelo caminho todas as noites. Ela não. Raramente fumava e quando o fazia tinha que estar sentada a beber algo. Só assim. Naquele dia ele entrou em casa dela com a chave que tinha para qualquer emergência. Ela vivia sozinha e perdia quase tudo. Abriu a porta, chamou-a. Sentou-se no sofá, acendeu um cigarro. Antes que ela pudesse reclamar por ele não ter tocado à campainha, disse: és o último amor da minha vida. Disse: não quero procurar mais, encontrei, encontrei-te, depois de ti não poderei voltar a amar, és perfeita. Pensou: roubava-te um beijo se a vergonha depois não me impedisse de voltar a ver-te.

15.6.08

antes morrer.

Não gosto da felicidade. É um sobressalto. Nunca saber com o que contar. Quando é que se vai cair outra vez. Mais vale assim. Sem ambição, esperança, sonhos. Sem sequer um augúrio de algo que possa estar para viver. O melhor é não esperar nada. Esquecer tudo. Apaixonar-me sem qualquer esperança por alguém que seja como uma parede. Capaz de ouvir. Incapaz de reagir. Por alguém que deposite as suas mágoas em mim, mas só isso. E que parta quando já nada mais houver para sarar, sem que tenha chegado a dar mais que uma marca profunda na pele. O arrependimento do que nunca chega a acontecer. A dor por companhia. A consciência de nunca caber em lado algum. Arrastar os dias só porque sim. Mais vale isto. Sei com o que contar que é nada. Mais vale isto. Nunca esperar por aquilo que preciso. Ouvir as mágoas porque é tudo que se pode alcançar. Guardar-me em silêncio para não me deixarem a meio. Aguentar. O que é preciso é aguentar. Sobreviver custe o que custar. Só para não dar parte fraca. Ser feliz é que não. Antes morrer.

10.6.08

Começou no carro. No trânsito a ouvir a estação de rádio de sempre, a música que dava vezes e vezes sem fim. Batia com os dedos no volante a acompanhar o ritmo. Apercebeu-se que a música mais não é que um sequência lógica e matemática de sons. Foi aí que começou. Sabe-o agora que é tarde demais. Todos os dias, no carro, a ir para o emprego ou a voltar para casa, fosse qual fosse a música, tentava encontrar-lhe a fórmula, e daí encontrar a fórmula que se aplicasse a todas as músicas. Percebeu o porquê dos diferentes estilos musicais e representou-o em números. Depois descobriu que os livros, os filmes, tudo o que contasse uma história seguia determinados padrões que não podiam ser alterados. Só assim fazia sentido.

Anota tudo. Escreveu uma tese que jamais alguém aceitou, e achou que talvez ficasse famoso por encontrar a sequência de todo o comportamento humano. Anos e anos de pesquisa científica resumidos em algumas páginas. Acredita ter um dom que lhe permitia padronizar tudo. Tudo. Senta-se à janela de casa, na mesa do canto de um café, num banco de jardim. Passa os dias e as horas a observar as pessoas. Seja quem for. Prometeu a si mesmo encontrar o segredo de tudo. A lógica matemática da vida. Esquece-se de comer, dormir, tomar banho. Esquece-se de si mesmo. Anota tudo. Calcula tudo. Não fala com ninguém. Não acha necessário. Recorta revistas e jornais. Lê muito. Tenta aplicar a tese que escrevera à sua nova teoria. As relações interpessoais são apenas relações comerciais. Tudo pode ser calculado e previsto.

No emprego finge trabalhar. Olha pela janela e bate com a caneta nos dentes ao ritmo da vida. Os colegas não se aproximam. O chefe acabará por despedi-lo. E ele não se importa. Sabe que está destinado a algo maior. Conseguiu reduzir uma relação entre duas pessoas a uma equação com diversas variáveis. Algumas entretanto transformadas em constantes. Contudo, na busca do seu destino maior, esqueceu-se do mais óbvio: as variáveis são isso mesmo. Variáveis.

29.5.08

Para o bem e para o mal. É quase perverso este tudo querer. Gostava que isto acabasse aqui. Num beijo ou noutra coisa qualquer que mate o coração de uma vez por todas. Eu ainda acredito. E tu nem sequer existes. Gostava que isto não tivesse chegado sequer a começar. O coração não aguenta. Agora é tarde demais. Conheces-me demasiado para que te possa deixar partir sem antes te matar em mim. É a última vez. Como todas as outras últimas vezes. Tenho o coração gasto, como em todas as outras vezes. Roubas-me o mundo logo pela manhã, quando abres os olhos. O silêncio fica-te tão bem. És linda. Muito mais que muito. A culpa é tua. És adorável. A culpa é minha por não te ter mantido à distância. Gostava que isto acabasse aqui. Para o bem e para o mal. Sem ter que te matar. Não quero. Tenho o coração gasto de tanto gostar e mesmo assim continuo. Não sei porquê. Nem como. Acordo todos os dias a pensar invariavelmente em ti. E não sei adormecer sem ti. Uma qualquer limitação fisiológica imposta no dia em que te vi. Esse sorriso catastrófico que tudo mata. Tenho o corpo vencido, cada poro entupido de ti. Tenho a dor de não me conseguir lembrar do teu cheiro. Por muito que o procure em todo o lado. Nas roupas. Nos livros. Nas recordações sempre demasiado enevoadas, demasiado ao longe. O meu coração não aguenta este passar lento dos dias a suspirar por qualquer coisa que nem eu sei bem o quê. Estou derrotado, vencido. E continuo. Amo-te. Para o bem e para o mal.

20.5.08

A Sofia tem um namorado novo. É fotógrafo. Quase nunca se vêem e não tem mal. Encontram-se ao domingo. É sagrado. Para ele. Ela gosta do silêncio na casa, de encontrar as coisas onde as deixou. Só sente falta de alguém quando está doente e tem que cuidar de si mesma. Mas não é isso que a afasta do seu silêncio. Tem dias em que gostava de o sentir por perto. Em especial às quartas, quando a semana vai a meio e o cansaço se sente mais. Mas resiste. Não lhe telefona, não diz nada. Ele que telefone, que ela passa bem sem pessoas e não gosta assim tanto de sexo.

Um destes domingos chegou a casa dele apressada. Ansiosa. Disse: é quase noite, temos que aproveitar enquanto há luz. À noite tudo morre, até nós. Pousou a carteira, ofereceu-lhe um beijo que ele recusou sem saber bem porquê. Talvez saiba. Sentou-se na cama coberta de branco imaculado. Começou a tirar a roupa. Estende a mão para uma das câmaras espalhadas pela casa e dá-lha. Diz-lhe que faça dela o que quiser e ele não sabe o que fazer. Dispara um rolo inteiro seguido. Sem olhar. Cada fotografia é uma bala a atravessar o coração. Sangra um sangue que não se vê.

A Sofia deita-se para trás na cama. Enrola-se em si mesma. O corpo esguio e a pele muito branca. Sente o diafragma da câmara a disparar uma vez mais. A alma a ser-lhe roubada. Quando já nada resta de si mesma, pega na roupa entretanto espalhada pelo quarto. Veste-se. Beija-lhe a face. Diz: até para a semana, talvez.

15.5.08

«O melhor do acto de escrever é possibilitar inúmeras interpretações e nenhuma delas se assemelhar à da pessoa cuja mão libertou aquelas palavras. a sua versão permanece absolutamente intacta, mesmo quando quem lê pensa ter atingido algum nervo mais sensível - pode ter atingido qualquer coisa mas nunca com a força desmedida de quem sabe onde dói e porquê.»

12.5.08

Ela sabia que se desaparecesse ninguém reparava.

E ninguém reparou.

11.5.08

Já não sabia que mais fazer para continuar a amá-lo. As recordações começavam a desaparecer, ainda que mantivesse intactas as fotografias dele na parede. Sentava-se regularmente no sofá onde se deitavam os dois. Abria um livro. Fechava o livro para se concentrar nas recordações que lhe fugiam, não queria correr o risco de se projectar nas personagens do livro e confundir tudo.

Recusava os comprimidos que um tio que era médico lhe tinha dado. Queria manter-se lúcida, real. Falava regularmente com as fotografias dele, com as fotografias dos dois em Copenhaga. Tinha a casa sempre cheia de sons e de pó. Ouvia as músicas que ambos ouviam no carro quando passeavam lentamente pela marginal e eram cobertos de buzinas pelos mais apressados. O tempo passava devagar, quase parado.

O seu olhar a absorver tudo, a sentir tudo, com a mão esquerda por cima da dele na alavanca das mudanças. Um dia começaram no mar e só pararam na nascente de um rio que desaguava nesse mesmo mar. Pediu-lhe que ficassem um pouco ali, e ele calou o motor. Não se ouvia nada. E ela deslizou no espaço exíguo do carro para o colo dele. Tirou-lhe a roupa sem nunca deixar de o olhar nos olhos. Tirou a sua própria roupa sem nunca deixar de o olhar nos olhos. Agarrou-o com força, com toda a força que tinha.

Fala regularmente com as fotografias dele, diz-lhes sempre boa noite quando se deita. Antes de adormecer jura ser capaz de sentir as mãos dele a percorrerem-lhe todo o corpo, sem se aperceber que são as suas próprias mãos que lhe percorrem o corpo.

6.5.08

espelho de ti

Gosto pouco de cortar o cabelo, as lâminas rentes à cabeça incomodam-me. Mas o pior não é isso. São os espelhos por todo o lado, a obrigação de me olhar nos olhos sem o alívio de poder passar água na cara. Obrigam-me a tirar os óculos. A visão deturpa-se, mas não esconde as olheiras. Não disfarça os olhos cansados, os lábios secos da espera. O corpo que amadurece e se prepara para envelhecer.


Quando dou por mim, e faço-o sempre tarde demais, estou demasiado mergulhado em quem sou. Como se entrasse pelos meus próprios olhos e pela minha própria boca a dentro e violasse todas as recordações. Mergulho demasiado em mim, e é como se mergulhasse também nos teus olhos e no teu corpo. É assustador ver de perto este amor que nos separa.


O barbeiro pousa as lâminas, pega no espelho pequeno que mostra a nuca e não mostra nada. Pergunta-me se está bem assim e nunca lhe diria que não. Ponho os óculos. Espero os segundos necessários para que a visão se reajuste. Respiro de alívio. Tenho menos cabelo, pareço mais velho. O que ainda não me desagrada, mas é sintoma de que me estou a enganar. Na idade, e contigo.

1.5.08

Consigo hoje descrever cada uma das razões porque te amo. Sei onde começou e porquê. Sei qual é a parte do teu corpo doce de que gosto mais, e já não te respondo com um simples "todo". Sei onde, como, porquê e quando. Consigo explicar cada detalhe, cada momento, cada estremecer do corpo quando estás por perto. É por isso que tem que acabar, o amor só pode existir quando não há razão para que exista.

26.4.08

No final não fica nada, esquecem-se as memórias e as promessas. Arrumam-se os corpos a um canto, cobertos de cicatrizes e cortes ainda sangrentos. Arrumam-se a um canto, amanhã podem já não ser precisos e a alma dura para sempre. Há que cuidá-la. O resto que se lixe. Cubra-se a cara de sorrisos artificiais e inventem-se forças para continuar, mesmo quando já se sabe à partida que o caminho não leva a lugar algum. Voltamos sempre ao mesmo. Não podemos continuar a esconder-nos por detrás dos corpos que já não aguentam ser fustigados.

Não compreendo este entrelaçar de dedos, o carinho lascivo com que nos tratamos. Não percebo se é causa ou consequência de tudo o resto: os corpos susceptíveis ao toque. A tua cabeça a adaptar-se tão perfeitamente ao meu ombro. É ridículo serem só os corpos, como queremos acreditar. São os silêncios em que embrulhamos os braços e os abraços, como se ficasse algo por dizer. Como se houvesse uma lacuna por preencher com um amo-te ou no mínimo um gosto de ti.

Depois recuperamos a compostura. Voltamos à frieza, e às feridas, e ao corpo ensanguentado. Há que cuidar a alma e não dá-la a ninguém. Somos ilhas por vezes unidas por pontes e nada mais que ilhas unidas por pontes. Devorem-se os corpos, consuma-se a pele. Mas a nós que ninguém nos roube de nós mesmos. Porque quando os corpos desaparecerem somos tudo o que resta.

14.4.08

Até já, numa rua de Tóquio ou qualquer outro sítio do mundo. Tenho que partir, nem sei bem porquê. Vens comigo? É que de todas as pessoas que já conheci, os teus defeitos são os mais encantadores. Qualidades todos temos, ou fazemos por ter. Toda a gente tem algo de que é possível gostar. Mas defeitos não. Mas nunca conheci ninguém com um alinhamento de defeitos tão perfeito como o teu. Podia viver com eles para sempre. A irritarem-me e a chatearem-me na mesma, mas tão encantadores.

Porque na realidade, é disso que somos feitos, das pequenas falhas, dos pequenos defeitos, dos pequenos erros que cometemos. E os nossos parecem encaixar tão bem. Vens comigo? Não há nada mais harmonioso que o silêncio de duas pessoas que deveriam ficar sozinhas e que se juntam. Aí nada pode falhar. Vens comigo?

7.4.08

Sossega-me. Diz que não voltas, que posso seguir o meu caminho. Diz-me aquilo que eu já sei. Diz na mesma. Diz-me que valeu a pena, que não te esqueces, mas só isso. Diz-me que é impossível, descabido, surreal. Que é só na minha cabeça que a esperança se acumula. Os dias estavam mais que contados, não estavam? Não havia qualquer salvação. Diz-me que não. Eu sei, mas diz.

Diz-me qualquer coisa. Sossega-me. Diz-me coisas boas. Diz-me aquilo que eu já sei. Diz. Diz na mesma. Diz que vale(u) a pena. Diz-me que não é em vão. Que já tenho um lugar só meu. Sossega-me. Diz-me só que é possível, que não é descabido, que não é só na minha cabeça que a esperança se acumula. Eu sei, mas diz na mesma. Diz que não me esqueces, que é desta que ficas para sempre.

Sossega-me. Diz-me qualquer coisa, e não me censures por me sentir assim. Gosto mais, demais, ainda. Eu sei. Não precisas de dizer. Tens que ir, não te impeço, mas diz qualquer coisa, diz que um dia vais dizer qualquer coisa. Mente. Sossega-me.

3.4.08

– Dá-me um cigarro. Desculpa, esqueci-me de comprar. Obrigado.

Dou duas passas. Três. Quatro. Só mais uma, e apago o cigarro. Olho-te nos olhos e perco a coragem. Como se o teu sorriso fizesse desaparecer todo o mundo lá fora, comigo nele.

– Precisamos de falar, mas não sei bem como dizer isto.

O coração prestes a explodir, a querer explodir. E a cabeça calma. Peço desculpa, mas o Descartes que se foda, não é por pensar que existo mais ou menos. Pelo contrário, é isso que me aniquila em momentos como este. Sinto, logo existo. Quanto muito. E mesmo assim nem sempre.

– Desculpa, não sei por onde começar. Às vezes parece que as palavras se atropelam, sabes? Como se viessem todas à boca de uma vez só. E depois já não sei o que quero realmente dizer. Perco-me. E depois lembro-me de coisas estúpidas pelo meio, se desliguei ou não o fogão, a capa do jornal pendurado no quiosque no fundo da rua. Sim, aquela que tem o café daquele velhinho muito velhinho e muito lento a servir. O senhor Henrique. Por isso é que nunca lá vou de manhã. E depois é esta coisa. Nunca consigo dizer o que tenho para dizer sem me dispersar. Eu sei, estou só a ganhar tempo. Não sei por onde começar, e estou a sentir-me a desaparecer.

Quanto mais falo, pior parece. Cria expectativas, eu sei. Tudo o que possa dizer depois parece que não surte qualquer efeito. Parece desprovido de qualquer significado. Bem sei, depois de todas estas voltas. E depois lá vem o pensamento outra vez, que coisa. E dá-se-me a lucidez da situação. A inclinação do teu corpo na minha direcção, à espera. O cinzeiro a transbordar, o número de cigarros que já tirei do teu maço. E reparo que já não sorris, reparo que as cores ganham vida de novo. Como se tudo resumisse ao aqui e ao agora. Como se não houvesse mais tempo para ganhar, ou para perder. E tivesse mesmo que ir directo ao assunto. Não há nada pior.

– Mas o que eu te queria realmente dizer, ainda que soe a nada, e não sirva de nada. E juro-te que não era isso que queria, mas não soube evitar. E se calhar também não quis. Acho que só me apercebi tarde demais, a negação tem destas coisas. É que esse teu sorriso, esse teu olhar. Gosto de ti. Acho que é isso que queria dizer, só isso que queria dizer. Gosto de ti.

24.3.08

Podes ficar com o meu corpo, não me faz falta. Quero esquecer, e o corpo já nada me importa, podes ficar com ele. Sei que o queres, mas não te venhas dentro de mim. Vem-te na minha boca, na minha cara, onde quiseres. Dentro de mim não. Não quero em mim fluidos que não possa cuspir ou lavar, que não possa expulsar do corpo. De resto, faz o que te apetecer, não ofereço resistência. Quem me dera que toda a dor fosse corporal.

Não fico mais que uns dias, os suficientes para respirar um pouco. Mudar de ares e de ideias. Eu durmo no sofá, não tem mal. Durmo no chão até, se for preciso. Estou só cansada de ser eu. Cansada das minhas coisas sempre no mesmo sítio, por muito que as mude. Estou cansada da minha roupa, dos meus lençóis. Farta de comer as mesmas coisas uma e outra vez. Não fico mais que uns dias. Gosto da tua casa como se fosse minha. Sinto-me bem aqui, não tenho recordações.

Não te preocupes, não preciso de nada, trouxe o essencial. Podes sentar-te comigo se quiseres, eu ajudo-te a fazer o jantar, e arrumo tudo depois. Talvez me deixes deitar-me contigo, não precisamos de nos abraçar, nem sequer de nos tocarmos, só deitar-me ao teu lado a ouvir-te respirar fundo. Só para sentir alguém.

Podes ficar com o meu corpo. Espero que pague a estadia.

22.3.08

a preto e branco

Hoje acordei a preto e branco. Como nos filmes antigos. A sonhar com impossíveis, com a saudade adiantada do que está para vir. Com o desejo de dizer o indizível e ouvi-lo de volta. Longos beijos debaixo de chuva. Mãos que se dão em segundos que parecem duas ou três eternidades. Mesmo assim, há dias em que tudo parece perdido, em que as forças se esgotam, em que o destino parece tão determinado contra mim e juro a mim mesmo que não aguento mais. Às vezes parece mesmo que todas as portas se fecham, sabes? E tenho esse problema de não perceber logo que está apenas encostada.

Como nos filmes antigos, a noite cortada a meio por sonhos. Contigo. A mão que se quer esticar para agarrar a tua nos passeios pelo parque. Os abraços que ficam por dar, o olhar que acaba sempre por ir parar aos lábios, como que a imaginar o sabor do beijo. Eu espero, eu não desisto, porque também não consigo esquecer. Penso em ti em cada passo que dou, com o olhar pousado no chão, a ver tudo menos o caminho. Mesmo assim acabo sempre por tropeçar em ti. Uma vez mais como se nada mais houvesse. Como se fosses tudo e preenchesses todos os vazios. Como se apenas o pensamento de ti me acalmasse a ansiedade. Porque sou sorrisos. Porque sou saudade quando não estás.

A preto e branco. O arrastar lento da acção. O desejo adiado até à última cena. O beijo à chuva. A despedida que deixa de o ser. O abraço que finalmente se dá e que preenche tudo. E o sabor a todas as cores nos lábios. The End.

18.3.08

Sou alcoólico desde que me lembro. Por dia bebo uma garrafa de whisky, às vezes mais. Menos é que é muito raro. Fumo dois maços de cigarro por dia, os cinzeiros transbordam a decadência. A casa cheira a tabaco e álcool evaporado dos restos dos copos espalhados por onde calha. São as noites que não durmo e os dias passados numa espécie de coma induzido pelos comprimidos que tomo. Já não sei dizer se beber é causa ou consequência. Pelo sim, pelo não, finjo que tudo está bem. Já ninguém acredita, mas também só me quero enganar a mim mesmo, é mais fácil assim. Tornei-me paranóico, bebo às escondidas e estou sempre à espera de ser surpreendido por alguém numa casa onde não mora mais ninguém.

As garrafas continuam escondidas. Não vá a minha filha regressar de 1994, regressar do dia em que me tirou uma garrafa da mão e eu lhe dei uma estalada. Saiu de casa, não a voltei a ver. Se calhar sou avô e não sei. Antes assim, não quero mentir ao meu neto. A minha mulher morreu nova e não me lembro se nessa altura já bebia ou não. Os dias a que sobrevivi tornam-se extremamente enevoados. Tornei-me paranóico pela acumulação sucessiva de mentiras, e procuro constantemente gente nova que ainda acredite quando digo que sou apenas triste, e que do álcool não saibam nada. Sou alcoólico mas não quero deixar de o ser, não consigo. Nem quero.

Vou à casa de banho, encho o copo. Pelo sim, pelo não, lavo os dentes para disfarçar o hálito. Sento-me na sanita e acendo um cigarro. Quase que adormeço, resisto. Volto para a sala. Procuro um espaço livre nos cinzeiros a transbordar para apagar o cigarro. Mato-me aos poucos por não ter coragem de o fazer de uma vez só.