20.5.08

A Sofia tem um namorado novo. É fotógrafo. Quase nunca se vêem e não tem mal. Encontram-se ao domingo. É sagrado. Para ele. Ela gosta do silêncio na casa, de encontrar as coisas onde as deixou. Só sente falta de alguém quando está doente e tem que cuidar de si mesma. Mas não é isso que a afasta do seu silêncio. Tem dias em que gostava de o sentir por perto. Em especial às quartas, quando a semana vai a meio e o cansaço se sente mais. Mas resiste. Não lhe telefona, não diz nada. Ele que telefone, que ela passa bem sem pessoas e não gosta assim tanto de sexo.

Um destes domingos chegou a casa dele apressada. Ansiosa. Disse: é quase noite, temos que aproveitar enquanto há luz. À noite tudo morre, até nós. Pousou a carteira, ofereceu-lhe um beijo que ele recusou sem saber bem porquê. Talvez saiba. Sentou-se na cama coberta de branco imaculado. Começou a tirar a roupa. Estende a mão para uma das câmaras espalhadas pela casa e dá-lha. Diz-lhe que faça dela o que quiser e ele não sabe o que fazer. Dispara um rolo inteiro seguido. Sem olhar. Cada fotografia é uma bala a atravessar o coração. Sangra um sangue que não se vê.

A Sofia deita-se para trás na cama. Enrola-se em si mesma. O corpo esguio e a pele muito branca. Sente o diafragma da câmara a disparar uma vez mais. A alma a ser-lhe roubada. Quando já nada resta de si mesma, pega na roupa entretanto espalhada pelo quarto. Veste-se. Beija-lhe a face. Diz: até para a semana, talvez.

15.5.08

«O melhor do acto de escrever é possibilitar inúmeras interpretações e nenhuma delas se assemelhar à da pessoa cuja mão libertou aquelas palavras. a sua versão permanece absolutamente intacta, mesmo quando quem lê pensa ter atingido algum nervo mais sensível - pode ter atingido qualquer coisa mas nunca com a força desmedida de quem sabe onde dói e porquê.»

12.5.08

Ela sabia que se desaparecesse ninguém reparava.

E ninguém reparou.

11.5.08

Já não sabia que mais fazer para continuar a amá-lo. As recordações começavam a desaparecer, ainda que mantivesse intactas as fotografias dele na parede. Sentava-se regularmente no sofá onde se deitavam os dois. Abria um livro. Fechava o livro para se concentrar nas recordações que lhe fugiam, não queria correr o risco de se projectar nas personagens do livro e confundir tudo.

Recusava os comprimidos que um tio que era médico lhe tinha dado. Queria manter-se lúcida, real. Falava regularmente com as fotografias dele, com as fotografias dos dois em Copenhaga. Tinha a casa sempre cheia de sons e de pó. Ouvia as músicas que ambos ouviam no carro quando passeavam lentamente pela marginal e eram cobertos de buzinas pelos mais apressados. O tempo passava devagar, quase parado.

O seu olhar a absorver tudo, a sentir tudo, com a mão esquerda por cima da dele na alavanca das mudanças. Um dia começaram no mar e só pararam na nascente de um rio que desaguava nesse mesmo mar. Pediu-lhe que ficassem um pouco ali, e ele calou o motor. Não se ouvia nada. E ela deslizou no espaço exíguo do carro para o colo dele. Tirou-lhe a roupa sem nunca deixar de o olhar nos olhos. Tirou a sua própria roupa sem nunca deixar de o olhar nos olhos. Agarrou-o com força, com toda a força que tinha.

Fala regularmente com as fotografias dele, diz-lhes sempre boa noite quando se deita. Antes de adormecer jura ser capaz de sentir as mãos dele a percorrerem-lhe todo o corpo, sem se aperceber que são as suas próprias mãos que lhe percorrem o corpo.

6.5.08

espelho de ti

Gosto pouco de cortar o cabelo, as lâminas rentes à cabeça incomodam-me. Mas o pior não é isso. São os espelhos por todo o lado, a obrigação de me olhar nos olhos sem o alívio de poder passar água na cara. Obrigam-me a tirar os óculos. A visão deturpa-se, mas não esconde as olheiras. Não disfarça os olhos cansados, os lábios secos da espera. O corpo que amadurece e se prepara para envelhecer.


Quando dou por mim, e faço-o sempre tarde demais, estou demasiado mergulhado em quem sou. Como se entrasse pelos meus próprios olhos e pela minha própria boca a dentro e violasse todas as recordações. Mergulho demasiado em mim, e é como se mergulhasse também nos teus olhos e no teu corpo. É assustador ver de perto este amor que nos separa.


O barbeiro pousa as lâminas, pega no espelho pequeno que mostra a nuca e não mostra nada. Pergunta-me se está bem assim e nunca lhe diria que não. Ponho os óculos. Espero os segundos necessários para que a visão se reajuste. Respiro de alívio. Tenho menos cabelo, pareço mais velho. O que ainda não me desagrada, mas é sintoma de que me estou a enganar. Na idade, e contigo.

1.5.08

Consigo hoje descrever cada uma das razões porque te amo. Sei onde começou e porquê. Sei qual é a parte do teu corpo doce de que gosto mais, e já não te respondo com um simples "todo". Sei onde, como, porquê e quando. Consigo explicar cada detalhe, cada momento, cada estremecer do corpo quando estás por perto. É por isso que tem que acabar, o amor só pode existir quando não há razão para que exista.

26.4.08

No final não fica nada, esquecem-se as memórias e as promessas. Arrumam-se os corpos a um canto, cobertos de cicatrizes e cortes ainda sangrentos. Arrumam-se a um canto, amanhã podem já não ser precisos e a alma dura para sempre. Há que cuidá-la. O resto que se lixe. Cubra-se a cara de sorrisos artificiais e inventem-se forças para continuar, mesmo quando já se sabe à partida que o caminho não leva a lugar algum. Voltamos sempre ao mesmo. Não podemos continuar a esconder-nos por detrás dos corpos que já não aguentam ser fustigados.

Não compreendo este entrelaçar de dedos, o carinho lascivo com que nos tratamos. Não percebo se é causa ou consequência de tudo o resto: os corpos susceptíveis ao toque. A tua cabeça a adaptar-se tão perfeitamente ao meu ombro. É ridículo serem só os corpos, como queremos acreditar. São os silêncios em que embrulhamos os braços e os abraços, como se ficasse algo por dizer. Como se houvesse uma lacuna por preencher com um amo-te ou no mínimo um gosto de ti.

Depois recuperamos a compostura. Voltamos à frieza, e às feridas, e ao corpo ensanguentado. Há que cuidar a alma e não dá-la a ninguém. Somos ilhas por vezes unidas por pontes e nada mais que ilhas unidas por pontes. Devorem-se os corpos, consuma-se a pele. Mas a nós que ninguém nos roube de nós mesmos. Porque quando os corpos desaparecerem somos tudo o que resta.

14.4.08

Até já, numa rua de Tóquio ou qualquer outro sítio do mundo. Tenho que partir, nem sei bem porquê. Vens comigo? É que de todas as pessoas que já conheci, os teus defeitos são os mais encantadores. Qualidades todos temos, ou fazemos por ter. Toda a gente tem algo de que é possível gostar. Mas defeitos não. Mas nunca conheci ninguém com um alinhamento de defeitos tão perfeito como o teu. Podia viver com eles para sempre. A irritarem-me e a chatearem-me na mesma, mas tão encantadores.

Porque na realidade, é disso que somos feitos, das pequenas falhas, dos pequenos defeitos, dos pequenos erros que cometemos. E os nossos parecem encaixar tão bem. Vens comigo? Não há nada mais harmonioso que o silêncio de duas pessoas que deveriam ficar sozinhas e que se juntam. Aí nada pode falhar. Vens comigo?

7.4.08

Sossega-me. Diz que não voltas, que posso seguir o meu caminho. Diz-me aquilo que eu já sei. Diz na mesma. Diz-me que valeu a pena, que não te esqueces, mas só isso. Diz-me que é impossível, descabido, surreal. Que é só na minha cabeça que a esperança se acumula. Os dias estavam mais que contados, não estavam? Não havia qualquer salvação. Diz-me que não. Eu sei, mas diz.

Diz-me qualquer coisa. Sossega-me. Diz-me coisas boas. Diz-me aquilo que eu já sei. Diz. Diz na mesma. Diz que vale(u) a pena. Diz-me que não é em vão. Que já tenho um lugar só meu. Sossega-me. Diz-me só que é possível, que não é descabido, que não é só na minha cabeça que a esperança se acumula. Eu sei, mas diz na mesma. Diz que não me esqueces, que é desta que ficas para sempre.

Sossega-me. Diz-me qualquer coisa, e não me censures por me sentir assim. Gosto mais, demais, ainda. Eu sei. Não precisas de dizer. Tens que ir, não te impeço, mas diz qualquer coisa, diz que um dia vais dizer qualquer coisa. Mente. Sossega-me.