6.5.08

espelho de ti

Gosto pouco de cortar o cabelo, as lâminas rentes à cabeça incomodam-me. Mas o pior não é isso. São os espelhos por todo o lado, a obrigação de me olhar nos olhos sem o alívio de poder passar água na cara. Obrigam-me a tirar os óculos. A visão deturpa-se, mas não esconde as olheiras. Não disfarça os olhos cansados, os lábios secos da espera. O corpo que amadurece e se prepara para envelhecer.


Quando dou por mim, e faço-o sempre tarde demais, estou demasiado mergulhado em quem sou. Como se entrasse pelos meus próprios olhos e pela minha própria boca a dentro e violasse todas as recordações. Mergulho demasiado em mim, e é como se mergulhasse também nos teus olhos e no teu corpo. É assustador ver de perto este amor que nos separa.


O barbeiro pousa as lâminas, pega no espelho pequeno que mostra a nuca e não mostra nada. Pergunta-me se está bem assim e nunca lhe diria que não. Ponho os óculos. Espero os segundos necessários para que a visão se reajuste. Respiro de alívio. Tenho menos cabelo, pareço mais velho. O que ainda não me desagrada, mas é sintoma de que me estou a enganar. Na idade, e contigo.

1.5.08

Consigo hoje descrever cada uma das razões porque te amo. Sei onde começou e porquê. Sei qual é a parte do teu corpo doce de que gosto mais, e já não te respondo com um simples "todo". Sei onde, como, porquê e quando. Consigo explicar cada detalhe, cada momento, cada estremecer do corpo quando estás por perto. É por isso que tem que acabar, o amor só pode existir quando não há razão para que exista.

26.4.08

No final não fica nada, esquecem-se as memórias e as promessas. Arrumam-se os corpos a um canto, cobertos de cicatrizes e cortes ainda sangrentos. Arrumam-se a um canto, amanhã podem já não ser precisos e a alma dura para sempre. Há que cuidá-la. O resto que se lixe. Cubra-se a cara de sorrisos artificiais e inventem-se forças para continuar, mesmo quando já se sabe à partida que o caminho não leva a lugar algum. Voltamos sempre ao mesmo. Não podemos continuar a esconder-nos por detrás dos corpos que já não aguentam ser fustigados.

Não compreendo este entrelaçar de dedos, o carinho lascivo com que nos tratamos. Não percebo se é causa ou consequência de tudo o resto: os corpos susceptíveis ao toque. A tua cabeça a adaptar-se tão perfeitamente ao meu ombro. É ridículo serem só os corpos, como queremos acreditar. São os silêncios em que embrulhamos os braços e os abraços, como se ficasse algo por dizer. Como se houvesse uma lacuna por preencher com um amo-te ou no mínimo um gosto de ti.

Depois recuperamos a compostura. Voltamos à frieza, e às feridas, e ao corpo ensanguentado. Há que cuidar a alma e não dá-la a ninguém. Somos ilhas por vezes unidas por pontes e nada mais que ilhas unidas por pontes. Devorem-se os corpos, consuma-se a pele. Mas a nós que ninguém nos roube de nós mesmos. Porque quando os corpos desaparecerem somos tudo o que resta.

14.4.08

Até já, numa rua de Tóquio ou qualquer outro sítio do mundo. Tenho que partir, nem sei bem porquê. Vens comigo? É que de todas as pessoas que já conheci, os teus defeitos são os mais encantadores. Qualidades todos temos, ou fazemos por ter. Toda a gente tem algo de que é possível gostar. Mas defeitos não. Mas nunca conheci ninguém com um alinhamento de defeitos tão perfeito como o teu. Podia viver com eles para sempre. A irritarem-me e a chatearem-me na mesma, mas tão encantadores.

Porque na realidade, é disso que somos feitos, das pequenas falhas, dos pequenos defeitos, dos pequenos erros que cometemos. E os nossos parecem encaixar tão bem. Vens comigo? Não há nada mais harmonioso que o silêncio de duas pessoas que deveriam ficar sozinhas e que se juntam. Aí nada pode falhar. Vens comigo?

7.4.08

Sossega-me. Diz que não voltas, que posso seguir o meu caminho. Diz-me aquilo que eu já sei. Diz na mesma. Diz-me que valeu a pena, que não te esqueces, mas só isso. Diz-me que é impossível, descabido, surreal. Que é só na minha cabeça que a esperança se acumula. Os dias estavam mais que contados, não estavam? Não havia qualquer salvação. Diz-me que não. Eu sei, mas diz.

Diz-me qualquer coisa. Sossega-me. Diz-me coisas boas. Diz-me aquilo que eu já sei. Diz. Diz na mesma. Diz que vale(u) a pena. Diz-me que não é em vão. Que já tenho um lugar só meu. Sossega-me. Diz-me só que é possível, que não é descabido, que não é só na minha cabeça que a esperança se acumula. Eu sei, mas diz na mesma. Diz que não me esqueces, que é desta que ficas para sempre.

Sossega-me. Diz-me qualquer coisa, e não me censures por me sentir assim. Gosto mais, demais, ainda. Eu sei. Não precisas de dizer. Tens que ir, não te impeço, mas diz qualquer coisa, diz que um dia vais dizer qualquer coisa. Mente. Sossega-me.

3.4.08

– Dá-me um cigarro. Desculpa, esqueci-me de comprar. Obrigado.

Dou duas passas. Três. Quatro. Só mais uma, e apago o cigarro. Olho-te nos olhos e perco a coragem. Como se o teu sorriso fizesse desaparecer todo o mundo lá fora, comigo nele.

– Precisamos de falar, mas não sei bem como dizer isto.

O coração prestes a explodir, a querer explodir. E a cabeça calma. Peço desculpa, mas o Descartes que se foda, não é por pensar que existo mais ou menos. Pelo contrário, é isso que me aniquila em momentos como este. Sinto, logo existo. Quanto muito. E mesmo assim nem sempre.

– Desculpa, não sei por onde começar. Às vezes parece que as palavras se atropelam, sabes? Como se viessem todas à boca de uma vez só. E depois já não sei o que quero realmente dizer. Perco-me. E depois lembro-me de coisas estúpidas pelo meio, se desliguei ou não o fogão, a capa do jornal pendurado no quiosque no fundo da rua. Sim, aquela que tem o café daquele velhinho muito velhinho e muito lento a servir. O senhor Henrique. Por isso é que nunca lá vou de manhã. E depois é esta coisa. Nunca consigo dizer o que tenho para dizer sem me dispersar. Eu sei, estou só a ganhar tempo. Não sei por onde começar, e estou a sentir-me a desaparecer.

Quanto mais falo, pior parece. Cria expectativas, eu sei. Tudo o que possa dizer depois parece que não surte qualquer efeito. Parece desprovido de qualquer significado. Bem sei, depois de todas estas voltas. E depois lá vem o pensamento outra vez, que coisa. E dá-se-me a lucidez da situação. A inclinação do teu corpo na minha direcção, à espera. O cinzeiro a transbordar, o número de cigarros que já tirei do teu maço. E reparo que já não sorris, reparo que as cores ganham vida de novo. Como se tudo resumisse ao aqui e ao agora. Como se não houvesse mais tempo para ganhar, ou para perder. E tivesse mesmo que ir directo ao assunto. Não há nada pior.

– Mas o que eu te queria realmente dizer, ainda que soe a nada, e não sirva de nada. E juro-te que não era isso que queria, mas não soube evitar. E se calhar também não quis. Acho que só me apercebi tarde demais, a negação tem destas coisas. É que esse teu sorriso, esse teu olhar. Gosto de ti. Acho que é isso que queria dizer, só isso que queria dizer. Gosto de ti.

24.3.08

Podes ficar com o meu corpo, não me faz falta. Quero esquecer, e o corpo já nada me importa, podes ficar com ele. Sei que o queres, mas não te venhas dentro de mim. Vem-te na minha boca, na minha cara, onde quiseres. Dentro de mim não. Não quero em mim fluidos que não possa cuspir ou lavar, que não possa expulsar do corpo. De resto, faz o que te apetecer, não ofereço resistência. Quem me dera que toda a dor fosse corporal.

Não fico mais que uns dias, os suficientes para respirar um pouco. Mudar de ares e de ideias. Eu durmo no sofá, não tem mal. Durmo no chão até, se for preciso. Estou só cansada de ser eu. Cansada das minhas coisas sempre no mesmo sítio, por muito que as mude. Estou cansada da minha roupa, dos meus lençóis. Farta de comer as mesmas coisas uma e outra vez. Não fico mais que uns dias. Gosto da tua casa como se fosse minha. Sinto-me bem aqui, não tenho recordações.

Não te preocupes, não preciso de nada, trouxe o essencial. Podes sentar-te comigo se quiseres, eu ajudo-te a fazer o jantar, e arrumo tudo depois. Talvez me deixes deitar-me contigo, não precisamos de nos abraçar, nem sequer de nos tocarmos, só deitar-me ao teu lado a ouvir-te respirar fundo. Só para sentir alguém.

Podes ficar com o meu corpo. Espero que pague a estadia.

22.3.08

a preto e branco

Hoje acordei a preto e branco. Como nos filmes antigos. A sonhar com impossíveis, com a saudade adiantada do que está para vir. Com o desejo de dizer o indizível e ouvi-lo de volta. Longos beijos debaixo de chuva. Mãos que se dão em segundos que parecem duas ou três eternidades. Mesmo assim, há dias em que tudo parece perdido, em que as forças se esgotam, em que o destino parece tão determinado contra mim e juro a mim mesmo que não aguento mais. Às vezes parece mesmo que todas as portas se fecham, sabes? E tenho esse problema de não perceber logo que está apenas encostada.

Como nos filmes antigos, a noite cortada a meio por sonhos. Contigo. A mão que se quer esticar para agarrar a tua nos passeios pelo parque. Os abraços que ficam por dar, o olhar que acaba sempre por ir parar aos lábios, como que a imaginar o sabor do beijo. Eu espero, eu não desisto, porque também não consigo esquecer. Penso em ti em cada passo que dou, com o olhar pousado no chão, a ver tudo menos o caminho. Mesmo assim acabo sempre por tropeçar em ti. Uma vez mais como se nada mais houvesse. Como se fosses tudo e preenchesses todos os vazios. Como se apenas o pensamento de ti me acalmasse a ansiedade. Porque sou sorrisos. Porque sou saudade quando não estás.

A preto e branco. O arrastar lento da acção. O desejo adiado até à última cena. O beijo à chuva. A despedida que deixa de o ser. O abraço que finalmente se dá e que preenche tudo. E o sabor a todas as cores nos lábios. The End.

18.3.08

Sou alcoólico desde que me lembro. Por dia bebo uma garrafa de whisky, às vezes mais. Menos é que é muito raro. Fumo dois maços de cigarro por dia, os cinzeiros transbordam a decadência. A casa cheira a tabaco e álcool evaporado dos restos dos copos espalhados por onde calha. São as noites que não durmo e os dias passados numa espécie de coma induzido pelos comprimidos que tomo. Já não sei dizer se beber é causa ou consequência. Pelo sim, pelo não, finjo que tudo está bem. Já ninguém acredita, mas também só me quero enganar a mim mesmo, é mais fácil assim. Tornei-me paranóico, bebo às escondidas e estou sempre à espera de ser surpreendido por alguém numa casa onde não mora mais ninguém.

As garrafas continuam escondidas. Não vá a minha filha regressar de 1994, regressar do dia em que me tirou uma garrafa da mão e eu lhe dei uma estalada. Saiu de casa, não a voltei a ver. Se calhar sou avô e não sei. Antes assim, não quero mentir ao meu neto. A minha mulher morreu nova e não me lembro se nessa altura já bebia ou não. Os dias a que sobrevivi tornam-se extremamente enevoados. Tornei-me paranóico pela acumulação sucessiva de mentiras, e procuro constantemente gente nova que ainda acredite quando digo que sou apenas triste, e que do álcool não saibam nada. Sou alcoólico mas não quero deixar de o ser, não consigo. Nem quero.

Vou à casa de banho, encho o copo. Pelo sim, pelo não, lavo os dentes para disfarçar o hálito. Sento-me na sanita e acendo um cigarro. Quase que adormeço, resisto. Volto para a sala. Procuro um espaço livre nos cinzeiros a transbordar para apagar o cigarro. Mato-me aos poucos por não ter coragem de o fazer de uma vez só.