3.4.08

– Dá-me um cigarro. Desculpa, esqueci-me de comprar. Obrigado.

Dou duas passas. Três. Quatro. Só mais uma, e apago o cigarro. Olho-te nos olhos e perco a coragem. Como se o teu sorriso fizesse desaparecer todo o mundo lá fora, comigo nele.

– Precisamos de falar, mas não sei bem como dizer isto.

O coração prestes a explodir, a querer explodir. E a cabeça calma. Peço desculpa, mas o Descartes que se foda, não é por pensar que existo mais ou menos. Pelo contrário, é isso que me aniquila em momentos como este. Sinto, logo existo. Quanto muito. E mesmo assim nem sempre.

– Desculpa, não sei por onde começar. Às vezes parece que as palavras se atropelam, sabes? Como se viessem todas à boca de uma vez só. E depois já não sei o que quero realmente dizer. Perco-me. E depois lembro-me de coisas estúpidas pelo meio, se desliguei ou não o fogão, a capa do jornal pendurado no quiosque no fundo da rua. Sim, aquela que tem o café daquele velhinho muito velhinho e muito lento a servir. O senhor Henrique. Por isso é que nunca lá vou de manhã. E depois é esta coisa. Nunca consigo dizer o que tenho para dizer sem me dispersar. Eu sei, estou só a ganhar tempo. Não sei por onde começar, e estou a sentir-me a desaparecer.

Quanto mais falo, pior parece. Cria expectativas, eu sei. Tudo o que possa dizer depois parece que não surte qualquer efeito. Parece desprovido de qualquer significado. Bem sei, depois de todas estas voltas. E depois lá vem o pensamento outra vez, que coisa. E dá-se-me a lucidez da situação. A inclinação do teu corpo na minha direcção, à espera. O cinzeiro a transbordar, o número de cigarros que já tirei do teu maço. E reparo que já não sorris, reparo que as cores ganham vida de novo. Como se tudo resumisse ao aqui e ao agora. Como se não houvesse mais tempo para ganhar, ou para perder. E tivesse mesmo que ir directo ao assunto. Não há nada pior.

– Mas o que eu te queria realmente dizer, ainda que soe a nada, e não sirva de nada. E juro-te que não era isso que queria, mas não soube evitar. E se calhar também não quis. Acho que só me apercebi tarde demais, a negação tem destas coisas. É que esse teu sorriso, esse teu olhar. Gosto de ti. Acho que é isso que queria dizer, só isso que queria dizer. Gosto de ti.

24.3.08

Podes ficar com o meu corpo, não me faz falta. Quero esquecer, e o corpo já nada me importa, podes ficar com ele. Sei que o queres, mas não te venhas dentro de mim. Vem-te na minha boca, na minha cara, onde quiseres. Dentro de mim não. Não quero em mim fluidos que não possa cuspir ou lavar, que não possa expulsar do corpo. De resto, faz o que te apetecer, não ofereço resistência. Quem me dera que toda a dor fosse corporal.

Não fico mais que uns dias, os suficientes para respirar um pouco. Mudar de ares e de ideias. Eu durmo no sofá, não tem mal. Durmo no chão até, se for preciso. Estou só cansada de ser eu. Cansada das minhas coisas sempre no mesmo sítio, por muito que as mude. Estou cansada da minha roupa, dos meus lençóis. Farta de comer as mesmas coisas uma e outra vez. Não fico mais que uns dias. Gosto da tua casa como se fosse minha. Sinto-me bem aqui, não tenho recordações.

Não te preocupes, não preciso de nada, trouxe o essencial. Podes sentar-te comigo se quiseres, eu ajudo-te a fazer o jantar, e arrumo tudo depois. Talvez me deixes deitar-me contigo, não precisamos de nos abraçar, nem sequer de nos tocarmos, só deitar-me ao teu lado a ouvir-te respirar fundo. Só para sentir alguém.

Podes ficar com o meu corpo. Espero que pague a estadia.

22.3.08

a preto e branco

Hoje acordei a preto e branco. Como nos filmes antigos. A sonhar com impossíveis, com a saudade adiantada do que está para vir. Com o desejo de dizer o indizível e ouvi-lo de volta. Longos beijos debaixo de chuva. Mãos que se dão em segundos que parecem duas ou três eternidades. Mesmo assim, há dias em que tudo parece perdido, em que as forças se esgotam, em que o destino parece tão determinado contra mim e juro a mim mesmo que não aguento mais. Às vezes parece mesmo que todas as portas se fecham, sabes? E tenho esse problema de não perceber logo que está apenas encostada.

Como nos filmes antigos, a noite cortada a meio por sonhos. Contigo. A mão que se quer esticar para agarrar a tua nos passeios pelo parque. Os abraços que ficam por dar, o olhar que acaba sempre por ir parar aos lábios, como que a imaginar o sabor do beijo. Eu espero, eu não desisto, porque também não consigo esquecer. Penso em ti em cada passo que dou, com o olhar pousado no chão, a ver tudo menos o caminho. Mesmo assim acabo sempre por tropeçar em ti. Uma vez mais como se nada mais houvesse. Como se fosses tudo e preenchesses todos os vazios. Como se apenas o pensamento de ti me acalmasse a ansiedade. Porque sou sorrisos. Porque sou saudade quando não estás.

A preto e branco. O arrastar lento da acção. O desejo adiado até à última cena. O beijo à chuva. A despedida que deixa de o ser. O abraço que finalmente se dá e que preenche tudo. E o sabor a todas as cores nos lábios. The End.

18.3.08

Sou alcoólico desde que me lembro. Por dia bebo uma garrafa de whisky, às vezes mais. Menos é que é muito raro. Fumo dois maços de cigarro por dia, os cinzeiros transbordam a decadência. A casa cheira a tabaco e álcool evaporado dos restos dos copos espalhados por onde calha. São as noites que não durmo e os dias passados numa espécie de coma induzido pelos comprimidos que tomo. Já não sei dizer se beber é causa ou consequência. Pelo sim, pelo não, finjo que tudo está bem. Já ninguém acredita, mas também só me quero enganar a mim mesmo, é mais fácil assim. Tornei-me paranóico, bebo às escondidas e estou sempre à espera de ser surpreendido por alguém numa casa onde não mora mais ninguém.

As garrafas continuam escondidas. Não vá a minha filha regressar de 1994, regressar do dia em que me tirou uma garrafa da mão e eu lhe dei uma estalada. Saiu de casa, não a voltei a ver. Se calhar sou avô e não sei. Antes assim, não quero mentir ao meu neto. A minha mulher morreu nova e não me lembro se nessa altura já bebia ou não. Os dias a que sobrevivi tornam-se extremamente enevoados. Tornei-me paranóico pela acumulação sucessiva de mentiras, e procuro constantemente gente nova que ainda acredite quando digo que sou apenas triste, e que do álcool não saibam nada. Sou alcoólico mas não quero deixar de o ser, não consigo. Nem quero.

Vou à casa de banho, encho o copo. Pelo sim, pelo não, lavo os dentes para disfarçar o hálito. Sento-me na sanita e acendo um cigarro. Quase que adormeço, resisto. Volto para a sala. Procuro um espaço livre nos cinzeiros a transbordar para apagar o cigarro. Mato-me aos poucos por não ter coragem de o fazer de uma vez só.

14.3.08

Deixamo-nos ficar, noite após noite. Tu a ler, eu a fazer outra coisa qualquer. O jantar esquecido noite dentro. Não apetece comer. Há coisas mais importantes para fazer, ou há a moleza que deve ser respeitada. Há dias em que comer parece acessório. A música continua e há-de continuar pelo simples facto de não poder faltar. Isso e o aroma a café bem espalhado pela casa. Será que o café já subiu? Deixa-o ficar mais um pouco, não me apetece levantar. Acendo um cigarro e digo a mim mesmo que quando acabar de o fumar vou buscar café.

Pouso as canecas na mesa. Prometo a mim mesmo que é hoje que acabo o livro e acabo por escrever apenas três ou quatro linhas. O resto do tempo olho para as palavras e penso como seria bom acabá-lo. Já começa a ser um peso. Dou-te a mão. Ainda bem que comprámos um sofá de dois lugares em vez de três. Senão, o meu braço não te alcançava. Depressa afastas a mão. E não tem mal. Tens que virar a página. Pouso a mão no teu pé e continuo a olhar para as palavras. E só quando é tarde, muito tarde: vamos dormir? Vamos.

No final, tudo se resume a este momento. Dorme bem, amor. Tu também. Beijas-me na boca. Os meus braços a segurar o teu corpo e o sono que há-de chegar. Porque é assim todas as noites. O deitar é só uma formalidade, um pretexto para estarmos fisicamente perto um do outro sem nada fazer. Culpar o café seria fácil. É um pretexto, é porque tem que ser. Acabamos sempre por ficar só ali deitados. Já é dia. Tem dias que fazemos amor, na maior parte deles ficamos a olhar-nos nos olhos. À espera que o outro sorria para nos abraçarmos com força mais uma vez e dizer vamos dormir! agora é que é! Tem dias que é, tem outros que não. Se por acaso adormeces primeiro, sussurro-te ao ouvido confissões de amor que de outra forma não poderia dizer e lá acabo por adormecer também.

4.3.08

Ainda assim, prefiro-te a ti. Do mal o menos. Estou farta de procurar, e não sei se tenho forças para continuar a fazê-lo. Prefiro-te a ti com as camisas sempre perfeitamente gomadas e os fatos escuros. Gosto quando me deixas escolher a gravata, nunca to disse, pois não? Ainda que me irrite essa tua pose sempre demasiado formal e lógica. Acho que não se pode ter tudo e um dia terá que acabar. Por agora ficamos assim, pode ser? Não precisamos de discutir. Eu sei que a culpa é minha.

Repudia-me o sexo mecânico só porque queres um filho para levar ao futebol. Mas o meu corpo é teu quando o queres, só para que não me deixes. Só para te obrigar a ficar por perto. Os processos e as pastas, e os relatórios, eu sei, sempre mais importante que tudo, não é? Não faz mal. Desde que te saiba em casa. A tua secretária tem vinte e quatro anos e é um perigo. E como só pensas no trabalho e ela está no trabalho. É fácil, não é? Podias dizer-me que não, só para ficar mais descansada. Os processos, eu sei. E as viagens de trabalho, prefiro não saber. Vais e voltas na data marcada. Espero.

Ainda assim, prefiro-te a ti. As tuas mentiras soam menos falsas, e eu também não tenho mais ninguém. Às vezes gostava de ser como tu, um fato escuro, uma camisa perfeitamente engomada, uma gravata à tua escolha e um after-shave caro. Sem precisar de cremes, nem rímel ou batom, sombra ou eyeliner. Já não sei chamar-te a atenção. Cabra da secretária, aposto que usa decotes só para ti. Também nunca te disse que a melhor parte do dia é quando chegas a casa, pois não? Pois não. Tu não deixas.

Eu sei que tens que trabalhar, que é isso que nos sustenta, eu sei que é isso que nos permite ter tudo o que temos. E também deve ser por isso que nunca me levaste aos Fiordes como prometeste quando casámos. Os brincos e os colares que me trazes das tuas viagens não compram amor, mas dão esperança. E às vezes isso chega. A doce ilusão que esse silêncio assustador com que me moldas, e me sugas todas as energias, seja a tua forma de dizer amo-te.

Eu fico, se tu ficares. Por favor, não vás. Já não sei viver sem este sofrimento entranhado nas cortinas. Já não consigo sequer imaginar comer uma refeição que não tenha arrefecido à tua espera. Vale-me a satisfação de escolher sempre a gravata mais feia, só para a cabra não reparar em ti.

29.2.08

Os sentimentos não se podem quantificar. É simples. Pelo menos, parece. Seja como for não poderemos nunca saber que quantidade de cada sentimentos trazemos dentro de nós, o coração não é uma receita. Não se quantifica em gramas, metros, ou qualquer outra unidade. Eventualmente contabilizam-se as cicatrizes prostradas no músculo, é isso que conta, as feridas ainda abertas e o coração sem parar de bater. Porque se o coração se pode quantificar então também é apenas músculo.

Curioso é que é sempre de mais ou de menos. É amor de mais ou amor de menos. Nunca chega. Sufoca. Foi assim com a Joana, com a Alexandra. Foi assim com a Maria e com a Isabel. Com a Joana foi amor de menos, tudo encaixava, mas o sentimento foi curto, deixava os pés de fora. Não sobreviveu ao Inverno. Com a Alexandra foi o oposto. Amor de mais, amor que sufoca e que se consome e destrói o resto. Que nem era assim tanto. E não sobreviveu ao Verão. Demasiado calor, tive saudades dos pés gelados.

Com a Maria não, ela tinha sempre razão. E se era muito ou pouco, ela é que sabia, embora nunca o dissesse, portanto também nunca soube. Não precisava sequer de responder. O que até poupava trabalho. Acabou e não sei porquê. Com a Isabel sei exactamente o porquê, de ter acabado e de tudo. Falava demasiado, explicava tudo em demasia, exigia explicações em demasia. E acabou de forma quase contratualizada, o que aniquila desde logo toda a beleza ao sofrimento. Conseguia identificar todas as razões e foi tudo tão lógico que só me restou aceitar. Sem sofrimento.

Ainda assim, a melhor parte do amor é que pode ser fingido ou imaginado como qualquer outro sentimento. Porque se escreve amor, não tem que ser amor. A razão tem destas coisas, é uma cínica que finge o que quer e bem lhe apetece. Nunca houve Joana, nem Alexandra. Nunca houve Maria ou sequer uma Isabel. Ainda que possa parecer que sim.

24.2.08

Sou um sem-abrigo. Não tenho um sítio a que chame casa, ainda que tenha tecto e paredes e móveis e coisas. Não pertenço aqui nem ali. Sou de todo o lado. Porque em todo o lado tenho algo que me prende. Pudesse eu pegar em casas e ruas inteiras e trocá-las de cidade. Pudesse eu trazer-te para aqui.

Não consigo parar. Sufoco facilmente em qualquer lado, não estou completo em lado algum, e viajo de um lado para o outro sempre à espera de me encontrar. Triste por ter que ir, feliz por voltar e por chegar, ansioso por partir e ficar. Sempre a ter que escolher entre isto e aquilo. Abdicar de uma coisa em prol de outra. Tudo é que não. Era o que faltava.

Não tenho casa, nem família. Tenho amigos que são quase irmãos e pouco mais. Tenho amor e paixões que nunca o chegam a ser, e quando são há sempre quilómetros pelo meio. Pudesse eu pegar em ruas e cidades inteiras. Pudesse eu trazer-te para aqui, para este estranho mundo e chamar-te um daqueles nomes carinhosos parvos. Pudesse eu encher as paredes de fotos nossas a preto e branco.

Pudéssemos forrar as paredes de livros e discos e filmes antigos. E ficar por lá. Sem mundo lá fora, excepto aos fins de semana que são para passear. Ou conduzir sem destino. Ou ficar a olhar pela janela sem mais nada. Durante a semana não. Ficamos em pijama no espaço a que chamarei casa e não importa onde. Eu a sonhar com outros lugares e tu com o que quiseres. A intersecção de mundos e não a sua soma que acaba sempre em subtracção de nós mesmos.

Sou um sem-abrigo. A minha casa é em viagem, ou ao teu lado.

19.2.08

Havia a estrada e uma música aleatória a tocar. O resto era o silêncio das coisas não ditas, dos segredos guardados até não ser possível continuar a escondê-los. Desculpa mentir. Desculpa ainda não ter explicado. Só nós é que continuamos a insistir em não ver. Pelo menos tu. O segredo é meu e talvez assim deva continuar.

Olhos na estrada, mãos no volante, e tu a passeares o olhar por tudo o que passa. Noventa e sete quilómetros. E não te posso dizer também que depois de todo o silêncio – que, de tão confortável, se fez inexistente – aquele meio-abraço dado a medo soube a tudo. O teu corpo, ainda que ao de leve, contra o meu. Não te vou dizer que cada centímetro de viagem valeu aqueles dois segundos. Não te vou dizer que devia ter regressado há muito e que, se fico, é por ti. Que faz demasiado sentido estar contigo. Que todos os elos de lógica se quebraram na falta de argumentos. Já não sei resistir.

Porque é a ti que lembro, em ti que penso. Estrada fora em silêncio, ou pela noite dentro quando o sono não chega.