4.3.08

Ainda assim, prefiro-te a ti. Do mal o menos. Estou farta de procurar, e não sei se tenho forças para continuar a fazê-lo. Prefiro-te a ti com as camisas sempre perfeitamente gomadas e os fatos escuros. Gosto quando me deixas escolher a gravata, nunca to disse, pois não? Ainda que me irrite essa tua pose sempre demasiado formal e lógica. Acho que não se pode ter tudo e um dia terá que acabar. Por agora ficamos assim, pode ser? Não precisamos de discutir. Eu sei que a culpa é minha.

Repudia-me o sexo mecânico só porque queres um filho para levar ao futebol. Mas o meu corpo é teu quando o queres, só para que não me deixes. Só para te obrigar a ficar por perto. Os processos e as pastas, e os relatórios, eu sei, sempre mais importante que tudo, não é? Não faz mal. Desde que te saiba em casa. A tua secretária tem vinte e quatro anos e é um perigo. E como só pensas no trabalho e ela está no trabalho. É fácil, não é? Podias dizer-me que não, só para ficar mais descansada. Os processos, eu sei. E as viagens de trabalho, prefiro não saber. Vais e voltas na data marcada. Espero.

Ainda assim, prefiro-te a ti. As tuas mentiras soam menos falsas, e eu também não tenho mais ninguém. Às vezes gostava de ser como tu, um fato escuro, uma camisa perfeitamente engomada, uma gravata à tua escolha e um after-shave caro. Sem precisar de cremes, nem rímel ou batom, sombra ou eyeliner. Já não sei chamar-te a atenção. Cabra da secretária, aposto que usa decotes só para ti. Também nunca te disse que a melhor parte do dia é quando chegas a casa, pois não? Pois não. Tu não deixas.

Eu sei que tens que trabalhar, que é isso que nos sustenta, eu sei que é isso que nos permite ter tudo o que temos. E também deve ser por isso que nunca me levaste aos Fiordes como prometeste quando casámos. Os brincos e os colares que me trazes das tuas viagens não compram amor, mas dão esperança. E às vezes isso chega. A doce ilusão que esse silêncio assustador com que me moldas, e me sugas todas as energias, seja a tua forma de dizer amo-te.

Eu fico, se tu ficares. Por favor, não vás. Já não sei viver sem este sofrimento entranhado nas cortinas. Já não consigo sequer imaginar comer uma refeição que não tenha arrefecido à tua espera. Vale-me a satisfação de escolher sempre a gravata mais feia, só para a cabra não reparar em ti.

29.2.08

Os sentimentos não se podem quantificar. É simples. Pelo menos, parece. Seja como for não poderemos nunca saber que quantidade de cada sentimentos trazemos dentro de nós, o coração não é uma receita. Não se quantifica em gramas, metros, ou qualquer outra unidade. Eventualmente contabilizam-se as cicatrizes prostradas no músculo, é isso que conta, as feridas ainda abertas e o coração sem parar de bater. Porque se o coração se pode quantificar então também é apenas músculo.

Curioso é que é sempre de mais ou de menos. É amor de mais ou amor de menos. Nunca chega. Sufoca. Foi assim com a Joana, com a Alexandra. Foi assim com a Maria e com a Isabel. Com a Joana foi amor de menos, tudo encaixava, mas o sentimento foi curto, deixava os pés de fora. Não sobreviveu ao Inverno. Com a Alexandra foi o oposto. Amor de mais, amor que sufoca e que se consome e destrói o resto. Que nem era assim tanto. E não sobreviveu ao Verão. Demasiado calor, tive saudades dos pés gelados.

Com a Maria não, ela tinha sempre razão. E se era muito ou pouco, ela é que sabia, embora nunca o dissesse, portanto também nunca soube. Não precisava sequer de responder. O que até poupava trabalho. Acabou e não sei porquê. Com a Isabel sei exactamente o porquê, de ter acabado e de tudo. Falava demasiado, explicava tudo em demasia, exigia explicações em demasia. E acabou de forma quase contratualizada, o que aniquila desde logo toda a beleza ao sofrimento. Conseguia identificar todas as razões e foi tudo tão lógico que só me restou aceitar. Sem sofrimento.

Ainda assim, a melhor parte do amor é que pode ser fingido ou imaginado como qualquer outro sentimento. Porque se escreve amor, não tem que ser amor. A razão tem destas coisas, é uma cínica que finge o que quer e bem lhe apetece. Nunca houve Joana, nem Alexandra. Nunca houve Maria ou sequer uma Isabel. Ainda que possa parecer que sim.

24.2.08

Sou um sem-abrigo. Não tenho um sítio a que chame casa, ainda que tenha tecto e paredes e móveis e coisas. Não pertenço aqui nem ali. Sou de todo o lado. Porque em todo o lado tenho algo que me prende. Pudesse eu pegar em casas e ruas inteiras e trocá-las de cidade. Pudesse eu trazer-te para aqui.

Não consigo parar. Sufoco facilmente em qualquer lado, não estou completo em lado algum, e viajo de um lado para o outro sempre à espera de me encontrar. Triste por ter que ir, feliz por voltar e por chegar, ansioso por partir e ficar. Sempre a ter que escolher entre isto e aquilo. Abdicar de uma coisa em prol de outra. Tudo é que não. Era o que faltava.

Não tenho casa, nem família. Tenho amigos que são quase irmãos e pouco mais. Tenho amor e paixões que nunca o chegam a ser, e quando são há sempre quilómetros pelo meio. Pudesse eu pegar em ruas e cidades inteiras. Pudesse eu trazer-te para aqui, para este estranho mundo e chamar-te um daqueles nomes carinhosos parvos. Pudesse eu encher as paredes de fotos nossas a preto e branco.

Pudéssemos forrar as paredes de livros e discos e filmes antigos. E ficar por lá. Sem mundo lá fora, excepto aos fins de semana que são para passear. Ou conduzir sem destino. Ou ficar a olhar pela janela sem mais nada. Durante a semana não. Ficamos em pijama no espaço a que chamarei casa e não importa onde. Eu a sonhar com outros lugares e tu com o que quiseres. A intersecção de mundos e não a sua soma que acaba sempre em subtracção de nós mesmos.

Sou um sem-abrigo. A minha casa é em viagem, ou ao teu lado.

19.2.08

Havia a estrada e uma música aleatória a tocar. O resto era o silêncio das coisas não ditas, dos segredos guardados até não ser possível continuar a escondê-los. Desculpa mentir. Desculpa ainda não ter explicado. Só nós é que continuamos a insistir em não ver. Pelo menos tu. O segredo é meu e talvez assim deva continuar.

Olhos na estrada, mãos no volante, e tu a passeares o olhar por tudo o que passa. Noventa e sete quilómetros. E não te posso dizer também que depois de todo o silêncio – que, de tão confortável, se fez inexistente – aquele meio-abraço dado a medo soube a tudo. O teu corpo, ainda que ao de leve, contra o meu. Não te vou dizer que cada centímetro de viagem valeu aqueles dois segundos. Não te vou dizer que devia ter regressado há muito e que, se fico, é por ti. Que faz demasiado sentido estar contigo. Que todos os elos de lógica se quebraram na falta de argumentos. Já não sei resistir.

Porque é a ti que lembro, em ti que penso. Estrada fora em silêncio, ou pela noite dentro quando o sono não chega.

17.2.08

A8


fotografia de xary

14.2.08

A certa altura, a Susana encontrou o amor da vida dela. Foi a maior libertação que poderia alguma vez sentir. Agora, podia concentrar-se em encontrar a pessoa com quem passar o resto da vida. Porque são sempre pessoas diferentes. E nunca resulta pelas razões mais estúpidas. Porque é a velha história dos opostos. E o amor da vida é sempre demasiado oposto. Demasiado arrancado do coração.

A Susana, como todos nós, amou demasiado o amor da vida dela. Perdeu demasiado tempo a sonhar, a achar que ia durar para sempre. Perdeu demasiado tempo a dar demasiado de si. O amor da vida tem esta coisa dos demasiados que na altura parece sempre tão perfeito, mas apenas porque não vemos a condenação no fim da estrada. Parecendo que não, o simples facto de se achar que é para sempre estraga tudo, sempre. Porque o amor da vida surge sempre na altura que achamos que mais estávamos a precisar, quando ainda acreditamos incondicionalmente no amor e na paixão e nos sonhos a dois. O amor da vida ainda não tem a maturidade de nos deixar abandonados. O amor da vida é um embate a cem quilómetros por hora contra uma parede, com tudo de espectacular e doloroso que há nisso.

O amor da vida é explosões, prédios a cair, gritos, lágrimas, é música tresloucada em volumes impróprios. São corações a bater demasiado depressa, são demasiadas coisas, demasiado ao mesmo tempo. Tudo muito, em muito. E de repente, acaba. O amor da vida é sempre uma história mal acabada que nunca chega a acabar-se, apenas se esquece. E faz tremer se por acaso se reencontra.

O amor da vida é o das coisas grandes, das coisas pequenas que parecem grandes.

O amor de uma vida não. É tudo aos poucos, não fosse o medo de sermos abandonados de novo. O amor de uma vida não o procuramos, aparece quando não esperamos. É maduro e feito de silêncios sorridentes. É um dia de cada vez. O amor de uma vida surpreende-nos a meio da noite. O amor de uma vida sabe o que dizer, até porque quase sempre compreende realmente o que pensamos e dizemos e vivemos. O amor de uma vida completa-nos, conhece-nos, gosta dos nossos defeitos. Faz por nós aquilo que mais ninguém faria.

A Susana tem oitenta e três anos, ainda está à espera.

29.1.08

A Luísa gosta de ir a festas. Não pelo aspecto social da coisa, porque para isso claramente não tinha jeito. Mas porque é das poucas oportunidades que tem para se sentar num canto a observar as pessoas. Para as invejar. Não gosta quando reparam nela, e pior ainda, quando metem conversa. Olá, sou o Paulo. Olá, sou o André, tu deves ser a Luísa de que tanto se fala. Isola-se de preferência num dos cantos, para poder ter um ângulo maior. E de todas as pessoas da sala talvez seja a única que realmente conhece todas as demais presentes. Cansa-se depressa de conversas de circunstância. O que fazes? Onde moras? A sério? Imaginava-te a morar noutro sítio.

Até que numa das festas, num qualquer apartamento em Alvalade, teve um rival. Alguém que, tal como ela, ficava num dos cantos e se recusava a interagir. E claro, alguém que reparou nela, alguém que a poderia estar a conhecer como ela conhecia todas as outras pessoas presentes. E ele, como ela, saberia os truques, saberia interpretar o posicionamento, os olhares sobre as pessoas. A Luísa sentiu-se observada sem licença, o que era ainda pior do que a sensação de tentarem falar com ela só porque sim. Porque fazia parte dos pressupostos de estar numa festa.

A Luísa tem lábios que apetecem beijar, um olhar doce. Tem o mistério de que os homens tanto gostam. Usa óculos, e tem alturas em que se esquece que os óculos não tapam o olhar, como os de sol. Às vezes é como nos filmes, com um qualquer truque de câmara todos os presentes na sala desaparecem, ficam só os dois. Observam-se. Lutam em silencio across the room.

A Luísa nervosa, exposta. Como se lhe estivessem a observar as mais profundas entranhas da personalidade. Tinha que agir, tinha que aniquilar a concorrência. Encheu-se de coragem. Pôs o seu andar mais confiante. Atravessou a sala.

– Olá, eu sou a Luísa. Sou jornalista e moro na Avenida de Roma. Vamos sair daqui?

E ele seguiu-a até ao carro. Sem dizer nada, sempre a observar, sempre a conhecer. A Luísa ligou o carro, arrancou. Ele finalmente falou.

– Já agora, chamo-me...

– Não quero saber, não preciso de saber.

Voltaram ao silêncio, só quebrado por ele para perguntar se podia acender um cigarro. Ao que ela respondeu apenas com um aceno de cabeça. Foram duas horas e meia de silêncio. Passaram a ponte, estavam já longe de Lisboa. A Luísa saiu da estrada. Parou o carro no meio de um descampado. Quando ele se preparava para falar, beijou-o. Desarmou-o. Beijaram-se. Caçaram-se como predadores são.

Quando se cansaram, pararam. Olharam-se e pela primeira vez sorriram um pouco. Derrotados pela exaustão. A Luísa ganhou, sabia que tinha ganho. Quanto mais não fosse porque ele julgava ter ganho. A Luísa pôs o olhar mais apaixonado, o sorriso mais terno. Estendeu-se para chegar à mala que estava no banco de trás. Ele sorria, sorria muito. Já não era a primeira festa em que tinha visto a Luísa e nunca pensou que pudesse acabar assim. No meio do nada, sem dizer nada. Ela esgravatava na mala, sem encontrar o que procurava.

Ele não conteve um esboço de riso, porque delicia-se com o facto de as mulheres nunca encontrarem nada na carteira. A Luísa, irritada, porque pela primeira vez alguém a tinha conquistado, em vez de um cigarro, tirou da mala a arma com que tinha planeado matar-se. Disparou três vezes contra o peito dele. Acendeu um cigarro, pôs a nona de Beethoven, e sentiu a sua própria vida a borbulhar de novo.


obrigado
*

21.1.08

o amor também se gasta

Suponho que seja o único caminho a seguir, voltar atrás e destruir o que ainda resta de nós. Porque só assim podemos esquecer, só assim podemos largar. Só assim poderemos alguma vez parar de nos procurar numa ausência preenchida de sentimentos ainda por esgotar – o amor também se gasta. Suponho que o único caminho seja gastarmos o que resta desse amor que tem que acabar. Sempre com a certeza que será a última vez, que tem os dias contados. Com a capacidade de entender que durará apenas até o amor se gastar de vez. Que ainda que possa parecer que tudo está bem outra vez, tudo voltará ao mesmo mais dia, menos dia.

O fim tem sabor de sequela. A dor ainda é demasiada para a vivermos separados, pareceu tudo de repente, não pareceu? O coração não aguenta, as mãos insistem em estender-se sobre a mesa procurando-se. Há toda uma necessidade de resistir a mais impulsos que aqueles a que é possível resistir. E nas palavras (poucas) que trocamos descaímo-nos sempre para aqueles nomes carinhosos e parvos porque nos tratámos. Tínhamos tantos planos, tantas coisas para viver, que ainda não é possível fugirmos disso. Ainda não é possível fazermos outros planos. Considerar outras pessoas que não a nós. Nem que seja por vingança, de nunca vires a ter ninguém como eu. Suponho que o único caminho seja esse. Destruir tudo o que (ainda) temos, para nunca mais voltarmos sequer a olhar-nos, para podermos seguir em paz.

8.1.08

A primeira coisa que a Rita faz quando chega a casa é tirar os sapatos. Tem que usar saltos altos o dia todo, moem-lhe os pés. E para além do alívio, adora a sensação de tirar os pés dos sapatos e sentir a diferença de altura para o chão, sentir-se de novo mais baixa. Dá alguns passos, curtos, saboreia os pés a pisar o chão frio, e só depois calça os chinelos para os voltar a sentir quentes.

Como qualquer coisa, bebe (mais) um café, deita-se no sofá e só quando está com frio se cobre. Adormece por dez minutos e acorda sem vontade de ir para a cama. Desliga a televisão, lê algumas páginas do livro que está a ler. É no fim da terceira frase – que não tinha absolutamente nada a ver com isso – que se apercebe que agora que tinha sucesso se sentia ainda mais entediada que quando o não tinha. Pelo menos antes sonhava. Nada lhe resta para desejar.

Enche um copo com whisky. Uma garrafa que tinha para oferecer aos amigos e que nunca tinha sido aberta. Encostou-se à janela, acendeu um cigarro, deu vários goles do copo. Apercebeu-se que alguém no prédio em frente a olhava, e olhou de volta. Permitiu-se sentir algo que pensava já não poder sentir. A sedução de um corpo frágil, a atracção do desespero. Olhavam-se nos olhos como se tentassem caçar. Esvaziou o copo e encheu-o de novo, aquecia-lhe o sangue e adormecia-lhe a alma. Quando se sentiu a apaixonar por aquela estranha, posou o copo, apagou o cigarro (o terceiro), e afastou-se do seu próprio reflexo.