23.11.07

and every word is nonsense but I understand it *

Quase nada resta agora que o tempo trouxe a distância necessária à compreensão. Porque o tempo tem esta particularidade irritante de realmente tudo curar. Porque o vazio que fica acaba por ser substituído por outro qualquer vazio mais abstracto. Deixa de ser aquele alguém e passa a ser apenas alguém.

Há também o masoquismo inerente à coisa, e o luto necessário. Há o cultivar do vazio que fica, o irresistível cravar da unha na ferida. É o coração que dói, mas é a cabeça que bate contra a parede. É o coração que morre e a cabeça que continua. E só aí, só quando nada resta ao coração para continuar a bater, é que o vazio se preenche. Por mera questão de sobrevivência.

A cabeça continua, continuou. Sobreviveu, à espera de algo que pudesse reactivar a circulação: o teu sorriso que sempre sorri, os pequenos detalhes, as pequenas ironias. São as músicas, as fotografias, os livros, as palavras, a linguagem só nossa que partilhamos. É tudo aquilo que sou reflectido de uma forma que conforta e não assusta. É o coração que aos poucos ressuscita.


* counting crows - anna begins

22.11.07

Cruzaste-te comigo em pensamento...

...e fingiste que não me viste.

20.11.07

Não espero que compreendas. Talvez a única maneira possível de estar no mundo seja sozinho. Para todos os efeitos a culpa é minha. Porque te disse que podíamos ficar amigos quando o amor se esgotasse a si mesmo, sem te dizer que pouco me preocupo com os meus amigos, que não tenho tempo para eles.

Eventualmente acabarás por aceitar as saudades como parte integrante de um outro qualquer sentimento, que então não saberás muito bem definir. Ou uma mera existência sem nada que se lhe possa associar. Alguém que passou, apenas. Por mim, tudo bem. Delicio-me demasiado com os caminhos do meu próprio pensamento, da minha própria imaginação. Encontro muito mais felicidade nas coisas como elas poderiam ser, do que nas coisas como são.

Não espero que compreendas que, na minha estranha curiosidade por tudo, eu não queira sequer saber. Que possas adoecer, até morrer. Que possas encontrar beijos mais doces, braços mais ternos. Que possas até convencer-te que afinal não valho o tempo gasto comigo. Não quero saber. Porque para mim, num constante virar e revirar de “e ses” completamente imaginários o nosso amor nunca acabou.

15.11.07

É como se o cansaço me preenchesse por dentro. Como se preenchesse cada espaço vazio e empurrasse tudo o que existe contra as paredes, como se asfixiasse. O raciocínio já não existe, os pensamentos brotam soltos, sem nexo, sem ligação. Não durmo há três dias e já não sinto o cansaço. Já não me sinto sequer. Vagueio e é tudo. Como se o corpo respondesse sozinho, numa qualquer absoluta abstinência de emoções. Absorvido numa estranha forma de pensar. Palavras soltas, sem pronomes, artigos e quaisquer outras palavras que tenham apenas como função ligar outras palavras umas às outras.

Dormir. Dormir. Dormir. Amanhã. Amor. Tu. Dormir. Pensar. Morrer.

Dormir.

9.11.07

the wrong second of a two seconds story*

A Sara seguia a cento e quarenta e seis quilómetros por hora no comboio. Por qualquer razão, tinha reparado e fixado o olhar no pequeno painel electrónico num dos topos da carruagem. Meia dúzia de caracteres e tanta informação. Velocidade, temperatura (interior e exterior), horas… e talvez nunca tivesse reparado no tempo que um minuto demora a passar. Ao fim de dois aborreceu-se, encostou-se para trás, abriu o livro que trazia para ler. E naquele último segundo (que agora lhe pareceu rápido) antes de se debruçar na página que marcava com o dedo, olhou à volta.

De todas as pessoas que preenchiam de vida o espaço exíguo da carruagem, fixou-se numa. Fixou-se num olhar que atravessava o vidro e abraçava o mundo como se o visse pela primeira vez. Como se o tempo não existisse sequer. As mãos, grandes mas delicadas, pousadas sobre as pernas. Agora, a Sara olhava para aquele homem com o mesmo olhar que a tinha prendido. E o tempo, que lhe parecia parado, na realidade passava depressa. A Sara não só o fixava como o absorvia. Porque ela sentia já aqueles braços longos e as mãos grandes mas delicadas a envolverem o seu corpo.

Então, o homem, porque as pessoas têm destas coisas, ter-se-á sentido olhado. E naquela infinitésima parte de segundo que os olhos demoram a mudar de direcção, o tempo parou. A Sara hesitou, tremeu. Naquelas horas a Sara sentiu pela primeira vez que um estranho a tocava e a compreendia. E esse era um peso para o qual não estava preparada. Naquela infinitésima parte de um segundo, a Sara desviou o olhar. Escondeu-se no livro, e só quando percebeu que ele se deixara absorver de novo pela paisagem é que conseguiu ter forças para levantar de novo o olhar. Os minutos a durarem outra vez uma eternidade.

O comboio, eventualmente, parou, porque mesmo que pare, o tempo nunca deixa de passar. E ela levantou-se, pegou na mala, adiou o mais que pode a saída. Até que o comboio ameaçou partir, e ela teve mesmo que sair. Como se o cais fosse o regresso a um mundo onde cada segundo conta o tempo que demora a passar, e tenha que ser aproveitado como se não houvessem outros.

Com a mala pousada no chão, enquanto vestia no casaco, o comboio a passar lento, em aceleração, ele na janela a olhar o mundo, a absorvê-lo. E naquele último instante, quando ela já só pensava que não devia ter desviado o olhar, os olhares cruzaram-se. Por culpa do comboio. Não que ele ou ela tenham realmente feito algo por isso.

*cashback

6.11.07

_a ouvir



...em contínuo e repetitivo loop.

29.10.07

A Teresa acorda todos os dias à espera que aquele seja o dia em que tudo vai mudar. E talvez mude mesmo, não sei. Embora ela nunca o veja e todos os dias se lamente. Às vezes telefona-me, chora, chora muito. Não percebe que ontem sorriu um pouco, que hoje sorriu um pouco mais. A Teresa todos os dias leva a vida de todos os dias, no fundo acredita que é a rotina levada à risca que acabará por salvá-la. Então decidiu que se ia levantar uma hora mais cedo do que deveria, para fazer exercício. Sair um pouco para correr. Depois volta para casa, toma um banho, bebe um café em frente à televisão onde vê as notícias antes de sair para o emprego. Trabalha exactamente das nove às cinco e meia. Volta para casa, mas compra sempre fruta pelo caminho, na mercearia da Dona Aurora. Cada dia uma fruta diferente. Janta qualquer coisa, lê um pouco e vai dormir. Todos os dias a mesma coisa.

Um dia ligou-me, farta da rotina. Precisava de aventura, de paixão. Mas que não era capaz de se dar, de se deixar ir. Pediu-me que passasse por casa dela, mas que parasse pelo caminho para comprar vinho, tinto, de preferência. E que não demorasse muito. Que não conseguia estar sozinha e só queria sentir alguém.

Abriu-me a porta com o corpo despido. O olhar frágil. Tirou-me a garrafa da mão e disse-me «toma o meu corpo, que nada mais te posso dar».

16.10.07

É só mesmo um cigarro. Nada mais que um cigarro. Porque nada mais nos pode acontecer sem que nos percamos irremediavelmente. É esse o preço de estar só, de ser, essencialmente, só. Porque só o teu corpo me poderia arrancar de mim, e esse seria um indelével caos que não poderia nunca enfrentar.

Só mesmo um cigarro. Depois outro, eventualmente. Mas apenas isso. Nicotina. Para acalmar, para resistir ao teu corpo que chama por mim. Aos poucos envolves-me, devolves-me a mim. Um eu que não sou eu. Tiras a roupa. Devagar. O corpo não resiste, a carne é fraca. E a cabeça vai atrás. Mais um cigarro. Para acalmar. Para resistir. Quebrei o silêncio no qual tu insististe com um beijo. Apaguei o cigarro, era inútil resistir.

27.9.07

Tu ficaste

A culpa não é minha. Passaste e sorriste. Envergonhada. Disseste olá e adeus, que estavas com pressa. Mas ficaste, levei-te comigo para casa. Pensei em ti enquanto me sentei no sofá a fingir que olhava para a televisão, enquanto comia, enquanto tomava banho, no último segundo de consciência antes de adormecer.

Um dia esbarrámos. Na estação de comboios, porque não podia ser noutro sítio. Estava distraído, como sempre. Talvez não pensasse em ti, mas apenas porque ia distraído, porque estava recolhido no recanto do pensamento que não mostro a ninguém, que não sei mostrar. Porque aliás não sei mostrar nada de mim, se é que existe algo para mostrar.

Entre dois passos senti o teu corpo contra o meu, com a violência com que só dois estranhos podem chocar. E talvez apenas tenha chocado porque naquele último instante, a partir do qual as leis da física impedem que dois corpos se evitem, apercebi-me que eras tu e hesitei. Pedi-te desculpa, e sorriste aquele sorriso que me faz gaguejar, que me faz apanhar-te os livros do chão, ajeitar os óculos, ficar sem jeito.

– O prazer é todo meu.

E enquanto te afastavas, segui-te. A tentar resistir a essa tua timidez, a toda essa fragilidade que só eu parecia ver, a sentir por todo o corpo, ainda, o toque do teu corpo de encontro ao meu. E tu, ainda que seguisses o teu caminho em passos inseguros (como se quisesses voltar para trás e dizer-me algo mais), sentias claramente o meu olhar em ti. Parado, aquele recanto do pensamento a chamar por mim de novo. Mas os caminhos, o meu e o teu, esses, nunca mais se separaram.

Dizem que há pessoas que passam por nós e não nos dizem nada, outras que passam por nós e dizem muito… Eu digo-te que tu não passaste… Tu ficaste.*