
...em contínuo e repetitivo loop.
A Teresa acorda todos os dias à espera que aquele seja o dia em que tudo vai mudar. E talvez mude mesmo, não sei. Embora ela nunca o veja e todos os dias se lamente. Às vezes telefona-me, chora, chora muito. Não percebe que ontem sorriu um pouco, que hoje sorriu um pouco mais. A Teresa todos os dias leva a vida de todos os dias, no fundo acredita que é a rotina levada à risca que acabará por salvá-la. Então decidiu que se ia levantar uma hora mais cedo do que deveria, para fazer exercício. Sair um pouco para correr. Depois volta para casa, toma um banho, bebe um café em frente à televisão onde vê as notícias antes de sair para o emprego. Trabalha exactamente das nove às cinco e meia. Volta para casa, mas compra sempre fruta pelo caminho, na mercearia da Dona Aurora. Cada dia uma fruta diferente. Janta qualquer coisa, lê um pouco e vai dormir. Todos os dias a mesma coisa.
Um dia ligou-me, farta da rotina. Precisava de aventura, de paixão. Mas que não era capaz de se dar, de se deixar ir. Pediu-me que passasse por casa dela, mas que parasse pelo caminho para comprar vinho, tinto, de preferência. E que não demorasse muito. Que não conseguia estar sozinha e só queria sentir alguém.
Abriu-me a porta com o corpo despido. O olhar frágil. Tirou-me a garrafa da mão e disse-me «toma o meu corpo, que nada mais te posso dar».
É só mesmo um cigarro. Nada mais que um cigarro. Porque nada mais nos pode acontecer sem que nos percamos irremediavelmente. É esse o preço de estar só, de ser, essencialmente, só. Porque só o teu corpo me poderia arrancar de mim, e esse seria um indelével caos que não poderia nunca enfrentar.
Só mesmo um cigarro. Depois outro, eventualmente. Mas apenas isso. Nicotina. Para acalmar, para resistir ao teu corpo que chama por mim. Aos poucos envolves-me, devolves-me a mim. Um eu que não sou eu. Tiras a roupa. Devagar. O corpo não resiste, a carne é fraca. E a cabeça vai atrás. Mais um cigarro. Para acalmar. Para resistir. Quebrei o silêncio no qual tu insististe com um beijo. Apaguei o cigarro, era inútil resistir.
A culpa não é minha. Passaste e sorriste. Envergonhada. Disseste olá e adeus, que estavas com pressa. Mas ficaste, levei-te comigo para casa. Pensei em ti enquanto me sentei no sofá a fingir que olhava para a televisão, enquanto comia, enquanto tomava banho, no último segundo de consciência antes de adormecer.
Um dia esbarrámos. Na estação de comboios, porque não podia ser noutro sítio. Estava distraído, como sempre. Talvez não pensasse em ti, mas apenas porque ia distraído, porque estava recolhido no recanto do pensamento que não mostro a ninguém, que não sei mostrar. Porque aliás não sei mostrar nada de mim, se é que existe algo para mostrar.
Entre dois passos senti o teu corpo contra o meu, com a violência com que só dois estranhos podem chocar. E talvez apenas tenha chocado porque naquele último instante, a partir do qual as leis da física impedem que dois corpos se evitem, apercebi-me que eras tu e hesitei. Pedi-te desculpa, e sorriste aquele sorriso que me faz gaguejar, que me faz apanhar-te os livros do chão, ajeitar os óculos, ficar sem jeito.
– O prazer é todo meu.
E enquanto te afastavas, segui-te. A tentar resistir a essa tua timidez, a toda essa fragilidade que só eu parecia ver, a sentir por todo o corpo, ainda, o toque do teu corpo de encontro ao meu. E tu, ainda que seguisses o teu caminho em passos inseguros (como se quisesses voltar para trás e dizer-me algo mais), sentias claramente o meu olhar em ti. Parado, aquele recanto do pensamento a chamar por mim de novo. Mas os caminhos, o meu e o teu, esses, nunca mais se separaram.
Só o silêncio nos consola, e assim tem que ser. Ainda é cedo para palavras, coisinhas complicadas. Ainda é cedo para te dizer tudo o que quero fazer por ti. Ainda não é altura de te explicar que o caos há-de surgir por nós. O caos que constrói e delicia em cada peça em que se revela, a cor na tela branca. Ainda é demasiado cedo para sentimentos. Só o silêncio nos consola.
Cruzas as pernas na cadeira, à chinês, se é que os chineses se sentam assim. Tiras os óculos de sol, destapas os olhos para que me perca, e perco-me mesmo. Conversamos sobre coisas banais, como se não falássemos de todo. Mas o tempo vai passando à medida que as feridas cicatrizam nos braços um do outro. Talvez seja só isto, sem palavras, sem caos. Ou talvez seja isto que precisamos, e seja isto que fazemos um pelo outro, aquilo que não podemos pôr em palavras para não doer. Talvez. Faz sentido que seja assim.
Naquela noite não se beijaram como sempre faziam. Ele entrou, sentou-se à frente dela. Ela descruzou e voltou a cruzar as pernas. Perguntou-lhe se queria um chá quente, disse que lhe ia buscar uma toalha. Ele aceitou, agradeceu. Enquanto ele se secava, ela, encostada na ombreira da porta da cozinha observava.
– Bebe enquanto está quente.
Ele agradeceu, embrulhou-se ainda mais na manta que agora o cobria. Olhou-a, sentiu-a. O sangue a começar a fluir de novo.
– O que vieste cá fazer? Disse que não queria estar com ninguém.
– A mim também não me apetecia estar com ninguém.
Naquela noite não se beijaram, nem sequer falaram. Sabiam que seria inútil remexer em assuntos sobre os quais nada mais há a dizer. Afinal, estavam um com o outro para não estarem sozinhos, ainda que não lhes apetecesse estar com ninguém. Talvez fosse esse o único pressuposto, tolerarem a presença silenciosa um do outro.
Deitaram-se ao lado um do outro, próximos, mas não demasiado. Não fosse o desejo ocupar o silêncio. Mas também não dormiram. Quando o sol nasceu, ela levantou-se.
– Tenho que ir trabalhar, mas deixa-te ficar. Tens comida no frigorífico.
Antes de adormecer, embalado pelo som da água a cair no chuveiro, apercebeu-se. A mulher da vida dele não era aquela com que sonhava, mas aquela que lhe havia roubado o coração. Mas os olhos fecharam-se antes que ela saísse do banho, e nunca lho chegou a dizer.
Às vezes são precisas decisões erradas para seguir em frente. Talvez a velha lógica do passo atrás para dar dois em frente resulte mesmo. Talvez a única forma de libertação dos fantasmas seja esquecer que eles existem. O passado às vezes tem mesmo que ser esquecido, ainda que tenha sido ele a trazer-me aqui. Porque as correntes não se cortam, quebram-se.
Só podia ser assim. De outra forma não conseguia. A guerra é sempre uma luta pela paz, e quase sempre um mal necessário. É difícil deixar de olhar para trás, principalmente na paixão e no amor. Porque chega a um momento em que se tem que dizer «já não te amo, a começar neste exacto segundo».
Talvez não haja perdão para certas palavras, certas decisões, provavelmente não há mesmo. Mas de outra forma não me conseguiria jamais libertar. Não conseguiria deixar de olhar para trás, em vez de olhar em frente. Como tem que ser.
A vida tem que continuar. É um mal necessário. Ainda que quase sempre o passado nos envolva de tal forma que é quase impossível sair dele. Só pode ser assim. Talvez dê demasiada importância às coisas, talvez não, mas a morte da alma terá que ficar para outra vez. De repente sorrisos estranhos tornam-se quentes. Gente estranha, gente nova. E o passado que vai ficando para trás, quase esquecido. É preciso cortar, esquecer, arrumar numa gaveta para nunca mais.
– Já não escreves há muito…
Os velhos hábitos a precisarem de se recuperar. O desafio da folha em branco. Mas o tempo é sempre o tempo e não pára. E as frases que insistem em soar melhor apenas na cabeça. Um qualquer bloqueio entre a cabeça e a mão. Uma estranha sensação de repetição em câmara lenta.
A vida continua. Tem que continuar, ainda que as palavras se mantenham disfuncionais e disconexas.
Ligou a televisão sabendo que a iria desligar logo de seguida. Talvez pudesse dá-la a alguém, vendê-la não. Toda a gente tem já pelo menos uma televisão. Ele tinha televisão por cabo, Internet, telemóvel. Tudo o que pudesse fazer dele uma pessoa normal. Talvez devesse livrar-se de tudo isso, de todas as formas nada o entretinha como seria suposto. Os livros só lia um de cada escritor, e apenas livros que alguém aconselhava, de outro modo não saberia escolher.
Desligou a televisão, pôs um disco compacto, um dos quatro que tem. Um de jazz, um de ópera, a nona de Beethoven e um de rock, que nunca ouve. Toca o telefone. Deixa tocar três vezes antes de atender, como sempre. Era ela, como todos os dias àquela hora, não queria estar sozinha e ele dizia-lhe para aparecer. Das poucas companhias que ainda tolerava. O mundo cansava-o cada vez mais.
Quando ela tocava à campainha, já ele tinha lavado a loiça, feito a cama, deitado a roupa para lavar. Talvez fosse a última pessoa a quem ainda tentava agradar. Ela chegava, com um filme na mão que alugava pelo caminho. Ele não seria capaz de escolher. Assim como assim nunca acabavam de o ver. Ele sentava-se no sofá, num dos cantos, ela deitava-se ao lado dele. Algures a meio do filme, ele roubava-lhe um beijo. Sentia-se aborrecido, reparava demasiado nas imperfeições e irrealismos do filme. Achava toda e qualquer ficção demasiado previsível. E beijá-la, ainda que o fizesse todas as noites e da mesma forma, era uma forma de sacudir o tédio, de não ter que falar. Pagava-lhe em carícias o silêncio. Ela não se importava, até gostava. Era da maneira que não tinha que procurar um companheiro todas as sextas à noite, quando ia sair com as amigas. Aliás, a única noite da semana que não passava com ele.
As roupas quase rasgadas, espalhadas pelo chão. Os corpos suados, o perfume dos sexos ainda excitados. A respiração ainda acelerada. O fumo dos cigarros a preencher a sala. Palavras nenhumas, ou quase nenhumas. Declarações de amor, ainda menos. Claramente, não se tratava de amor, antes de algo bem mais intenso: a solidão de dois corpos que se necessitam um ao outro para fazerem sentido.
