16.10.07

É só mesmo um cigarro. Nada mais que um cigarro. Porque nada mais nos pode acontecer sem que nos percamos irremediavelmente. É esse o preço de estar só, de ser, essencialmente, só. Porque só o teu corpo me poderia arrancar de mim, e esse seria um indelével caos que não poderia nunca enfrentar.

Só mesmo um cigarro. Depois outro, eventualmente. Mas apenas isso. Nicotina. Para acalmar, para resistir ao teu corpo que chama por mim. Aos poucos envolves-me, devolves-me a mim. Um eu que não sou eu. Tiras a roupa. Devagar. O corpo não resiste, a carne é fraca. E a cabeça vai atrás. Mais um cigarro. Para acalmar. Para resistir. Quebrei o silêncio no qual tu insististe com um beijo. Apaguei o cigarro, era inútil resistir.

27.9.07

Tu ficaste

A culpa não é minha. Passaste e sorriste. Envergonhada. Disseste olá e adeus, que estavas com pressa. Mas ficaste, levei-te comigo para casa. Pensei em ti enquanto me sentei no sofá a fingir que olhava para a televisão, enquanto comia, enquanto tomava banho, no último segundo de consciência antes de adormecer.

Um dia esbarrámos. Na estação de comboios, porque não podia ser noutro sítio. Estava distraído, como sempre. Talvez não pensasse em ti, mas apenas porque ia distraído, porque estava recolhido no recanto do pensamento que não mostro a ninguém, que não sei mostrar. Porque aliás não sei mostrar nada de mim, se é que existe algo para mostrar.

Entre dois passos senti o teu corpo contra o meu, com a violência com que só dois estranhos podem chocar. E talvez apenas tenha chocado porque naquele último instante, a partir do qual as leis da física impedem que dois corpos se evitem, apercebi-me que eras tu e hesitei. Pedi-te desculpa, e sorriste aquele sorriso que me faz gaguejar, que me faz apanhar-te os livros do chão, ajeitar os óculos, ficar sem jeito.

– O prazer é todo meu.

E enquanto te afastavas, segui-te. A tentar resistir a essa tua timidez, a toda essa fragilidade que só eu parecia ver, a sentir por todo o corpo, ainda, o toque do teu corpo de encontro ao meu. E tu, ainda que seguisses o teu caminho em passos inseguros (como se quisesses voltar para trás e dizer-me algo mais), sentias claramente o meu olhar em ti. Parado, aquele recanto do pensamento a chamar por mim de novo. Mas os caminhos, o meu e o teu, esses, nunca mais se separaram.

Dizem que há pessoas que passam por nós e não nos dizem nada, outras que passam por nós e dizem muito… Eu digo-te que tu não passaste… Tu ficaste.*

24.9.07

Só o silêncio nos consola, e assim tem que ser. Ainda é cedo para palavras, coisinhas complicadas. Ainda é cedo para te dizer tudo o que quero fazer por ti. Ainda não é altura de te explicar que o caos há-de surgir por nós. O caos que constrói e delicia em cada peça em que se revela, a cor na tela branca. Ainda é demasiado cedo para sentimentos. Só o silêncio nos consola.

Cruzas as pernas na cadeira, à chinês, se é que os chineses se sentam assim. Tiras os óculos de sol, destapas os olhos para que me perca, e perco-me mesmo. Conversamos sobre coisas banais, como se não falássemos de todo. Mas o tempo vai passando à medida que as feridas cicatrizam nos braços um do outro. Talvez seja só isto, sem palavras, sem caos. Ou talvez seja isto que precisamos, e seja isto que fazemos um pelo outro, aquilo que não podemos pôr em palavras para não doer. Talvez. Faz sentido que seja assim.

20.9.07

Naquela noite não se beijaram como sempre faziam. Ele entrou, sentou-se à frente dela. Ela descruzou e voltou a cruzar as pernas. Perguntou-lhe se queria um chá quente, disse que lhe ia buscar uma toalha. Ele aceitou, agradeceu. Enquanto ele se secava, ela, encostada na ombreira da porta da cozinha observava.

– Bebe enquanto está quente.

Ele agradeceu, embrulhou-se ainda mais na manta que agora o cobria. Olhou-a, sentiu-a. O sangue a começar a fluir de novo.

– O que vieste cá fazer? Disse que não queria estar com ninguém.

– A mim também não me apetecia estar com ninguém.

Naquela noite não se beijaram, nem sequer falaram. Sabiam que seria inútil remexer em assuntos sobre os quais nada mais há a dizer. Afinal, estavam um com o outro para não estarem sozinhos, ainda que não lhes apetecesse estar com ninguém. Talvez fosse esse o único pressuposto, tolerarem a presença silenciosa um do outro.

Deitaram-se ao lado um do outro, próximos, mas não demasiado. Não fosse o desejo ocupar o silêncio. Mas também não dormiram. Quando o sol nasceu, ela levantou-se.

– Tenho que ir trabalhar, mas deixa-te ficar. Tens comida no frigorífico.

Antes de adormecer, embalado pelo som da água a cair no chuveiro, apercebeu-se. A mulher da vida dele não era aquela com que sonhava, mas aquela que lhe havia roubado o coração. Mas os olhos fecharam-se antes que ela saísse do banho, e nunca lho chegou a dizer.

14.9.07

Às vezes são precisas decisões erradas para seguir em frente. Talvez a velha lógica do passo atrás para dar dois em frente resulte mesmo. Talvez a única forma de libertação dos fantasmas seja esquecer que eles existem. O passado às vezes tem mesmo que ser esquecido, ainda que tenha sido ele a trazer-me aqui. Porque as correntes não se cortam, quebram-se.

Só podia ser assim. De outra forma não conseguia. A guerra é sempre uma luta pela paz, e quase sempre um mal necessário. É difícil deixar de olhar para trás, principalmente na paixão e no amor. Porque chega a um momento em que se tem que dizer «já não te amo, a começar neste exacto segundo».

Talvez não haja perdão para certas palavras, certas decisões, provavelmente não há mesmo. Mas de outra forma não me conseguiria jamais libertar. Não conseguiria deixar de olhar para trás, em vez de olhar em frente. Como tem que ser.

10.9.07

A vida tem que continuar. É um mal necessário. Ainda que quase sempre o passado nos envolva de tal forma que é quase impossível sair dele. Só pode ser assim. Talvez dê demasiada importância às coisas, talvez não, mas a morte da alma terá que ficar para outra vez. De repente sorrisos estranhos tornam-se quentes. Gente estranha, gente nova. E o passado que vai ficando para trás, quase esquecido. É preciso cortar, esquecer, arrumar numa gaveta para nunca mais.

– Já não escreves há muito…

Os velhos hábitos a precisarem de se recuperar. O desafio da folha em branco. Mas o tempo é sempre o tempo e não pára. E as frases que insistem em soar melhor apenas na cabeça. Um qualquer bloqueio entre a cabeça e a mão. Uma estranha sensação de repetição em câmara lenta.

A vida continua. Tem que continuar, ainda que as palavras se mantenham disfuncionais e disconexas.

3.6.07

Ligou a televisão sabendo que a iria desligar logo de seguida. Talvez pudesse dá-la a alguém, vendê-la não. Toda a gente tem já pelo menos uma televisão. Ele tinha televisão por cabo, Internet, telemóvel. Tudo o que pudesse fazer dele uma pessoa normal. Talvez devesse livrar-se de tudo isso, de todas as formas nada o entretinha como seria suposto. Os livros só lia um de cada escritor, e apenas livros que alguém aconselhava, de outro modo não saberia escolher.

Desligou a televisão, pôs um disco compacto, um dos quatro que tem. Um de jazz, um de ópera, a nona de Beethoven e um de rock, que nunca ouve. Toca o telefone. Deixa tocar três vezes antes de atender, como sempre. Era ela, como todos os dias àquela hora, não queria estar sozinha e ele dizia-lhe para aparecer. Das poucas companhias que ainda tolerava. O mundo cansava-o cada vez mais.

Quando ela tocava à campainha, já ele tinha lavado a loiça, feito a cama, deitado a roupa para lavar. Talvez fosse a última pessoa a quem ainda tentava agradar. Ela chegava, com um filme na mão que alugava pelo caminho. Ele não seria capaz de escolher. Assim como assim nunca acabavam de o ver. Ele sentava-se no sofá, num dos cantos, ela deitava-se ao lado dele. Algures a meio do filme, ele roubava-lhe um beijo. Sentia-se aborrecido, reparava demasiado nas imperfeições e irrealismos do filme. Achava toda e qualquer ficção demasiado previsível. E beijá-la, ainda que o fizesse todas as noites e da mesma forma, era uma forma de sacudir o tédio, de não ter que falar. Pagava-lhe em carícias o silêncio. Ela não se importava, até gostava. Era da maneira que não tinha que procurar um companheiro todas as sextas à noite, quando ia sair com as amigas. Aliás, a única noite da semana que não passava com ele.

As roupas quase rasgadas, espalhadas pelo chão. Os corpos suados, o perfume dos sexos ainda excitados. A respiração ainda acelerada. O fumo dos cigarros a preencher a sala. Palavras nenhumas, ou quase nenhumas. Declarações de amor, ainda menos. Claramente, não se tratava de amor, antes de algo bem mais intenso: a solidão de dois corpos que se necessitam um ao outro para fazerem sentido.

31.3.07

Viver numa cidade pequena é como ver o mesmo filme várias vezes. Ainda que possa ter algum encanto, a história é sempre a mesma. O Adérito acabou a escola, pegou no negócio do pai. Porque nestes sítios os filhos ainda continuam a obra dos pais, e os filhos deles também. A menos que algo mude entretanto, ou o negócio vá à falência. O que é pouco provável. As pessoas estão habituadas a comprar as coisas sempre no mesmo sítio.

A Sara é filha do Dr. Soares. Provavelmente, já nem ele se lembra do próprio nome (é outra coisa destes sítios, os cargos são sobrevalorizados, ainda). O Doutor, veio para a cidade por razões familiares. A avó tinha falecido e deixado uma casa e uns terrenos. E ele voltou em nome das memórias da infância, dos verões passados no jardim da avó. A verdade é que apenas os laços nos fazem voltar a estes sítios.

O Adérito, que desde que o pai falecera era o Sr. Adérito (vá-se lá perceber a lógica destes sítios), deixou-se fascinar pela Sara na primeira vez que ela lá entrou. Tinha vinte e um anos, e ela menos três. A menina Sara pedia sempre as coisas com delicadeza e um sorriso. Agradecia sempre no fim, mandava sempre pôr na conta do senhor doutor. E quando não o fazia trocava sempre as moedas de vinte com as de cinquenta escudos. E o Adérito aproveitava, mais uns segundos, e deliciava-se de cada vez que ela se chateava com ela mesma por não conseguir acertar com as moedas. Dizia sempre obrigado e boa tarde.

Eventualmente lá se casou com uma Alzira, filha do Sr. Justino da retrosaria. Toda a gente achou que era o destino, menos o Adérito, que continuava a sonhar com a Sara que passou de ir todos os dias à mercearia para ir só aos fins de semana e depois deixou de ir de todo. O que, diga-se, lhe roubou claramente o sorriso, tornou-lhe os dias mais pesados. Já não tratava os vegetais, nem a encomenda da Dona Agustina com o mesmo empenho. Esquecia-se sempre de algo.

Hoje, muito mais velho e cansado, principalmente cansado, ainda é casado com a Alzira de quem tem dois filhos, que quando acabarem a escola seguirão as pisadas do pai. A vida está complicada e dificilmente arranjarão emprego noutro lado. O Dr. Soares morreu, o que foi um acontecimento sentido na aldeia. O Adérito foi ao funeral e não deixou de pensar na Sara um único segundo. Bem a tentou procurar por entre a multidão e nos comentários das pessoas. Perdeu a esperança. Corpo enterrado, voltou para a loja, tinha muito trabalho à espera.

As beatas da cidade que tinham como profissão ir a funerais, não paravam de entrar a sair. A pedir isto e aquilo. O Adérito cansado, a tentar chegar para todos os pedidos.

- São quatro euros e vinte.

A senhora, com a mão cheia de moedas, a hesitar quais escolher.

- Peço desculpa, ainda não me consegui habituar a estas moedas, quando finalmente consegui distinguir as de vinte das de cinquenta escudos trocaram-me as voltas.

O Adérito sorriu, muito. Pegou nas moedas, foi à caixa, fez o troco.

- Aqui tem o seu troco, menina Sara.

Os laços são a única coisa que nos fazem voltar a estes sítios.

6.1.07

Um olhar. Foi quanto bastou. Porque há olhares que dizem tudo, e dizem-no de uma só vez. E nada mais é preciso para se fazer infinito.

O teu olhar disse tudo. Prendeu-me. Agarrou-me. E como se isso não chegasse, cravaste-me à força na memória o teu beijo. O teu corpo ainda frágil do frio e do medo. O relógio a passar e a pôr peso nos ombros. O caos. A razão e a emoção a chocarem e a implodirem. E no fim, o silêncio dos destroços. O último olhar ao fechar do elevador.

E o teu olhar que foi quanto bastou. Que disse tudo, de uma só vez. O teu beijo que me cravou a memória para nunca mais esquecer. Um dia hei-de ficar e repetir infinitas vezes o infinito até que o relógio pare.

11.12.06

Ela não poderia nunca perceber aquelas lágrimas. Há coisas que são indizíveis, e outras que não se podem dizer. Ele não lhe poderia nunca explicar que as lágrimas eram apenas o resultado de uma complexa mistura de sentimentos. Mas talvez o que mais o assustava não fosse a despedida pesada, soturna, a incerteza dos minutos seguintes. As despedidas matam sem sequer matar, e quando ele se apercebeu disso pensou que talvez fosse melhor morrer, que talvez doesse menos.

Ela não poderia nunca perceber as lágrimas que caiam da sua cara, ele tampouco poderia explicar. Não lhe poderia dizer que chorava por, uma vez mais, não poder adiar o sonho de ficar. Porque para isso teria que dizer que queria ficar para sempre. Com ela. Porque para isso teria que explicar que a num determinado momento na vida se conhece outra pessoa e que, nesse preciso instante, se sabe que se vai ficar com aquela pessoa para sempre, um dia de cada vez. E ela era essa pessoa.

Porque há duas palavras com efeitos estranhos. Sempre. Nunca. E nunca lhe poderia dizer que queria ficar com ela para sempre. Porque para sempre assusta. Que ter que partir mais uma vez lhe doía como nada. Só conseguia pensar em ficar.

7.12.06

Ela tinha o dom de lhe roubar as palavras, como se fosse mesmo possível roubar as palavras a alguém. Mas ela conseguia. E fazia-o com um sorriso tão natural que ninguém acreditaria que pudesse de facto roubar. E ele sorria, envergonhado, por não ter palavras para dizer. Então ela, já sem sorriso, mas com olhos de desejo, pedia-lhe para fazerem amor. Ele sem palavras, beijava-a como se dissesse sim. E então, o mundo eram eles. Ele amava-a muito, ela ainda não tinha a certeza, mas ia dizendo que sim (em certos momentos as dúvidas pareciam não existir). Eram felizes, muito felizes, até um dia.

Um dia quase a perdeu, e ainda hoje tem medo que isso volte a acontecer.


ya

3.12.06

Parece-me óbvio que, por vezes, sejam necessárias certas decisões sem qualquer carga lógica. Quase sempre é preciso dar um passo atrás para dar dois em frente. Ou algo do género. Os clichés resultam sempre tão bem quando é hora de acalmar a alma. E o mais estúpido é ainda sentirmos necessidade de nos mentir. De nos enganar-mos a nós próprios. O recalcamento pode ser um processo extremamente doloroso.

Inevitavelmente acabamos todos por tentar arranjar defesas, para a perspectiva de todos, mas todos, morrermos sozinhos. Podem dar-nos a mão, mas chegado o momento vamos sozinhos. E ainda bem. Porque afinal nada poderia jamais ser igual. Mas continuamos a acreditar e a iludir-nos, porque precisamos dessa mentira, dessa ilusão para continuar. Porque a ideia de um amor para sempre, da felicidade eterna é confortável. Porque senão não vale a pena continuar, senão morremos.

Mas chega a hora e todos acabamos por recusar o que procuramos – e procuramos todos o mesmo -, o amor, a felicidade. E voltamos ao início, sozinhos, como na hora da morte. Como em todas as horas em que precisamos de sentir o toque de alguém. As palavras são merda, porque os actos nunca correspondem. Bicho estúpido e contraditório o Homem, que se mata e se vive no mesmo momento. Que precisa de se matar uma e outra vez para se cumprir a inevitável cruz da vida.


Para a #1

27.11.06

Desta vez não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim. E de certeza que esta é apenas aquela fase a que psicólogos, psiquiatras e outros que tais chamam negação. Eu só quero adiar um pouco mais o regresso a mim mesmo. Porque eventualmente o tempo ensina-nos que estamos bem sozinhos, mostra-nos que afinal não precisamos daquela pessoa a quem jurámos sem ela não sabermos viver. O tempo é o velho cliché. A vida dobra-nos, molda-nos e mostra-nos que o amanhã é só mais um dia. As tuas fotografias continuam na parede, a matar os últimos resquícios de memória. Mas também elas, como todas as outras recordações, materiais e imateriais, acabarão arquivadas num sítio qualquer só identificado pela etiqueta com o teu nome.

Desta vez ainda não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim, e como em qualquer outro fim, a história acaba assim: as fotografias na parede, as recordações a baloiçar no pensamento. Mas a vida não pára, e amanhã é só mais um dia. Não te vou esquecer, não. Não te vou esquecer. Simplesmente, não me vou lembrar.

15.11.06

Talvez de uma forma ou de outra tudo seja igual. A cabeça é um problema, e o amor é mesmo fodido. Não sei, talvez tenha que ser assim. A fantasia sempre melhor que a realidade. Os sonhos sempre arruinados pelo acordar. O relógio que não pára e ainda bem. A noite e o dia a repetirem-se com a exactidão de uma cópia.

E, no fim, sempre a angústia, a ansiedade, a desilusão. As expectativas nunca partilhadas. E a invisibilidade que mata. E precisar, só preciso de mim e do mundo. Mas não resisto à ilusão, sempre a mesma. A cabeça é um problema, e o amor é mesmo fodido. A consciência do fim que tudo tem. Espero que o próximo seja o meu. Penso. Arrependo-me. Porque o desejo não é de morte, é de desaparecimento. É o desejo de pensar que alguém pode sentir a minha falta. O desejo de pensar que tenho algo que só eu posso dar.

Não sei. O tempo – que não faz tic-tac, mas um tic-tic ou tac-tac, bem menos rítmico – insiste em passar. E o problema é esse. Nada muda e o tempo continua a passar. Uma cópia repetida de tudo aquilo que já passou e de que fujo. O passado é pior que o amor, muito pior. A cabeça não pára. A cabeça é um problema.

12.11.06

Agradecimento

Obrigado a todos aqueles que continuam a visitar este blog, e a comentar e a elogiar. O tempo tem sido escasso, e tenho tentado dedicar-me totalmente a um velho objectivo: cem páginas. Juntamente com todas as outras obrigações, o tempo disponível para o blog é verdadeiramente pouco. Tentarei ser um pouco mais assíduo nos próximos tempos. Porque talvez seja essa a melhor forma de agradecer a vossa fidelidade para com a minha escrita.

Muito obrigado.


Até já.

26.10.06

A campainha tocou. Odeio que me acordem de manhã, e àquela hora era demasiado de manhã. Podia matar-te, não trouxesses na mão o sorriso que sabes ser o meu preferido. Acompanhei-te à sala, pedi-te uns minutos, ainda com o cérebro demasiado ensopado em sono. Café. Banho. Talvez o banho primeiro. Tu riste-te, pegaste-me na mão e arrastaste-me para o quarto. Disseste-me que estavas ali para dormir comigo, com os meus braços a envolver o teu corpo. Tiraste a roupa, deitaste-te ao meu lado. Senti o teu calor, uma súbita harmonia a envolver-me os sentidos. Adormeci. Adormecemos.

Acordei e não estavas lá.

24.6.06

Violino

O nosso amor é um violino. São as notas graves, sustidas. As mesmas notas suspensas à loucura. Um adágio em ritmo de allegro. O teu corpo que se revela entre os lençóis, entre cada uma das notas. É o ritmo da loucura, do violino que grita para lá da razão. Sem expectativas, sem esperanças que o teu corpo me seja devolvido, um dia, um minuto. Recordo a tua gargalhada, as tuas brincadeiras. A forma como tentavas escapar de um beijo, só para provocar.

Estranho bebermos dos lábios um do outro o amor que nunca tivemos. Somos mil histórias inacabadas que ainda não é desta que parecem terminar. A nossa história são histórias cruzadas, entrelaçadas, abraçadas. Somos um olhar nunca antes olhado. Palavras desconectadas, rabiscadas numa folha. Somos a incerteza de um sentimento estranho que parece procurar sustento, como se tudo estivesse a acontecer pela primeira vez, tragicamente pela primeira vez. Como se tudo fosse apenas o mundo à espera de ser descoberto.

Mas não, somos aquela nota do violino sustida para lá da loucura, para lá do momento. Somos o quebrar das regras do ritmo e da musicalidade, tão cientificamente estudadas. Nós não sabemos o que somos. Como se o momento nos aniquilasse. Não sou eu, nem és tu. Somos nós, só nós e só nós é que importamos. Bebemos dos lábios um do outro o amor que não temos, somos o hoje e o amanhã e mais certezas não podemos ter. somos o conforto desconfortável de não sabermos quem somos.

O nosso amor é um violino, e são as mãos que cruzamos, e a descoberta de quem somos um no outro. Somos nós, só nós, e enquanto isso o violino continua.

24.5.06

Os teus beijos sabem a sonho. Nem a mais nem a menos que a sonho, porque apenas em sonho os tenho. A tua ausência dói, uns dias mais que outros, especialmente hoje. Porque os sonhos já não chegam, porque os lábios suspiram por um beijo que se adia e parece nunca chegar. Mas pior é o corpo que não se deixa enganar e embarca num desejo que necessita execução. A cabeça é uma dependente, vai atrás.

A tua sensualidade devasta, desbasta. O teu corpo ensurdece, e os beijos somam-se, multiplicam-se, ecoam. A roupa cai entre suspiros exasperados, os corpos desejam-se mais e mais. A cabeça é uma dependente, vai atrás, a cabeça já não faz o que tem a fazer e ainda bem. Os corpos sabem, só eles sabem. E quando se unem, o meu corpo ao teu corpo, tudo faz sentido. A cabeça entende e não interfere, deixa-se ir. A cabeça é uma dependente.

A dor e o prazer confundem-se terrivelmente, por momentos pensei que nos estivéssemos a matar. Por momentos pensei que nos estivéssemos a amar. Assim ficámos, os corpos a fazer o que sabem fazer, a cabeça a ir atrás, quase sem pensar. Beijámo-nos, tocámo-nos, trocámo-nos. Os lábios a beijar o beijo há muito adiado, os corpos a saciarem-se um no outro. A respiração pesada, obstinada. Uma guerra que se trava, entre movimentos perpétuos de mãos e ancas que se tocam.

O silêncio. O meu corpo que cai para o lado, exausto, e o teu que se deixa ficar. O silêncio. O acordar. Os teus beijos que sabem a sonho, e a cabeça que aproveita o cansaço e, pela primeira vez, percebe o que é o amor. A tua ausência que dói. E este sonho que parece nunca acordar em ti.

4.5.06

Voz

Sempre vi a música como um acessório. Não me lembro de ouvir música, ponto. É sempre enquanto leio, enquanto escrevo, enquanto me deito na cama e fico a olhar para o tecto à espera que as pequenas manchas de humidade comecem a formar desenhos. Não me lembro de ouvir música, apenas ouvir. Como nos filmes, a música é apenas um acessório, algo que embala a vida, que marca o ritmo.

A Teresa, que canta adoravelmente, não foi excepção. Foi um acessório, daqueles que durante o tempo que dura o encanto abrilhantam a vida, até se tornarem banais. Vi-a pela primeira vez a cantar num bar. Cantava em francês, o que já não é habitual, e só me prendeu a atenção por esse factor. Passei o tempo em que ela esteve a cantar a tentar encaixar as palavras nos pequenos fósseis que me restam das aulas de francês do ciclo. A sonoridade dos pês e dos rês pronunciados da maneira que só os franceses sabem, encantou-me. A música nem a ouvi, não me lembro de a ouvir. Habituámo-nos demasiado ao inglês. A globalização tem destas coisas, impinge-nos o inglês e trouxe-me a Teresa.

Nasceu na Argentina, o pai – que ela visita todos os domingos – é português, a mãe era checoslovaca (quando ela nasceu ainda se chamava assim e foi ficando). Com cinco anos foi viver para França. Uma confusão demasiado confusa que, com toda a certeza, daria uma fantástica biografia. Não é todos os dias que um português e uma checoslovaca se encontram na Argentina e se apaixonam. Aliás, nunca soube pronunciar o apelido materno da Teresa da forma correcta, demasiadas vogais juntas. Felizmente o pai era português e tinha um apelido fácil de pronunciar: Lopes.

Quando acabou de cantar, desceu do palco. Misturou-se com o público. Esperei que acabassem os aplausos, que lhe oferecessem as flores. Esperei que os amigos (porque há sempre amigos no público) lhe dessem os parabéns, e pedi-lhe um autógrafo. Perguntei-lhe onde podia comprar o disco e ela disse-me que ainda não havia. Convidou-me para beber um copo, o que me poupou trabalho. Há sempre medo de ouvirmos um não quando convidamos alguém estranho.

Uma semana depois estava a viver comigo, o que eu tolerei. Tinha por hábito cantar incessantemente enquanto estava em casa, o que me poupava o trabalho de pôr um disco logo pela manhã. Gostava de a ouvir cantar pelos corredores. Passeávamos ao fim da tarde, durante o dia eu fazia o que tinha a fazer, ela cantava. De vez em quando víamos um filme. Pouco mais coincidia nas nossas vidas que o facto de habitarmos o mesmo espaço, partilharmos a mesma cama. Ela gostava de cantar, eu gostava de ouvir, era o que nos unia.

Um dia ela lançou um disco. Eu, que nunca cheguei a cansar-me de a ouvir cantar, fui assistir a mais um concerto. O bar era o mesmo em que conhecia a Teresa, mas tudo mudara entretanto. Gradualmente, o bar enchera-se de gente. Em cada concerto, às caras habituais juntavam-se caras novas.

Quando o concerto acabou, fui o primeiro a cumprimentá-la (porque há sempre amigos no público), o primeiro a comprar o disco e a pedir-lhe um autógrafo, que ela não me tinha chegado a dar. Prometi a mim mesmo que havia de o ouvir sempre ao acordar. Sempre. Ofereci-lhe uma flor, encostei a minha cabeça à dela e, segurando o disco como uma promessa, disse-lhe ao ouvido “É a última noite que passamos juntos, já tenho a tua voz”.

3.4.06

Lado a Lado

Gostavam de passear. Não davam as mãos, nem os braços, nem se abraçavam. Caminhavam lado a lado e isso era tudo. Umas vezes falavam, outras não. Ela do lado de dentro, sempre do lado de dentro do passeio. Ela nunca se apercebeu sequer disso. Se no início ele a encaminhava para esse lado, ela acabou por o fazer inconscientemente.

Caminhavam lado a lado sem direcção. Iam fazendo o caminho ao caminhar. Ela escolhia. Escolhia se viravam à esquerda ou à direita, ele ia atrás, sempre do lado de fora, sempre do lado da estrada. Ele não gostava de tomar decisões, também não achava isso assim tão importante quando estava com ela. Queria estar com ela, apenas.

Um dia sob um sol cansativo, quente e cru, ela apercebeu-se. O tempo, para ele, parou. Ela perguntou porque é que sempre que andavam juntos ele a fazia ficar do lado de dentro do passeio. Ele soçobrou, sempre tivera esperança que ela nunca chegasse a perceber. Engoliu em seco, enfrentou a realidade. Foi sincero: “Porque assim, se algum acidente houver, é a mim que acontece, assim posso proteger-te”. Ela sorriu. Ela corou.