14.9.07

Às vezes são precisas decisões erradas para seguir em frente. Talvez a velha lógica do passo atrás para dar dois em frente resulte mesmo. Talvez a única forma de libertação dos fantasmas seja esquecer que eles existem. O passado às vezes tem mesmo que ser esquecido, ainda que tenha sido ele a trazer-me aqui. Porque as correntes não se cortam, quebram-se.

Só podia ser assim. De outra forma não conseguia. A guerra é sempre uma luta pela paz, e quase sempre um mal necessário. É difícil deixar de olhar para trás, principalmente na paixão e no amor. Porque chega a um momento em que se tem que dizer «já não te amo, a começar neste exacto segundo».

Talvez não haja perdão para certas palavras, certas decisões, provavelmente não há mesmo. Mas de outra forma não me conseguiria jamais libertar. Não conseguiria deixar de olhar para trás, em vez de olhar em frente. Como tem que ser.

10.9.07

A vida tem que continuar. É um mal necessário. Ainda que quase sempre o passado nos envolva de tal forma que é quase impossível sair dele. Só pode ser assim. Talvez dê demasiada importância às coisas, talvez não, mas a morte da alma terá que ficar para outra vez. De repente sorrisos estranhos tornam-se quentes. Gente estranha, gente nova. E o passado que vai ficando para trás, quase esquecido. É preciso cortar, esquecer, arrumar numa gaveta para nunca mais.

– Já não escreves há muito…

Os velhos hábitos a precisarem de se recuperar. O desafio da folha em branco. Mas o tempo é sempre o tempo e não pára. E as frases que insistem em soar melhor apenas na cabeça. Um qualquer bloqueio entre a cabeça e a mão. Uma estranha sensação de repetição em câmara lenta.

A vida continua. Tem que continuar, ainda que as palavras se mantenham disfuncionais e disconexas.

3.6.07

Ligou a televisão sabendo que a iria desligar logo de seguida. Talvez pudesse dá-la a alguém, vendê-la não. Toda a gente tem já pelo menos uma televisão. Ele tinha televisão por cabo, Internet, telemóvel. Tudo o que pudesse fazer dele uma pessoa normal. Talvez devesse livrar-se de tudo isso, de todas as formas nada o entretinha como seria suposto. Os livros só lia um de cada escritor, e apenas livros que alguém aconselhava, de outro modo não saberia escolher.

Desligou a televisão, pôs um disco compacto, um dos quatro que tem. Um de jazz, um de ópera, a nona de Beethoven e um de rock, que nunca ouve. Toca o telefone. Deixa tocar três vezes antes de atender, como sempre. Era ela, como todos os dias àquela hora, não queria estar sozinha e ele dizia-lhe para aparecer. Das poucas companhias que ainda tolerava. O mundo cansava-o cada vez mais.

Quando ela tocava à campainha, já ele tinha lavado a loiça, feito a cama, deitado a roupa para lavar. Talvez fosse a última pessoa a quem ainda tentava agradar. Ela chegava, com um filme na mão que alugava pelo caminho. Ele não seria capaz de escolher. Assim como assim nunca acabavam de o ver. Ele sentava-se no sofá, num dos cantos, ela deitava-se ao lado dele. Algures a meio do filme, ele roubava-lhe um beijo. Sentia-se aborrecido, reparava demasiado nas imperfeições e irrealismos do filme. Achava toda e qualquer ficção demasiado previsível. E beijá-la, ainda que o fizesse todas as noites e da mesma forma, era uma forma de sacudir o tédio, de não ter que falar. Pagava-lhe em carícias o silêncio. Ela não se importava, até gostava. Era da maneira que não tinha que procurar um companheiro todas as sextas à noite, quando ia sair com as amigas. Aliás, a única noite da semana que não passava com ele.

As roupas quase rasgadas, espalhadas pelo chão. Os corpos suados, o perfume dos sexos ainda excitados. A respiração ainda acelerada. O fumo dos cigarros a preencher a sala. Palavras nenhumas, ou quase nenhumas. Declarações de amor, ainda menos. Claramente, não se tratava de amor, antes de algo bem mais intenso: a solidão de dois corpos que se necessitam um ao outro para fazerem sentido.

31.3.07

Viver numa cidade pequena é como ver o mesmo filme várias vezes. Ainda que possa ter algum encanto, a história é sempre a mesma. O Adérito acabou a escola, pegou no negócio do pai. Porque nestes sítios os filhos ainda continuam a obra dos pais, e os filhos deles também. A menos que algo mude entretanto, ou o negócio vá à falência. O que é pouco provável. As pessoas estão habituadas a comprar as coisas sempre no mesmo sítio.

A Sara é filha do Dr. Soares. Provavelmente, já nem ele se lembra do próprio nome (é outra coisa destes sítios, os cargos são sobrevalorizados, ainda). O Doutor, veio para a cidade por razões familiares. A avó tinha falecido e deixado uma casa e uns terrenos. E ele voltou em nome das memórias da infância, dos verões passados no jardim da avó. A verdade é que apenas os laços nos fazem voltar a estes sítios.

O Adérito, que desde que o pai falecera era o Sr. Adérito (vá-se lá perceber a lógica destes sítios), deixou-se fascinar pela Sara na primeira vez que ela lá entrou. Tinha vinte e um anos, e ela menos três. A menina Sara pedia sempre as coisas com delicadeza e um sorriso. Agradecia sempre no fim, mandava sempre pôr na conta do senhor doutor. E quando não o fazia trocava sempre as moedas de vinte com as de cinquenta escudos. E o Adérito aproveitava, mais uns segundos, e deliciava-se de cada vez que ela se chateava com ela mesma por não conseguir acertar com as moedas. Dizia sempre obrigado e boa tarde.

Eventualmente lá se casou com uma Alzira, filha do Sr. Justino da retrosaria. Toda a gente achou que era o destino, menos o Adérito, que continuava a sonhar com a Sara que passou de ir todos os dias à mercearia para ir só aos fins de semana e depois deixou de ir de todo. O que, diga-se, lhe roubou claramente o sorriso, tornou-lhe os dias mais pesados. Já não tratava os vegetais, nem a encomenda da Dona Agustina com o mesmo empenho. Esquecia-se sempre de algo.

Hoje, muito mais velho e cansado, principalmente cansado, ainda é casado com a Alzira de quem tem dois filhos, que quando acabarem a escola seguirão as pisadas do pai. A vida está complicada e dificilmente arranjarão emprego noutro lado. O Dr. Soares morreu, o que foi um acontecimento sentido na aldeia. O Adérito foi ao funeral e não deixou de pensar na Sara um único segundo. Bem a tentou procurar por entre a multidão e nos comentários das pessoas. Perdeu a esperança. Corpo enterrado, voltou para a loja, tinha muito trabalho à espera.

As beatas da cidade que tinham como profissão ir a funerais, não paravam de entrar a sair. A pedir isto e aquilo. O Adérito cansado, a tentar chegar para todos os pedidos.

- São quatro euros e vinte.

A senhora, com a mão cheia de moedas, a hesitar quais escolher.

- Peço desculpa, ainda não me consegui habituar a estas moedas, quando finalmente consegui distinguir as de vinte das de cinquenta escudos trocaram-me as voltas.

O Adérito sorriu, muito. Pegou nas moedas, foi à caixa, fez o troco.

- Aqui tem o seu troco, menina Sara.

Os laços são a única coisa que nos fazem voltar a estes sítios.

6.1.07

Um olhar. Foi quanto bastou. Porque há olhares que dizem tudo, e dizem-no de uma só vez. E nada mais é preciso para se fazer infinito.

O teu olhar disse tudo. Prendeu-me. Agarrou-me. E como se isso não chegasse, cravaste-me à força na memória o teu beijo. O teu corpo ainda frágil do frio e do medo. O relógio a passar e a pôr peso nos ombros. O caos. A razão e a emoção a chocarem e a implodirem. E no fim, o silêncio dos destroços. O último olhar ao fechar do elevador.

E o teu olhar que foi quanto bastou. Que disse tudo, de uma só vez. O teu beijo que me cravou a memória para nunca mais esquecer. Um dia hei-de ficar e repetir infinitas vezes o infinito até que o relógio pare.

11.12.06

Ela não poderia nunca perceber aquelas lágrimas. Há coisas que são indizíveis, e outras que não se podem dizer. Ele não lhe poderia nunca explicar que as lágrimas eram apenas o resultado de uma complexa mistura de sentimentos. Mas talvez o que mais o assustava não fosse a despedida pesada, soturna, a incerteza dos minutos seguintes. As despedidas matam sem sequer matar, e quando ele se apercebeu disso pensou que talvez fosse melhor morrer, que talvez doesse menos.

Ela não poderia nunca perceber as lágrimas que caiam da sua cara, ele tampouco poderia explicar. Não lhe poderia dizer que chorava por, uma vez mais, não poder adiar o sonho de ficar. Porque para isso teria que dizer que queria ficar para sempre. Com ela. Porque para isso teria que explicar que a num determinado momento na vida se conhece outra pessoa e que, nesse preciso instante, se sabe que se vai ficar com aquela pessoa para sempre, um dia de cada vez. E ela era essa pessoa.

Porque há duas palavras com efeitos estranhos. Sempre. Nunca. E nunca lhe poderia dizer que queria ficar com ela para sempre. Porque para sempre assusta. Que ter que partir mais uma vez lhe doía como nada. Só conseguia pensar em ficar.

7.12.06

Ela tinha o dom de lhe roubar as palavras, como se fosse mesmo possível roubar as palavras a alguém. Mas ela conseguia. E fazia-o com um sorriso tão natural que ninguém acreditaria que pudesse de facto roubar. E ele sorria, envergonhado, por não ter palavras para dizer. Então ela, já sem sorriso, mas com olhos de desejo, pedia-lhe para fazerem amor. Ele sem palavras, beijava-a como se dissesse sim. E então, o mundo eram eles. Ele amava-a muito, ela ainda não tinha a certeza, mas ia dizendo que sim (em certos momentos as dúvidas pareciam não existir). Eram felizes, muito felizes, até um dia.

Um dia quase a perdeu, e ainda hoje tem medo que isso volte a acontecer.


ya

3.12.06

Parece-me óbvio que, por vezes, sejam necessárias certas decisões sem qualquer carga lógica. Quase sempre é preciso dar um passo atrás para dar dois em frente. Ou algo do género. Os clichés resultam sempre tão bem quando é hora de acalmar a alma. E o mais estúpido é ainda sentirmos necessidade de nos mentir. De nos enganar-mos a nós próprios. O recalcamento pode ser um processo extremamente doloroso.

Inevitavelmente acabamos todos por tentar arranjar defesas, para a perspectiva de todos, mas todos, morrermos sozinhos. Podem dar-nos a mão, mas chegado o momento vamos sozinhos. E ainda bem. Porque afinal nada poderia jamais ser igual. Mas continuamos a acreditar e a iludir-nos, porque precisamos dessa mentira, dessa ilusão para continuar. Porque a ideia de um amor para sempre, da felicidade eterna é confortável. Porque senão não vale a pena continuar, senão morremos.

Mas chega a hora e todos acabamos por recusar o que procuramos – e procuramos todos o mesmo -, o amor, a felicidade. E voltamos ao início, sozinhos, como na hora da morte. Como em todas as horas em que precisamos de sentir o toque de alguém. As palavras são merda, porque os actos nunca correspondem. Bicho estúpido e contraditório o Homem, que se mata e se vive no mesmo momento. Que precisa de se matar uma e outra vez para se cumprir a inevitável cruz da vida.


Para a #1

27.11.06

Desta vez não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim. E de certeza que esta é apenas aquela fase a que psicólogos, psiquiatras e outros que tais chamam negação. Eu só quero adiar um pouco mais o regresso a mim mesmo. Porque eventualmente o tempo ensina-nos que estamos bem sozinhos, mostra-nos que afinal não precisamos daquela pessoa a quem jurámos sem ela não sabermos viver. O tempo é o velho cliché. A vida dobra-nos, molda-nos e mostra-nos que o amanhã é só mais um dia. As tuas fotografias continuam na parede, a matar os últimos resquícios de memória. Mas também elas, como todas as outras recordações, materiais e imateriais, acabarão arquivadas num sítio qualquer só identificado pela etiqueta com o teu nome.

Desta vez ainda não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim, e como em qualquer outro fim, a história acaba assim: as fotografias na parede, as recordações a baloiçar no pensamento. Mas a vida não pára, e amanhã é só mais um dia. Não te vou esquecer, não. Não te vou esquecer. Simplesmente, não me vou lembrar.