31.3.07

Viver numa cidade pequena é como ver o mesmo filme várias vezes. Ainda que possa ter algum encanto, a história é sempre a mesma. O Adérito acabou a escola, pegou no negócio do pai. Porque nestes sítios os filhos ainda continuam a obra dos pais, e os filhos deles também. A menos que algo mude entretanto, ou o negócio vá à falência. O que é pouco provável. As pessoas estão habituadas a comprar as coisas sempre no mesmo sítio.

A Sara é filha do Dr. Soares. Provavelmente, já nem ele se lembra do próprio nome (é outra coisa destes sítios, os cargos são sobrevalorizados, ainda). O Doutor, veio para a cidade por razões familiares. A avó tinha falecido e deixado uma casa e uns terrenos. E ele voltou em nome das memórias da infância, dos verões passados no jardim da avó. A verdade é que apenas os laços nos fazem voltar a estes sítios.

O Adérito, que desde que o pai falecera era o Sr. Adérito (vá-se lá perceber a lógica destes sítios), deixou-se fascinar pela Sara na primeira vez que ela lá entrou. Tinha vinte e um anos, e ela menos três. A menina Sara pedia sempre as coisas com delicadeza e um sorriso. Agradecia sempre no fim, mandava sempre pôr na conta do senhor doutor. E quando não o fazia trocava sempre as moedas de vinte com as de cinquenta escudos. E o Adérito aproveitava, mais uns segundos, e deliciava-se de cada vez que ela se chateava com ela mesma por não conseguir acertar com as moedas. Dizia sempre obrigado e boa tarde.

Eventualmente lá se casou com uma Alzira, filha do Sr. Justino da retrosaria. Toda a gente achou que era o destino, menos o Adérito, que continuava a sonhar com a Sara que passou de ir todos os dias à mercearia para ir só aos fins de semana e depois deixou de ir de todo. O que, diga-se, lhe roubou claramente o sorriso, tornou-lhe os dias mais pesados. Já não tratava os vegetais, nem a encomenda da Dona Agustina com o mesmo empenho. Esquecia-se sempre de algo.

Hoje, muito mais velho e cansado, principalmente cansado, ainda é casado com a Alzira de quem tem dois filhos, que quando acabarem a escola seguirão as pisadas do pai. A vida está complicada e dificilmente arranjarão emprego noutro lado. O Dr. Soares morreu, o que foi um acontecimento sentido na aldeia. O Adérito foi ao funeral e não deixou de pensar na Sara um único segundo. Bem a tentou procurar por entre a multidão e nos comentários das pessoas. Perdeu a esperança. Corpo enterrado, voltou para a loja, tinha muito trabalho à espera.

As beatas da cidade que tinham como profissão ir a funerais, não paravam de entrar a sair. A pedir isto e aquilo. O Adérito cansado, a tentar chegar para todos os pedidos.

- São quatro euros e vinte.

A senhora, com a mão cheia de moedas, a hesitar quais escolher.

- Peço desculpa, ainda não me consegui habituar a estas moedas, quando finalmente consegui distinguir as de vinte das de cinquenta escudos trocaram-me as voltas.

O Adérito sorriu, muito. Pegou nas moedas, foi à caixa, fez o troco.

- Aqui tem o seu troco, menina Sara.

Os laços são a única coisa que nos fazem voltar a estes sítios.

6.1.07

Um olhar. Foi quanto bastou. Porque há olhares que dizem tudo, e dizem-no de uma só vez. E nada mais é preciso para se fazer infinito.

O teu olhar disse tudo. Prendeu-me. Agarrou-me. E como se isso não chegasse, cravaste-me à força na memória o teu beijo. O teu corpo ainda frágil do frio e do medo. O relógio a passar e a pôr peso nos ombros. O caos. A razão e a emoção a chocarem e a implodirem. E no fim, o silêncio dos destroços. O último olhar ao fechar do elevador.

E o teu olhar que foi quanto bastou. Que disse tudo, de uma só vez. O teu beijo que me cravou a memória para nunca mais esquecer. Um dia hei-de ficar e repetir infinitas vezes o infinito até que o relógio pare.

11.12.06

Ela não poderia nunca perceber aquelas lágrimas. Há coisas que são indizíveis, e outras que não se podem dizer. Ele não lhe poderia nunca explicar que as lágrimas eram apenas o resultado de uma complexa mistura de sentimentos. Mas talvez o que mais o assustava não fosse a despedida pesada, soturna, a incerteza dos minutos seguintes. As despedidas matam sem sequer matar, e quando ele se apercebeu disso pensou que talvez fosse melhor morrer, que talvez doesse menos.

Ela não poderia nunca perceber as lágrimas que caiam da sua cara, ele tampouco poderia explicar. Não lhe poderia dizer que chorava por, uma vez mais, não poder adiar o sonho de ficar. Porque para isso teria que dizer que queria ficar para sempre. Com ela. Porque para isso teria que explicar que a num determinado momento na vida se conhece outra pessoa e que, nesse preciso instante, se sabe que se vai ficar com aquela pessoa para sempre, um dia de cada vez. E ela era essa pessoa.

Porque há duas palavras com efeitos estranhos. Sempre. Nunca. E nunca lhe poderia dizer que queria ficar com ela para sempre. Porque para sempre assusta. Que ter que partir mais uma vez lhe doía como nada. Só conseguia pensar em ficar.

7.12.06

Ela tinha o dom de lhe roubar as palavras, como se fosse mesmo possível roubar as palavras a alguém. Mas ela conseguia. E fazia-o com um sorriso tão natural que ninguém acreditaria que pudesse de facto roubar. E ele sorria, envergonhado, por não ter palavras para dizer. Então ela, já sem sorriso, mas com olhos de desejo, pedia-lhe para fazerem amor. Ele sem palavras, beijava-a como se dissesse sim. E então, o mundo eram eles. Ele amava-a muito, ela ainda não tinha a certeza, mas ia dizendo que sim (em certos momentos as dúvidas pareciam não existir). Eram felizes, muito felizes, até um dia.

Um dia quase a perdeu, e ainda hoje tem medo que isso volte a acontecer.


ya

3.12.06

Parece-me óbvio que, por vezes, sejam necessárias certas decisões sem qualquer carga lógica. Quase sempre é preciso dar um passo atrás para dar dois em frente. Ou algo do género. Os clichés resultam sempre tão bem quando é hora de acalmar a alma. E o mais estúpido é ainda sentirmos necessidade de nos mentir. De nos enganar-mos a nós próprios. O recalcamento pode ser um processo extremamente doloroso.

Inevitavelmente acabamos todos por tentar arranjar defesas, para a perspectiva de todos, mas todos, morrermos sozinhos. Podem dar-nos a mão, mas chegado o momento vamos sozinhos. E ainda bem. Porque afinal nada poderia jamais ser igual. Mas continuamos a acreditar e a iludir-nos, porque precisamos dessa mentira, dessa ilusão para continuar. Porque a ideia de um amor para sempre, da felicidade eterna é confortável. Porque senão não vale a pena continuar, senão morremos.

Mas chega a hora e todos acabamos por recusar o que procuramos – e procuramos todos o mesmo -, o amor, a felicidade. E voltamos ao início, sozinhos, como na hora da morte. Como em todas as horas em que precisamos de sentir o toque de alguém. As palavras são merda, porque os actos nunca correspondem. Bicho estúpido e contraditório o Homem, que se mata e se vive no mesmo momento. Que precisa de se matar uma e outra vez para se cumprir a inevitável cruz da vida.


Para a #1

27.11.06

Desta vez não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim. E de certeza que esta é apenas aquela fase a que psicólogos, psiquiatras e outros que tais chamam negação. Eu só quero adiar um pouco mais o regresso a mim mesmo. Porque eventualmente o tempo ensina-nos que estamos bem sozinhos, mostra-nos que afinal não precisamos daquela pessoa a quem jurámos sem ela não sabermos viver. O tempo é o velho cliché. A vida dobra-nos, molda-nos e mostra-nos que o amanhã é só mais um dia. As tuas fotografias continuam na parede, a matar os últimos resquícios de memória. Mas também elas, como todas as outras recordações, materiais e imateriais, acabarão arquivadas num sítio qualquer só identificado pela etiqueta com o teu nome.

Desta vez ainda não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim, e como em qualquer outro fim, a história acaba assim: as fotografias na parede, as recordações a baloiçar no pensamento. Mas a vida não pára, e amanhã é só mais um dia. Não te vou esquecer, não. Não te vou esquecer. Simplesmente, não me vou lembrar.

15.11.06

Talvez de uma forma ou de outra tudo seja igual. A cabeça é um problema, e o amor é mesmo fodido. Não sei, talvez tenha que ser assim. A fantasia sempre melhor que a realidade. Os sonhos sempre arruinados pelo acordar. O relógio que não pára e ainda bem. A noite e o dia a repetirem-se com a exactidão de uma cópia.

E, no fim, sempre a angústia, a ansiedade, a desilusão. As expectativas nunca partilhadas. E a invisibilidade que mata. E precisar, só preciso de mim e do mundo. Mas não resisto à ilusão, sempre a mesma. A cabeça é um problema, e o amor é mesmo fodido. A consciência do fim que tudo tem. Espero que o próximo seja o meu. Penso. Arrependo-me. Porque o desejo não é de morte, é de desaparecimento. É o desejo de pensar que alguém pode sentir a minha falta. O desejo de pensar que tenho algo que só eu posso dar.

Não sei. O tempo – que não faz tic-tac, mas um tic-tic ou tac-tac, bem menos rítmico – insiste em passar. E o problema é esse. Nada muda e o tempo continua a passar. Uma cópia repetida de tudo aquilo que já passou e de que fujo. O passado é pior que o amor, muito pior. A cabeça não pára. A cabeça é um problema.

12.11.06

Agradecimento

Obrigado a todos aqueles que continuam a visitar este blog, e a comentar e a elogiar. O tempo tem sido escasso, e tenho tentado dedicar-me totalmente a um velho objectivo: cem páginas. Juntamente com todas as outras obrigações, o tempo disponível para o blog é verdadeiramente pouco. Tentarei ser um pouco mais assíduo nos próximos tempos. Porque talvez seja essa a melhor forma de agradecer a vossa fidelidade para com a minha escrita.

Muito obrigado.


Até já.

26.10.06

A campainha tocou. Odeio que me acordem de manhã, e àquela hora era demasiado de manhã. Podia matar-te, não trouxesses na mão o sorriso que sabes ser o meu preferido. Acompanhei-te à sala, pedi-te uns minutos, ainda com o cérebro demasiado ensopado em sono. Café. Banho. Talvez o banho primeiro. Tu riste-te, pegaste-me na mão e arrastaste-me para o quarto. Disseste-me que estavas ali para dormir comigo, com os meus braços a envolver o teu corpo. Tiraste a roupa, deitaste-te ao meu lado. Senti o teu calor, uma súbita harmonia a envolver-me os sentidos. Adormeci. Adormecemos.

Acordei e não estavas lá.