3.12.06

Parece-me óbvio que, por vezes, sejam necessárias certas decisões sem qualquer carga lógica. Quase sempre é preciso dar um passo atrás para dar dois em frente. Ou algo do género. Os clichés resultam sempre tão bem quando é hora de acalmar a alma. E o mais estúpido é ainda sentirmos necessidade de nos mentir. De nos enganar-mos a nós próprios. O recalcamento pode ser um processo extremamente doloroso.

Inevitavelmente acabamos todos por tentar arranjar defesas, para a perspectiva de todos, mas todos, morrermos sozinhos. Podem dar-nos a mão, mas chegado o momento vamos sozinhos. E ainda bem. Porque afinal nada poderia jamais ser igual. Mas continuamos a acreditar e a iludir-nos, porque precisamos dessa mentira, dessa ilusão para continuar. Porque a ideia de um amor para sempre, da felicidade eterna é confortável. Porque senão não vale a pena continuar, senão morremos.

Mas chega a hora e todos acabamos por recusar o que procuramos – e procuramos todos o mesmo -, o amor, a felicidade. E voltamos ao início, sozinhos, como na hora da morte. Como em todas as horas em que precisamos de sentir o toque de alguém. As palavras são merda, porque os actos nunca correspondem. Bicho estúpido e contraditório o Homem, que se mata e se vive no mesmo momento. Que precisa de se matar uma e outra vez para se cumprir a inevitável cruz da vida.


Para a #1

27.11.06

Desta vez não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim. E de certeza que esta é apenas aquela fase a que psicólogos, psiquiatras e outros que tais chamam negação. Eu só quero adiar um pouco mais o regresso a mim mesmo. Porque eventualmente o tempo ensina-nos que estamos bem sozinhos, mostra-nos que afinal não precisamos daquela pessoa a quem jurámos sem ela não sabermos viver. O tempo é o velho cliché. A vida dobra-nos, molda-nos e mostra-nos que o amanhã é só mais um dia. As tuas fotografias continuam na parede, a matar os últimos resquícios de memória. Mas também elas, como todas as outras recordações, materiais e imateriais, acabarão arquivadas num sítio qualquer só identificado pela etiqueta com o teu nome.

Desta vez ainda não apaguei todos os teus vestígios. Desta vez não. É o fim, e como em qualquer outro fim, a história acaba assim: as fotografias na parede, as recordações a baloiçar no pensamento. Mas a vida não pára, e amanhã é só mais um dia. Não te vou esquecer, não. Não te vou esquecer. Simplesmente, não me vou lembrar.

15.11.06

Talvez de uma forma ou de outra tudo seja igual. A cabeça é um problema, e o amor é mesmo fodido. Não sei, talvez tenha que ser assim. A fantasia sempre melhor que a realidade. Os sonhos sempre arruinados pelo acordar. O relógio que não pára e ainda bem. A noite e o dia a repetirem-se com a exactidão de uma cópia.

E, no fim, sempre a angústia, a ansiedade, a desilusão. As expectativas nunca partilhadas. E a invisibilidade que mata. E precisar, só preciso de mim e do mundo. Mas não resisto à ilusão, sempre a mesma. A cabeça é um problema, e o amor é mesmo fodido. A consciência do fim que tudo tem. Espero que o próximo seja o meu. Penso. Arrependo-me. Porque o desejo não é de morte, é de desaparecimento. É o desejo de pensar que alguém pode sentir a minha falta. O desejo de pensar que tenho algo que só eu posso dar.

Não sei. O tempo – que não faz tic-tac, mas um tic-tic ou tac-tac, bem menos rítmico – insiste em passar. E o problema é esse. Nada muda e o tempo continua a passar. Uma cópia repetida de tudo aquilo que já passou e de que fujo. O passado é pior que o amor, muito pior. A cabeça não pára. A cabeça é um problema.

12.11.06

Agradecimento

Obrigado a todos aqueles que continuam a visitar este blog, e a comentar e a elogiar. O tempo tem sido escasso, e tenho tentado dedicar-me totalmente a um velho objectivo: cem páginas. Juntamente com todas as outras obrigações, o tempo disponível para o blog é verdadeiramente pouco. Tentarei ser um pouco mais assíduo nos próximos tempos. Porque talvez seja essa a melhor forma de agradecer a vossa fidelidade para com a minha escrita.

Muito obrigado.


Até já.

26.10.06

A campainha tocou. Odeio que me acordem de manhã, e àquela hora era demasiado de manhã. Podia matar-te, não trouxesses na mão o sorriso que sabes ser o meu preferido. Acompanhei-te à sala, pedi-te uns minutos, ainda com o cérebro demasiado ensopado em sono. Café. Banho. Talvez o banho primeiro. Tu riste-te, pegaste-me na mão e arrastaste-me para o quarto. Disseste-me que estavas ali para dormir comigo, com os meus braços a envolver o teu corpo. Tiraste a roupa, deitaste-te ao meu lado. Senti o teu calor, uma súbita harmonia a envolver-me os sentidos. Adormeci. Adormecemos.

Acordei e não estavas lá.

24.6.06

Violino

O nosso amor é um violino. São as notas graves, sustidas. As mesmas notas suspensas à loucura. Um adágio em ritmo de allegro. O teu corpo que se revela entre os lençóis, entre cada uma das notas. É o ritmo da loucura, do violino que grita para lá da razão. Sem expectativas, sem esperanças que o teu corpo me seja devolvido, um dia, um minuto. Recordo a tua gargalhada, as tuas brincadeiras. A forma como tentavas escapar de um beijo, só para provocar.

Estranho bebermos dos lábios um do outro o amor que nunca tivemos. Somos mil histórias inacabadas que ainda não é desta que parecem terminar. A nossa história são histórias cruzadas, entrelaçadas, abraçadas. Somos um olhar nunca antes olhado. Palavras desconectadas, rabiscadas numa folha. Somos a incerteza de um sentimento estranho que parece procurar sustento, como se tudo estivesse a acontecer pela primeira vez, tragicamente pela primeira vez. Como se tudo fosse apenas o mundo à espera de ser descoberto.

Mas não, somos aquela nota do violino sustida para lá da loucura, para lá do momento. Somos o quebrar das regras do ritmo e da musicalidade, tão cientificamente estudadas. Nós não sabemos o que somos. Como se o momento nos aniquilasse. Não sou eu, nem és tu. Somos nós, só nós e só nós é que importamos. Bebemos dos lábios um do outro o amor que não temos, somos o hoje e o amanhã e mais certezas não podemos ter. somos o conforto desconfortável de não sabermos quem somos.

O nosso amor é um violino, e são as mãos que cruzamos, e a descoberta de quem somos um no outro. Somos nós, só nós, e enquanto isso o violino continua.

24.5.06

Os teus beijos sabem a sonho. Nem a mais nem a menos que a sonho, porque apenas em sonho os tenho. A tua ausência dói, uns dias mais que outros, especialmente hoje. Porque os sonhos já não chegam, porque os lábios suspiram por um beijo que se adia e parece nunca chegar. Mas pior é o corpo que não se deixa enganar e embarca num desejo que necessita execução. A cabeça é uma dependente, vai atrás.

A tua sensualidade devasta, desbasta. O teu corpo ensurdece, e os beijos somam-se, multiplicam-se, ecoam. A roupa cai entre suspiros exasperados, os corpos desejam-se mais e mais. A cabeça é uma dependente, vai atrás, a cabeça já não faz o que tem a fazer e ainda bem. Os corpos sabem, só eles sabem. E quando se unem, o meu corpo ao teu corpo, tudo faz sentido. A cabeça entende e não interfere, deixa-se ir. A cabeça é uma dependente.

A dor e o prazer confundem-se terrivelmente, por momentos pensei que nos estivéssemos a matar. Por momentos pensei que nos estivéssemos a amar. Assim ficámos, os corpos a fazer o que sabem fazer, a cabeça a ir atrás, quase sem pensar. Beijámo-nos, tocámo-nos, trocámo-nos. Os lábios a beijar o beijo há muito adiado, os corpos a saciarem-se um no outro. A respiração pesada, obstinada. Uma guerra que se trava, entre movimentos perpétuos de mãos e ancas que se tocam.

O silêncio. O meu corpo que cai para o lado, exausto, e o teu que se deixa ficar. O silêncio. O acordar. Os teus beijos que sabem a sonho, e a cabeça que aproveita o cansaço e, pela primeira vez, percebe o que é o amor. A tua ausência que dói. E este sonho que parece nunca acordar em ti.

4.5.06

Voz

Sempre vi a música como um acessório. Não me lembro de ouvir música, ponto. É sempre enquanto leio, enquanto escrevo, enquanto me deito na cama e fico a olhar para o tecto à espera que as pequenas manchas de humidade comecem a formar desenhos. Não me lembro de ouvir música, apenas ouvir. Como nos filmes, a música é apenas um acessório, algo que embala a vida, que marca o ritmo.

A Teresa, que canta adoravelmente, não foi excepção. Foi um acessório, daqueles que durante o tempo que dura o encanto abrilhantam a vida, até se tornarem banais. Vi-a pela primeira vez a cantar num bar. Cantava em francês, o que já não é habitual, e só me prendeu a atenção por esse factor. Passei o tempo em que ela esteve a cantar a tentar encaixar as palavras nos pequenos fósseis que me restam das aulas de francês do ciclo. A sonoridade dos pês e dos rês pronunciados da maneira que só os franceses sabem, encantou-me. A música nem a ouvi, não me lembro de a ouvir. Habituámo-nos demasiado ao inglês. A globalização tem destas coisas, impinge-nos o inglês e trouxe-me a Teresa.

Nasceu na Argentina, o pai – que ela visita todos os domingos – é português, a mãe era checoslovaca (quando ela nasceu ainda se chamava assim e foi ficando). Com cinco anos foi viver para França. Uma confusão demasiado confusa que, com toda a certeza, daria uma fantástica biografia. Não é todos os dias que um português e uma checoslovaca se encontram na Argentina e se apaixonam. Aliás, nunca soube pronunciar o apelido materno da Teresa da forma correcta, demasiadas vogais juntas. Felizmente o pai era português e tinha um apelido fácil de pronunciar: Lopes.

Quando acabou de cantar, desceu do palco. Misturou-se com o público. Esperei que acabassem os aplausos, que lhe oferecessem as flores. Esperei que os amigos (porque há sempre amigos no público) lhe dessem os parabéns, e pedi-lhe um autógrafo. Perguntei-lhe onde podia comprar o disco e ela disse-me que ainda não havia. Convidou-me para beber um copo, o que me poupou trabalho. Há sempre medo de ouvirmos um não quando convidamos alguém estranho.

Uma semana depois estava a viver comigo, o que eu tolerei. Tinha por hábito cantar incessantemente enquanto estava em casa, o que me poupava o trabalho de pôr um disco logo pela manhã. Gostava de a ouvir cantar pelos corredores. Passeávamos ao fim da tarde, durante o dia eu fazia o que tinha a fazer, ela cantava. De vez em quando víamos um filme. Pouco mais coincidia nas nossas vidas que o facto de habitarmos o mesmo espaço, partilharmos a mesma cama. Ela gostava de cantar, eu gostava de ouvir, era o que nos unia.

Um dia ela lançou um disco. Eu, que nunca cheguei a cansar-me de a ouvir cantar, fui assistir a mais um concerto. O bar era o mesmo em que conhecia a Teresa, mas tudo mudara entretanto. Gradualmente, o bar enchera-se de gente. Em cada concerto, às caras habituais juntavam-se caras novas.

Quando o concerto acabou, fui o primeiro a cumprimentá-la (porque há sempre amigos no público), o primeiro a comprar o disco e a pedir-lhe um autógrafo, que ela não me tinha chegado a dar. Prometi a mim mesmo que havia de o ouvir sempre ao acordar. Sempre. Ofereci-lhe uma flor, encostei a minha cabeça à dela e, segurando o disco como uma promessa, disse-lhe ao ouvido “É a última noite que passamos juntos, já tenho a tua voz”.

3.4.06

Lado a Lado

Gostavam de passear. Não davam as mãos, nem os braços, nem se abraçavam. Caminhavam lado a lado e isso era tudo. Umas vezes falavam, outras não. Ela do lado de dentro, sempre do lado de dentro do passeio. Ela nunca se apercebeu sequer disso. Se no início ele a encaminhava para esse lado, ela acabou por o fazer inconscientemente.

Caminhavam lado a lado sem direcção. Iam fazendo o caminho ao caminhar. Ela escolhia. Escolhia se viravam à esquerda ou à direita, ele ia atrás, sempre do lado de fora, sempre do lado da estrada. Ele não gostava de tomar decisões, também não achava isso assim tão importante quando estava com ela. Queria estar com ela, apenas.

Um dia sob um sol cansativo, quente e cru, ela apercebeu-se. O tempo, para ele, parou. Ela perguntou porque é que sempre que andavam juntos ele a fazia ficar do lado de dentro do passeio. Ele soçobrou, sempre tivera esperança que ela nunca chegasse a perceber. Engoliu em seco, enfrentou a realidade. Foi sincero: “Porque assim, se algum acidente houver, é a mim que acontece, assim posso proteger-te”. Ela sorriu. Ela corou.