31.1.06

Acordar

Abro a janela, sinto o frio, sinto a vida. Acendo um cigarro que é só mais um cigarro. Sem pensamentos que venham com ele e fujam com o expirar lento do fumo que se confunde com o vapor do frio. A cidade cai adormecida, embalada pela trémula luz laranja dos seus caminhos. A Sara dorme também, e não parece tão frágil assim. Não parece estar a pensar em algo que mais que não aquilo que parece fazer tão bem e que eu, por herança familiar, é raro conseguir. Mas a Sara está ali deitada e não está noutro lugar, como costuma estar. Sempre a pensar em algo mais, sempre a duvidar até das suas próprias dúvidas. A Sara está ali deitada, na minha cama que eu raramente uso, e está mesmo ali. Não está noutro sítio.

A Sara, por qualquer enviusamento da memória, faz-me lembrar a minha professora primária. Mais nova, muito mais nova e muito mais bonita. Mas com o mesmo olhar de quem pode ensinar tudo, com a mesma paciência e dedicação de quem ensina uma criança de cinco anos a ler e a escrever, e que um mais um são dois e que o primeiro rei de Portugal foi o D. Afonso Henriques. A Sara que sorri muito e nem sempre com vontade – e que até a dormir parece sorrir – ensinou-me desde cedo uma coisa: que a um dia segue-se sempre outro. O que eu ainda tentei discutir, sem realmente perceber. Disse-lhe que ao dia em que morremos não se segue mais nenhum dia. A Sara sorriu, naquele sorriso enorme, e disse “não há regra sem excepção”. Como na escola primária, um mais um são dois, sempre dois, sempre. E não há argumentos. A um dia segue-se outro, sempre outro, sempre.

Com a ponta do cigarro acendi outro, com o corpo já a tremer do frio. Com a mão desembaciei um pequeno círculo no vidro. Por entre as gotas de água que escorriam pelo vidro, como pequenos cristais vivos e coloridos pelas luzes da cidade – e não eram mais que o resultado da condensação -, deixei-me ficar a ver a Sara a dormir, porque era o único momento em que podia estar com ela, só com ela. Porque num qualquer outro momento em que não estivesse ali deitada, na minha cama que nunca usava, estaria sempre noutro lado que não comigo.

Apaguei o cigarro, porque o frio era demais. Deitei-me ao lado dela e, pela primeira vez, adormeci sem que ela acordasse primeiro. É que a Sara tinha o acordar mais bonito que alguma vez vira. Todas as pessoas são feias quando acordam, a Sara não. Tem os olhos de ternura mais ternurentos que alguma vez vi, quando acorda. A Sara acorda a sorrir.

A Sara, no único dia em que acordou e viu que eu adormecera, partiu. Tal como a minha professora primária no último dia de escola, deixou-me um bilhete que dizia “não te esqueças do que te ensinei”. A um dia segue-se sempre outro, sempre. Sempre outro dia. Mas, a partir desse dia, todos os dias pareceram o mesmo. A Sara estava errada.

16.1.06

Isabel

De histórias de amor percebo pouco ou nada. Nunca foi o meu forte. Quanto mais conheço, mais tenho a sensação de que é um mundo em que não vale a pena entrar. Não por fobia, ou dúvida ou qualquer outro motivo tão irracional quanto o medo. Acho que a sucessão de experiências me levou a dispensar a loucura de algo mais que o biológico roçar de corpos. O amor não é mais que isso, uma reacção química para disfarçar a necessidade de toque, de presença. A mim chega o som da televisão que ligo sempre que chego a casa, e que nunca vejo. A mim chegam as mulheres que consigo seduzir, e a quem explico cuidadosamente que não posso oferecer mais do que o meu corpo.

Aceitam sempre, pelo menos no momento, aceitam sempre. Depois desaparecem revoltadas, raivosas como se não tivessem na realidade aceite o corpo que as satisfez. Como se não padecessem da mesma necessidade que eu, como se os seus corpos não lhes pedissem o mesmo que o meu. Quando acordo já lá não estão, o que até agradeço. De manhã sou rabugento, e em casa prefiro a televisão a uma mulher.

A Isabel foi diferente, recusou-me o corpo. Assim me puxou para ela. Olhos redondos, grandes. Seios perfeitos, do tamanho da mão. A alvura da pele a contrastar com o colorido das roupas. A Isabel sorria enquanto me falava de amor. Por educação deixei-a acabar. Como a todas as outras expliquei os meus termos. Que era só o corpo e nada mais. Que se quisesse podia ir embora. Sem dúvida, uma conversa demasiado séria para duas pessoas terem deitadas numa cama, com a pouca roupa que ainda têm vestida a pedir para sair.

Porque o corpo suplicava, e não a cabeça (nunca a cabeça), pedi-lhe que ficasse, que fosse embora só de manhã. Com os olhos maiores do que nunca disse-me que ficava, mas que não me dava o corpo. Disse que dormia ao meu lado, que me iria fazer o pequeno-almoço.

– De manhã, só bebo café. por favor não fiques.

– Será o melhor café que já bebeste.

Com isto, abriu o armário, mexeu nas minhas coisas – o que eu procurei ignorar – e escolheu uma camisa minha para se tapar. Talvez para me obrigar a não pensar no seu corpo com o qual continuei a imaginar. Desligou a televisão, que eu voltei a ligar logo depois. Voltou a desligar e eu voltei a ligar, repetição que se repetiu até concordarmos em que ficaria ligada sem som. Disse-me boa noite, sem beijo, e adormeceu, como se toda a vida tivesse dormido ao meu lado. Depois de muitas voltas lá consegui adormecer também, o corpo pedia-me aquilo que a Isabel não me iria dar.

O café, reconheci a contra-gosto, estava bom. Ainda assim, durante as duas primeiras horas nada disse, sentei-me em frente à televisão, bebi o café que realmente estava óptimo e fumei vários cigarros, sem ter ainda lucidez para os contar. Nesse tempo, a Isabel arrumou a casa que estava organizadamente desarrumada. Nunca tive empregada pela violação de privacidade que implica ter alguém a arrumar as minhas coisas. Tenho muitas insónias e as limpezas dão-me sono. Mando lavar e engomar a minha roupa fora, longe de casa. Não gosto que mexam nas minhas coisas, e ao contrário da camisa, desta vez não consegui ignorar. Levantei-me, atravessei o corredor em passo acelerado, pesado, que a Isabel não ouviu por estar a cantar enquanto limpava o pó de uma estante carregada de livros que eu cuidadosamente desarrumara. Entrei no quarto, hesitei.

– Porque fazes isto? – explodi revoltado, raivoso.

– Porque gosto de ti.

Assim, a Isabel, que me recusou o corpo, destruiu-me a Razão.

10.1.06

A culpa é da falta de tempo...

1.12.05

#1

Numas escadas de Paris, ou noutra qualquer rua que o êxtase não permitiu identificar. Foram cigarros atrás de cigarros, como se o mundo estivesse para acabar e tudo o que ainda houvesse fossem cigarros e cinzeiros a transbordar. Como se só o sonho da tua mão sobre a minha me fizesse adormecer. Como se o toque do teu sorriso sobre o meu corpo me sustentasse. Pedi-te só mais um pouco e tu disseste que não que Paris não podia esperar por ti. Acabaste por ficar e nem precisaste de muito tempo para que a despedida e um pronuncio de saudade me consumisse. Então convidaste-me a ir contigo e renasci esperançado.

Durante uma semana, vimos museus e exposições de arte, que eu não compreendia. Mas que tu, pacientemente, me explicavas quase quadro a quadro. Esqueci a saudade, a despedida antecipada. Numas escadas de Paris, trocámos segredos cúmplices. Olhos azuis envoltos em cabelos longos e um sorriso de menina a encher todo o rosto. Paris foi a minha morte, porque eventualmente acabaram os museus, as exposições e as ruas todas calcadas a passo rápido de quem não deveria ter pressa. Paris foi a minha morte.

Eventualmente, reconheci um quadro que me desiludiu, e que tu não me quiseste explicar. Disseste-me que era hora de eu partir, que tinhas que conquistar Paris sozinha. Deixaste-me no aeroporto para apanhar o primeiro voo de volta a casa, que apenas partia no dia seguinte. Despediste-te fugazmente como quem tem o mundo à espera de ser conquistado. Partiste no teu passo seguro que arrasta olhares. Naquela última noite, perdi-me numas escadas de Paris, ou noutra qualquer rua que a morte não permitiu identificar. Foram cigarros atrás de cigarros, cinzeiros a transbordar. Foi um quadro incompreensível que nunca ninguém soube explicar.

28.11.05

P = 0

Reuniu todos os dados, pegou na calculadora e, durante dias, rodeou-se de números e contas e equações. Adorava matemática, em especial o cálculo de probabilidades. Dizia que era o mais próximo que se podia chegar da prestidigitação. Cálculo após cálculo. Correlou teorias, variáveis. Zero. P sempre igual a zero. P = 0. P = Nunca. Os números não mentem, não enganam, nem tampouco conhecem a ironia. Nada houve a fazer. A Matemática nunca erra. A Matemática traçou, com precisão científica, o nosso destino. Nunca. Sem argumentação possível.

Então, porque para ela os números eram tudo, entregou-se a eles, deixou que os cálculos precisos e exactos orientassem a sua vida. Respondia com percentagens às propostas que lhe apresentavam. Nunca dizia sim ou não, respondia em probabilidades. E a nós zero. Sempre zero. Então pedi-te que recalculasses, que juntasses as variáveis da emoção. Acrescentei: o mundo é feito de impossibilidades. Tu sorriste e lançaste-te sobre a calculadora que não mentia. Adicionaste as variáveis a pedido. Mesmo assim P = 0 = nunca. Levantaste-te, desligaste a calculadora, disseste lamento, os números não mentem.

Atravessaste a sala, deixando para trás a mesa repleta de papéis preenchidos com fórmulas matemáticas, e duas ou três calculadoras. Vinhas na minha direcção quando te vi sorrir, acho que pela primeira vez te vi sorrir. Beijaste-me e voltaste a sorrir. Puseste de lado a calculadora e os números. Passaste a responder com uma incerta precisão que nem os números conseguem calcular. Descobriste nas artes uma aventura muito mais fascinante e passaste a acreditar na astrologia.

17.11.05

Sempre achei complicado perceber o que a Luísa queria realmente dizer com certas coisas. Acho que muitas dessas coisas dizia só por dizer, ou porque lhe parecia algo inteligente de ser dito. Há frases que parecem encaixar perfeitamente em certas situações, mesmo que não queiram dizer absolutamente nada. A Luísa sempre cultivou aquela postura de intelectual – tão típica dos esquerdistas – que nunca era mais do que pseudo. Contudo, essa postura garantia-lhe o acesso a certos circuitos sociais que, desde adolescente, ambicionava frequentar.

Magnetizava-se facilmente a escritores, sem que soubesse escrever mais que um recado ou um post-it. Porém, os escultores eram a sua assolapada – e assumida – paixão. São as mãos que criam, que moldam, percebes? – e eu não percebia, afinal todas as artes surgem das mãos. Mãos que escrevem, que seguram o pincel, que seguram o martelo e o escopro. Não, nunca percebi a sensualidade de bater com um martelo num escopro, que não é mais que um prego grande, e arrancar bocados de pedra. Se me falasse do traço de um desenho, das pinceladas numa tela, do ritmo de um poema, talvez conseguisse chegar a compreender. Não, não gosto de escultura.

A Luísa que se inscreveu num curso de escultura, moldou a partir de barro uma incrível variedade de cinzeiros e taças que ofereceu aos amigos como conquistas. Disfarçava a falta de jeito com óculos de massa e adjectivando a suas esculturas de naif. Pseudo no meio de pseudos, sabia mexer-se e melhor ainda jogava os seus trunfos. A Luísa não era nada, nem escultura, nem artista. Gostava de arte, e era tudo.

Mais tarde descobriu que gostava de fingir e dedicou-se ao teatro, tendo o mesmo sucesso que na escultura. Os amigos todos adoraram as peças, as de barro e as de teatro. Ela sabia disso, mas fingia que não. Ela sabia disso, e um dia não conseguiu fingir mais. Nesse mesmo dia, a Luísa telefonou e pediu-me que a fosse buscar e que a levasse para qualquer lado e que a amasse e que fugíssemos dali para fora, para longe de tudo, dos pseudo-amigos, das pseudo-artes. Às sete horas fui buscar a Luísa que tentava disfarçar que tinha passado as últimas horas a chorar. Entrou no carro, segurou-me a mão e disse por favor não digas nada. E eu não disse, limitei-me a conduzir.

A Luísa tem apenas um defeito, é tão bonita que dói. A ela, mas principalmente a mim, que me deixei arrastar para longe de tudo. Principalmente a mim quando descobri que apenas eu não fingia.

8.11.05

Não se afastavam mais do que um antebraço de distância. Como se os seus corpos nus os envergonhassem. Assim, bem juntos, não havia espaço para observar muito mais que os olhos, talvez o resto da face. Nada mais conseguiam ver um do outro.

Faziam amor muito juntos, ele por cima dela, sempre ele por cima dela. Cada vez que ele se tentava levantar mais um pouco ela segurava-o. Ele aceitava, sabia que cada uma dessas tentativas não era fruto de uma distracção momentânea causada pelo prazer. Ela perdoava todas essas tentativas.

Ela raramente se vinha. Nas duas ou três vezes em que se deixava levar pelo prazer mantinha o silêncio o mais que podia, que conseguia. Como se o seu corpo manifestando prazer também a envergonhasse.

Quando ele se vinha, saía de cima dela, deitava-se ao lado, de costas para ela e só mudava de posição depois de ela sair pelo outro lado da cama e a ouvia fechar-se na casa de banho. Vestia-se apenas quando ouvia o chuveiro correr. Quando ela voltava já ele dormia. Ela demorava sempre mais um pouco que o necessário para não correr o risco de ele ainda estar acordado.

Deitava-se, e deixava-se ficar um pouco acordada. Pousava um livro aberto sobre a barriga para o caso de ele acordar, e punha-se a sonhar. Com outro corpo que não o dela, com outro homem que não aquele, com um gemido de sincero prazer…

28.10.05

Mónica

Estes dias assim trazem-me sempre recordações da Mónica, que usava óculos e eu sempre lhe disse que era por ler demasiado. Só deixámos de nos ver porque ela me trocou por um livro de um escritor italiano que ela jurava a pés juntos ser fantástico, e que não conseguia parar de ler. A Mónica, que tinha sido criada pelos avós, tivera desde pequena uma paixão assolapada pelo seu avô. Júlio era o seu nome e tinha uma divisão da casa a que chamava biblioteca, sem que esse compartimento tivesse mais elegância que uma dispensa de livros em que o pó se acumula, e que não lera nem metade deles. Tinha uma cultura excepcional, obviamente não sabia tudo, mas sempre que era confrontado com algo novo fazia questão de investigar. Os únicos livros que leu com verdadeiro gosto foram os volumes da enciclopédia: não tinha paciência para ler histórias, e não encontrava qualquer fonte de sabedoria nisso.

A Mónica prometera a si mesma saber, pelo menos, tanto como o avô, e fazia-o da forma que o Avô Júlio nunca fizera: lendo compulsivamente livro atrás de livro. Lia de tal forma que se esquecia do mundo, e de mim também – mas não foi por isso que deixámos de nos ver. Muitas vezes estávamos na mesma sala, sempre da casa dela, com a chuva a bater nas janelas, e ela lia, lia, lia e eu via televisão, via, via. Não falávamos, porque outro problema que a Mónica tinha era perder-se facilmente na leitura. Tinha dificuldades em decorar os nomes das personagens e as relações entre elas – não só nos livros, mas em tudo -, mas insistia em ler aqueles escritores hispano-americanos demasiado confusos e entediantes. Então eu entretinha-me a ver televisão, ou a ouvir a música que a Mónica estivesse a ouvir, lia uma ou outra revistas e fotografava-a. No início ficava irritada, mas depois aprendeu a ignorar. Se maior parte das fotografias eram meros instantâneos de roupão e cabelo despenteado, ainda consegui uma meia dúzia de fotos dignas.

A certa altura, a televisão já não dava nada que prestasse, a colecção de discos dela já havia passado completa pelo menos três vezes, as revistas nada traziam de novo, e as fotografias, essas, não podem evoluir muito se a modelo insiste em ficar estática, deitada no sofá de roupão (ou roupa interior no Verão). Um dia levei um amigo, abrimos uma garrafa de whisky e embebedamo-nos terrivelmente. A Mónica continuou a ler. Levei uma amiga com quem fingi intimidade e ainda outra com quem tive intimidade. Ao fim de quatro ou cinco beijos a Mónica mudou a página e fingiu que não olhou, mas continuou a ler, não tinha tempo a perder se queria cumprir a promessa.

Um dia, quando me despedi do último convidado de uma festa que havia organizado em casa dela, ela pousou o livro que entretanto havia acabado, levantou-se do sofá e abraçou-me pela primeira vez. Amámo-nos no mesmo sofá em que ela lia e eu a fotografava. Acendi um cigarro e ela disse-me que talvez fosse melhor não nos vermos mais, como antes mo havia dito várias vezes. Vesti-me, fui para me despedir, mas já tinha começado a ler um qualquer outro livro. Fui embora. No dia seguinte telefonei-lhe, como sempre fazia de cada vez que a Mónica me dizia que não me queria ver mais, e desta vez atendeu: disse que não podia falar, que estava a ler um livro de um escritor italiano que jurava ser fantástico, e que não conseguia parar de ler. Não voltei a tentar. Trouxe comigo as fotografias, sem que alguma vez tenha revelado os rolos.

23.10.05

Luna Azul

A Dona Isabel, que insiste em ser tratada apenas por Isabel, intrigou-me logo no primeiro contacto sem que conseguisse perceber porquê. A Dona Isabel, que não consigo tratar apenas por Isabel, conquistou o meu respeito ao contra-argumentar as minhas rápidas impressões sobre aquela cidade estranha. Revelou-se uma encantadora e humilde conversadora. Disse-lhe que encontrara bastante desenvolvimento na cidade desde a minha última visita. Contestou: “Acha?”, com uma cortesia quase desarmante. Argumentei, ela contra-argumentou e sugeriu o café com laranja. Acabei por optar pelo café cigano que alguém me havia sugerido. Eventualmente, acabei por perceber que a Dona Isabel, melhor que ninguém, conhecia os seus cafés. As suas sugestões revelaram-se deliciosas combinações de café, algumas tão simples como um fantástico mazagrã. Ao longo dos dias, deixei-me perfumar com os aromas do café e do chocolate, todos feitos pela própria.

A Dona Isabel, uma Mulher assim não pode ser só Isabel, fugiu ao Destino. É, provavelmente, a única pessoa que conheço que de facto o conseguiu. Ainda que no caso dela seja incerto se foi uma conquista ou uma rendição. Passa os dias numa das duas salas, da estufa, a que chama escritório. A outra está cheia de plantas que ela cria. É este o mundo dela. É este o mundo que ela escolheu para recomeçar a vida. É entre café, chocolate, flores e dois dedos de conversa com os clientes, nunca mais que isso para não incomodar a privacidade de cada um.

A Dona Isabel, jamais Isabel, correu o mundo, conheceu o longe e o perto. De todos os sabores escolheu o café e o chocolate. O doce e o amargo. Aprendeu a escolhê-lo, a combinar os diferentes lotes. Hoje tem a sua própria mistura, alcançada após muitas experiências e estudo também. Aprendeu a transformar o cacau em chocolate e fá-lo divinalmente. No meio disto tudo ainda tem tempo para pintar, para criar as suas plantas e fazer arranjos florais que quase falam. E ela podia ser tudo, podia mandar naquele país, podia escrever a sua vida, vendê-la e ficar rica, podia ser excêntrica. Mas não. A Dona Isabel escolheu viver para ela. Deixou a política, o mundo, e dedicou-se a si mesma. Agora é feliz. Verdadeiramente feliz. Descobriu-se a si mesma e entre um café e uma taça de chocolate, dá duas pinceladas e cheira uma flor. Cumprimenta sempre os clientes e fala um pouco, mas não mais do que o necessário porque não se sente no direito de interromper o café de ninguém. Passa os dias no seu Luna Azul e é feliz. Podia ser tudo mas foi isto que escolheu. Fugiu ao destino: não entrou num avião em que devia ter entrado e que acabou por se despenhar.

Fecho o livro, pago a conta. Passo pelo escritório da Dona Isabel e digo até amanhã. Ela agradece, quando deveria ser eu a fazê-lo.