23.10.05

Luna Azul

A Dona Isabel, que insiste em ser tratada apenas por Isabel, intrigou-me logo no primeiro contacto sem que conseguisse perceber porquê. A Dona Isabel, que não consigo tratar apenas por Isabel, conquistou o meu respeito ao contra-argumentar as minhas rápidas impressões sobre aquela cidade estranha. Revelou-se uma encantadora e humilde conversadora. Disse-lhe que encontrara bastante desenvolvimento na cidade desde a minha última visita. Contestou: “Acha?”, com uma cortesia quase desarmante. Argumentei, ela contra-argumentou e sugeriu o café com laranja. Acabei por optar pelo café cigano que alguém me havia sugerido. Eventualmente, acabei por perceber que a Dona Isabel, melhor que ninguém, conhecia os seus cafés. As suas sugestões revelaram-se deliciosas combinações de café, algumas tão simples como um fantástico mazagrã. Ao longo dos dias, deixei-me perfumar com os aromas do café e do chocolate, todos feitos pela própria.

A Dona Isabel, uma Mulher assim não pode ser só Isabel, fugiu ao Destino. É, provavelmente, a única pessoa que conheço que de facto o conseguiu. Ainda que no caso dela seja incerto se foi uma conquista ou uma rendição. Passa os dias numa das duas salas, da estufa, a que chama escritório. A outra está cheia de plantas que ela cria. É este o mundo dela. É este o mundo que ela escolheu para recomeçar a vida. É entre café, chocolate, flores e dois dedos de conversa com os clientes, nunca mais que isso para não incomodar a privacidade de cada um.

A Dona Isabel, jamais Isabel, correu o mundo, conheceu o longe e o perto. De todos os sabores escolheu o café e o chocolate. O doce e o amargo. Aprendeu a escolhê-lo, a combinar os diferentes lotes. Hoje tem a sua própria mistura, alcançada após muitas experiências e estudo também. Aprendeu a transformar o cacau em chocolate e fá-lo divinalmente. No meio disto tudo ainda tem tempo para pintar, para criar as suas plantas e fazer arranjos florais que quase falam. E ela podia ser tudo, podia mandar naquele país, podia escrever a sua vida, vendê-la e ficar rica, podia ser excêntrica. Mas não. A Dona Isabel escolheu viver para ela. Deixou a política, o mundo, e dedicou-se a si mesma. Agora é feliz. Verdadeiramente feliz. Descobriu-se a si mesma e entre um café e uma taça de chocolate, dá duas pinceladas e cheira uma flor. Cumprimenta sempre os clientes e fala um pouco, mas não mais do que o necessário porque não se sente no direito de interromper o café de ninguém. Passa os dias no seu Luna Azul e é feliz. Podia ser tudo mas foi isto que escolheu. Fugiu ao destino: não entrou num avião em que devia ter entrado e que acabou por se despenhar.

Fecho o livro, pago a conta. Passo pelo escritório da Dona Isabel e digo até amanhã. Ela agradece, quando deveria ser eu a fazê-lo.

19.10.05

Gosto do café doce, o mais doce possível. Talvez porque não goste de café, como não gosto de coisas demasiado reais. Mas preciso de cafeína, mantém os sentidos despertos, exagera a dor. Bebo cinco cafés por dia, mas só nos dias em que não bebo mais. Deixei de me preocupar com a saúde no dia em que te conheci. Na verdade, deixei de me preocupar com tudo o que não estivesse de alguma forma relacionado contigo. Foi o que me valeu.

Se não tivesses sido tu, ou melhor, se não tivesse sido o facto de me perder completamente em ti, tinha-me desmoronado. Porque a culpa aqui será sempre minha, fui eu que me deixei cair em tentação, fui eu que rejeitei a realidade. Tu não chegaste a aperceber-te de nada, o que também foi bom para mim. Assim, apenas bebia café (com muito açúcar) contigo e com tudo o mais imaginário possível.

Gostava de te ter tido. Apenas para poder sentir, na pele, a dor de te perder. À qual juntaria seis, sete, ou mesmo oito cafés por dia. Não quereria perder pitada de algo capaz de me matar. Se só imaginar quase mata…

Não te tive, o que acabou também por ser dor. Mas uma dor menor, mais rápida. Não se gosta (ou não gosta) de algo que nunca se provou. Mesmo assim, tenho a certeza que iria gostar. Eu iria gostar tanto de ti que haveria de querer sempre provar um pouco mais de ti em cada dia. Descobrir o travo a algo diferente em cada momento. Esta dor não é nada. A outra sim, seria capaz de me matar. O que talvez fosse melhor. Vale-me a recordação que começa desvanecer-se com o tempo e as pessoas que quase já não me falam de ti.

Correu tudo pelo melhor. Acabo o resto do açúcar com café que trouxe de casa num termo. Digo-te: “Adeus. Até já, meu amor”. Ajeito as flores na campa. Acendo um cigarro e inicio o caminho de volta a casa.

18.10.05

dias que correm...

talvez possamos começar de novo...

4.3.04

conto os comprimidos, um a um, soporíferos e afins. rastejo pela casa em busca de uma corda suficientemente forte. caso tudo isso falhe retiro do velho baú um punhal que deixo pousado na mesa de cabeceira mesmo ao lado do livro que não vou acabar de ler. faço um último telefonema. escrevo umas últimas palavras no excesso trágico de um fim de uma vida sofrida. mas não é isso. nada disso. como me farto de tudo o resto, fartei-me também de viver. dormir, sonhar, acordar, mais um dia, sempre mais um dia igual aos outros... este é o último... só o teu amor me ressuscitaria...

amo-te... são as últimas palavras que consigo escrever num último momento de romantismo exarcebado...

3.3.04

tenho frio. tremo. transpiro. ainda que com muita dificuldade, respiro. estou doente. parece que vou morrer. olho-me ao espelho e vejo uma sombra branca do meu rosto. no delírio febril vejo cores brilhantes de combinações de milhares de arco-íris. vejo um sorriso que brilha na escuridão quase impenetrável desta noite que sei que será mais uma em que não conseguirei dormir... apesar dos muitos comprimidos...

estou doente da alma...

2.3.04

se eu quero estar contigo e tu queres estar comigo porquê continuar este jogo? porquê que não ficamos os dois simplesmente lado a lado, porque não nos abraçamos e beijamos e amamos, porquê? porquê continuar este jogo de gato e rato? porque a sedução não é mais que jogar às escondidas sentimentais...

odeio estes jogos ridículos em que sou obrigado a fingir que não te quero, que sou obrigado a dar passos em frente e atrás. para quê conquistar-te se já te conquistei? para quê convencer-te de que te desejo se já o sabes... enfim... não sei que mais dizer... que mais te dizer... estou aqui e sou teu, mesmo que não me queiras conquistar...

odeio saber o fim antes do fim...

29.2.04

as coisas têm sempre uma solução simples... complico sempre... procuro o paraíse em ilhas desertas longínquas quando ele está ao alcance da mão. procuro saídas em paredes sem portas. evito o mar por causa dos monstros que sei que não existem mas que temo ainda assim. se eu soubesse gritar...

se soubesse... era livre... voava num sussurro de uma qualquer voz que ouvisse. escolhi a loucura, sim, escolhi, e na escolha descobri a liberdade. o poder de dizer sim ou dizer não. o poder de me esquivar do destino se tal coisa existir. escolhi o mundo do que não existe, escolhi a sedução. escolhi viver quando é mais fácil morrer, quando é mais fácil ficar sentado em frente ao rio esperando que a corrente mude de sentido. escolhi a vida sem a certeza do que isso possa significar...

28.2.04

sinto demasiado a tua falta...

27.2.04

não consigo quebrar este silêncio que deixaste para trás. na cara um sorriso que não consigo descolar. tenho medo de falar. tenho medo de escrever. tenho medo de pensar e deixar de sentir o toque dos teus lábios sobre os meus. o toque do teu corpo contra o meu. tenho agora um sonho que não quero perder. tive-te a ti e tive-me a mim de volta e tive nos meus braços a areia que resiste à fúria do mar, e o relampâgo que ofusca o luar.

tive-te a ti, nos meus braços, e não te quis largar. mas tu disseste tenho que ir. beijaste-me uma última vez e sorriste. disseste até amanhã. quando já ias embora ainda olhaste para trás e eu sorri-te, porque não conseguia senão sorrir. fechei a porta. desde então repito na memória a recordação daquele beijo. vezes e vezes e vezes sem conta para ter a certeza que não me foge. o silêncio foi inevitável. o teu cheiro ainda se sente. o teu sabor ainda me sobra na boca.

anseio pelo teu amor...