19.10.05

Gosto do café doce, o mais doce possível. Talvez porque não goste de café, como não gosto de coisas demasiado reais. Mas preciso de cafeína, mantém os sentidos despertos, exagera a dor. Bebo cinco cafés por dia, mas só nos dias em que não bebo mais. Deixei de me preocupar com a saúde no dia em que te conheci. Na verdade, deixei de me preocupar com tudo o que não estivesse de alguma forma relacionado contigo. Foi o que me valeu.

Se não tivesses sido tu, ou melhor, se não tivesse sido o facto de me perder completamente em ti, tinha-me desmoronado. Porque a culpa aqui será sempre minha, fui eu que me deixei cair em tentação, fui eu que rejeitei a realidade. Tu não chegaste a aperceber-te de nada, o que também foi bom para mim. Assim, apenas bebia café (com muito açúcar) contigo e com tudo o mais imaginário possível.

Gostava de te ter tido. Apenas para poder sentir, na pele, a dor de te perder. À qual juntaria seis, sete, ou mesmo oito cafés por dia. Não quereria perder pitada de algo capaz de me matar. Se só imaginar quase mata…

Não te tive, o que acabou também por ser dor. Mas uma dor menor, mais rápida. Não se gosta (ou não gosta) de algo que nunca se provou. Mesmo assim, tenho a certeza que iria gostar. Eu iria gostar tanto de ti que haveria de querer sempre provar um pouco mais de ti em cada dia. Descobrir o travo a algo diferente em cada momento. Esta dor não é nada. A outra sim, seria capaz de me matar. O que talvez fosse melhor. Vale-me a recordação que começa desvanecer-se com o tempo e as pessoas que quase já não me falam de ti.

Correu tudo pelo melhor. Acabo o resto do açúcar com café que trouxe de casa num termo. Digo-te: “Adeus. Até já, meu amor”. Ajeito as flores na campa. Acendo um cigarro e inicio o caminho de volta a casa.

18.10.05

dias que correm...

talvez possamos começar de novo...

4.3.04

conto os comprimidos, um a um, soporíferos e afins. rastejo pela casa em busca de uma corda suficientemente forte. caso tudo isso falhe retiro do velho baú um punhal que deixo pousado na mesa de cabeceira mesmo ao lado do livro que não vou acabar de ler. faço um último telefonema. escrevo umas últimas palavras no excesso trágico de um fim de uma vida sofrida. mas não é isso. nada disso. como me farto de tudo o resto, fartei-me também de viver. dormir, sonhar, acordar, mais um dia, sempre mais um dia igual aos outros... este é o último... só o teu amor me ressuscitaria...

amo-te... são as últimas palavras que consigo escrever num último momento de romantismo exarcebado...

3.3.04

tenho frio. tremo. transpiro. ainda que com muita dificuldade, respiro. estou doente. parece que vou morrer. olho-me ao espelho e vejo uma sombra branca do meu rosto. no delírio febril vejo cores brilhantes de combinações de milhares de arco-íris. vejo um sorriso que brilha na escuridão quase impenetrável desta noite que sei que será mais uma em que não conseguirei dormir... apesar dos muitos comprimidos...

estou doente da alma...

2.3.04

se eu quero estar contigo e tu queres estar comigo porquê continuar este jogo? porquê que não ficamos os dois simplesmente lado a lado, porque não nos abraçamos e beijamos e amamos, porquê? porquê continuar este jogo de gato e rato? porque a sedução não é mais que jogar às escondidas sentimentais...

odeio estes jogos ridículos em que sou obrigado a fingir que não te quero, que sou obrigado a dar passos em frente e atrás. para quê conquistar-te se já te conquistei? para quê convencer-te de que te desejo se já o sabes... enfim... não sei que mais dizer... que mais te dizer... estou aqui e sou teu, mesmo que não me queiras conquistar...

odeio saber o fim antes do fim...

29.2.04

as coisas têm sempre uma solução simples... complico sempre... procuro o paraíse em ilhas desertas longínquas quando ele está ao alcance da mão. procuro saídas em paredes sem portas. evito o mar por causa dos monstros que sei que não existem mas que temo ainda assim. se eu soubesse gritar...

se soubesse... era livre... voava num sussurro de uma qualquer voz que ouvisse. escolhi a loucura, sim, escolhi, e na escolha descobri a liberdade. o poder de dizer sim ou dizer não. o poder de me esquivar do destino se tal coisa existir. escolhi o mundo do que não existe, escolhi a sedução. escolhi viver quando é mais fácil morrer, quando é mais fácil ficar sentado em frente ao rio esperando que a corrente mude de sentido. escolhi a vida sem a certeza do que isso possa significar...

28.2.04

sinto demasiado a tua falta...

27.2.04

não consigo quebrar este silêncio que deixaste para trás. na cara um sorriso que não consigo descolar. tenho medo de falar. tenho medo de escrever. tenho medo de pensar e deixar de sentir o toque dos teus lábios sobre os meus. o toque do teu corpo contra o meu. tenho agora um sonho que não quero perder. tive-te a ti e tive-me a mim de volta e tive nos meus braços a areia que resiste à fúria do mar, e o relampâgo que ofusca o luar.

tive-te a ti, nos meus braços, e não te quis largar. mas tu disseste tenho que ir. beijaste-me uma última vez e sorriste. disseste até amanhã. quando já ias embora ainda olhaste para trás e eu sorri-te, porque não conseguia senão sorrir. fechei a porta. desde então repito na memória a recordação daquele beijo. vezes e vezes e vezes sem conta para ter a certeza que não me foge. o silêncio foi inevitável. o teu cheiro ainda se sente. o teu sabor ainda me sobra na boca.

anseio pelo teu amor...

26.2.04

gostava que soubesses que, neste preciso momento, estou a pensar em ti. escrevo para ti. porque gostava que estivesses aqui a sussurar-me ao ouvido estas palavras que vou delineando. porque estar contigo é sentir-me vivo. o som do teu riso enche-me de uma sensação abstracta que eu penso ser felicidade, que só pode ser felicidade. porque a cada instante anseio pelo suave toque da tua mão sobre a minha, dos teus dedos entrelaçados nos meus. porque o teu corpo me enche de desejo. porque tu me completas e me fazes sorrir. tens esse dom. gostava que soubesses que agora me vou deitar pensando apenas em voltar a ter-te por perto. gostava que soubesses isto... gostava que, neste momento, também pensasses em mim...

anseio pelo teu beijo...