20.2.04

agora que tudo acalmou as coisas parecem diferentes, mais óbvias. as dúvidas desfeitas. tenho, agora, a certeza que o que mais odeio em mim é gostar de ti...

19.2.04

hoje, quero que o mundo se foda. sim, que se foda. não quero que o mundo se lixe, não quero que o mundo se enxergue em merda. quero que o mundo se F-O-D-A! estou farto de manter a calma. estou farto de perder sempre. estou farto! farto! farto! farto! farto de não ser respeitado, farto de amar e não ser amado. farto de gritar e ninguém ouvir. farto de em cada momento que estou contigo te querer beijar e não poder. farto de esperar por algo que não vai chegar nunca. farto de pensar. farto de ver o futuro e só ver a minha morte. ESTOU FARTO, FODA-SE! FARTO!

estou farto de não te ter... acabou... tem que acabar... tem que acabar aquilo que nunca começou...

18.2.04

a noite invadiu o quarto ao acordar. no prédio em frente, as luzes vão-se acendendo aos poucos, o reboliço da rua passa para dentro das casas. acendo também a luz sabendo que ninguém repara. desfolheio um jornal já antigo com a certeza que hoje o mundo continua igual porque assim é desde que existem homens. penso em mim através de ti. penso em ti e no momento que nunca chega.

estou contigo e o momento não chega nunca. o momento em que te ponho a mão na perna e suavemente te entregas. o momento em que te olho e tu me pedes beija-me. o momento em que aquele amor que parece não chegar nunca chega. e naqueles momentos entre as luzes do prédio em frente se começarem a apagar e o dia invadir o quarto ao adormecer abraçar-te. e no instante precisamente antes de te entregares ao sono dizer-te baixinho gostava que este momento durasse para sempre. e só então fechar os olhos e adormecer. para sempre...

17.2.04

o que é que eu acho da vida? não sei, sinceramente nunca pensei demasiado sobre isso. por vezes parece-me sem sentido, demasiado repetitiva. independentemente do que se se possa fazer para a condimentar, a partir de determinado momento a vida torna-se igual em cada instante. o dia de hoje igual ao de ontem e ao de amanhã. mudam pequenos detalhes e pouco mais que isso, a alma é sempre a mesma.

a partir de certa altura fartamo-nos até mesmo de nós, e disso não podemos fugir nunca. é a nós que vemos ao espelho, é a nossa voz que ouvimos, é com os nossos olhos que vemos o mundo. sempre nós. fartamo-nos também do nosso corpo que com o tempo vai envelhecendo e mesmo assim é sempre o mesmo.

talvez seja apenas eu... talvez tudo sejam ilusões, sonhos em que vivo para desviar o pensamento da realidade quotidiana, não sei... talvez seja apenas eu...

qual era mesmo a pergunta? o que acho da vida? não sei, sinceramente, não sei, nunca pensei demasiado sobre isso...

16.2.04

bebo o café como bebo a vida, de um trago só para o amargo ser menor. penso na carta que te escrevi e nunca chegaste a ler porque nunca cheguei a mandar. não sei se consigo perdoar. a ti e a mim. não sei se ainda te amo. não quero recordar as discussões demasiado acesas. as acções demasiado pesadas. o amor e o orgulho. a dor de saber que te estava a perder. fui aos correios e voltei para casa e queimei a carta. não pensei mais em ti, até agora.

hoje, ao abrir uma gaveta, encontrei as cartas que trocávamos. comecei a escrever-te uma carta que não acabei. talvez voltes um dia e a acabes. ficaste no pensamento mesmo que agora seja tudo diferente. não te esqueço, não sou capaz, não quero. sei que se pudesse voltar a ver-te pela primeira vez, como se todo aquele passado não existisse, como se as formas do teu corpo e do teu olhar não ressuscitassem algo que já não existe. se pudesse apagar o passado, sem dúvida, amar-te-ia de novo...

14.2.04

sentei-me e pedi mais um copo. não reparei que o mundo se abate sobre mim. que as portas se fecham e que a vida passa por mim e que eu vejo isso como algo positivo. porquê decidir se o tempo pode decidir por mim? porquê caminhar se posso ficar à espera que as coisas venham até mim enquanto bebo mais um copo.

mas hoje vi-te e procurei-te. imaginei uma flor que te ofereci e conquistei-te um sorriso. trocámos umas palavras. inconclusivas. como todos os diálogos mantidos por dois estranhos, como nós, a altas horas da madrugada num qualquer bar. no entanto, nunca desejei tanto beijar alguém porque, juro, naquele sorriso que te arranquei vi o mundo...

13.2.04

entro e sento-me no autocarro ao lado de uma qualquer pessoa, às vezes nem me chego a sentar, coloco-me no autocarro estrategicamente para que te possa observar às escondidas, sem que me vejas, não sei quem és, não quero saber quem és, tem muito mais piada assim, quando consegues escapar do livro que tens nas mãos e que lês lanças um olhar pelo autocarro, procuras alguém conhecido, alguém sobre quem chegues a casa e te deites na cama e te ponhas a pensar nela, todas as semanas mudas de livro, hoje estás a ler o meu livro preferido, hesitei em falar-te, em dizer-te olá, mas não quero destruir a ilusão que és feita para mim, que és a minha outra parte, assim posso pensar-te como quiser, és a mulher perfeita para mim, és como eu quiser que sejas, como eu te sonhar, és um anjo que torna a viagem de autocarro menos irritante, mais interessante, num jogo de escondidas dos nossos olhares que quando se cruzam timidamente se escondem. um dia sorriste, para mim, ou pelo menos assim quis pensar, eu sorri também para ti, mas acho que só a velhota que estava ao teu lado é que viu, ela também sorriu…

mas depois sais do autocarro, sigo-te com o olhar até o autocarro dobrar a esquina, apaixonei-me por ti sabendo nada sobre ti… estranha paixão…

12.2.04

cruzei-me contigo em pensamento e fingi que não te vi...

11.2.04

prometemos oferecer-nos, mutuamente, a morte. sem romantismos, apenas um adorno para a vida para a qual não gostávamos. a qual não queríamos viver.

hoje atrevi-me a rever-te. revisitando assim, anos depois, todos os lugares e sentimentos pelos quais passámos e prometemos passar. não sei se aguento. não sei se quero isto. ainda assim, prossigo.

aproximas-te e o nervosismo afasta-se. agora que não tens a cara recém-lavada em lágrimas a tua beleza realça. nunca me pareceste tão bonita. ao falar-te enfrento os fantasmas do amor que quase vivemos, dos encontros fugazes e apaixonados que vivemos no teu corpo.

o teu sorriso tem agora outro encanto, ou tem agora encanto. já não sorris para esconder a tristeza crónica de que padecias. tens agora uma nova vida com um novo brilho sob um novo olhar.

da conversa pouco ficou para além do teu sotaque (que sempre adorei). na despedida beijei-te, para recordar que a morte não é mais que um ornato.