16.2.04

bebo o café como bebo a vida, de um trago só para o amargo ser menor. penso na carta que te escrevi e nunca chegaste a ler porque nunca cheguei a mandar. não sei se consigo perdoar. a ti e a mim. não sei se ainda te amo. não quero recordar as discussões demasiado acesas. as acções demasiado pesadas. o amor e o orgulho. a dor de saber que te estava a perder. fui aos correios e voltei para casa e queimei a carta. não pensei mais em ti, até agora.

hoje, ao abrir uma gaveta, encontrei as cartas que trocávamos. comecei a escrever-te uma carta que não acabei. talvez voltes um dia e a acabes. ficaste no pensamento mesmo que agora seja tudo diferente. não te esqueço, não sou capaz, não quero. sei que se pudesse voltar a ver-te pela primeira vez, como se todo aquele passado não existisse, como se as formas do teu corpo e do teu olhar não ressuscitassem algo que já não existe. se pudesse apagar o passado, sem dúvida, amar-te-ia de novo...

14.2.04

sentei-me e pedi mais um copo. não reparei que o mundo se abate sobre mim. que as portas se fecham e que a vida passa por mim e que eu vejo isso como algo positivo. porquê decidir se o tempo pode decidir por mim? porquê caminhar se posso ficar à espera que as coisas venham até mim enquanto bebo mais um copo.

mas hoje vi-te e procurei-te. imaginei uma flor que te ofereci e conquistei-te um sorriso. trocámos umas palavras. inconclusivas. como todos os diálogos mantidos por dois estranhos, como nós, a altas horas da madrugada num qualquer bar. no entanto, nunca desejei tanto beijar alguém porque, juro, naquele sorriso que te arranquei vi o mundo...

13.2.04

entro e sento-me no autocarro ao lado de uma qualquer pessoa, às vezes nem me chego a sentar, coloco-me no autocarro estrategicamente para que te possa observar às escondidas, sem que me vejas, não sei quem és, não quero saber quem és, tem muito mais piada assim, quando consegues escapar do livro que tens nas mãos e que lês lanças um olhar pelo autocarro, procuras alguém conhecido, alguém sobre quem chegues a casa e te deites na cama e te ponhas a pensar nela, todas as semanas mudas de livro, hoje estás a ler o meu livro preferido, hesitei em falar-te, em dizer-te olá, mas não quero destruir a ilusão que és feita para mim, que és a minha outra parte, assim posso pensar-te como quiser, és a mulher perfeita para mim, és como eu quiser que sejas, como eu te sonhar, és um anjo que torna a viagem de autocarro menos irritante, mais interessante, num jogo de escondidas dos nossos olhares que quando se cruzam timidamente se escondem. um dia sorriste, para mim, ou pelo menos assim quis pensar, eu sorri também para ti, mas acho que só a velhota que estava ao teu lado é que viu, ela também sorriu…

mas depois sais do autocarro, sigo-te com o olhar até o autocarro dobrar a esquina, apaixonei-me por ti sabendo nada sobre ti… estranha paixão…

12.2.04

cruzei-me contigo em pensamento e fingi que não te vi...

11.2.04

prometemos oferecer-nos, mutuamente, a morte. sem romantismos, apenas um adorno para a vida para a qual não gostávamos. a qual não queríamos viver.

hoje atrevi-me a rever-te. revisitando assim, anos depois, todos os lugares e sentimentos pelos quais passámos e prometemos passar. não sei se aguento. não sei se quero isto. ainda assim, prossigo.

aproximas-te e o nervosismo afasta-se. agora que não tens a cara recém-lavada em lágrimas a tua beleza realça. nunca me pareceste tão bonita. ao falar-te enfrento os fantasmas do amor que quase vivemos, dos encontros fugazes e apaixonados que vivemos no teu corpo.

o teu sorriso tem agora outro encanto, ou tem agora encanto. já não sorris para esconder a tristeza crónica de que padecias. tens agora uma nova vida com um novo brilho sob um novo olhar.

da conversa pouco ficou para além do teu sotaque (que sempre adorei). na despedida beijei-te, para recordar que a morte não é mais que um ornato.

10.2.04

onde estás? quem te levou? partiste um dia sem olhar para trás?, deixaste-me só ao acordar e não mais dormi, a tua falta é demasiado grande para que possa voltar a adormecer, ainda estendo a mão para o outro lado da cama para segurar a tua. talvez tenhas ido iludida por uma eventual paixão e esqueceste o amor que em mim tinhas, destroçaste-me, sabias? ainda hoje te procuro, não pelo mundo, mas pela minha alma, pois foi na minha alma que tu sempre exististe, e de onde partiste...

9.2.04

o relógio da estação marcava nove horas e trinta e um minutos, ao longe avistava-se já o comboio. há já uma semana que a cada minuto imaginava a tua chegada, como seria rever-te depois de tanto tempo. saias da carruagem, abraçava-te, beijava-te.

o comboio entrou na estação, parou, as pessoas começaram a sair, instalou-se o caos na estação, cumprimentavam-se pessoas e eu olhava, procurava-te no meio da multidão mas não te via, desesperava um pouco mais a cada pessoa que não tu que saia do comboio. sentei-me num banco na esperança que ao desfazer-se a balbúrdia te visse, de mala na mão, sozinha no cais. esperando-me.

a confusão desfez-se e a plataforma ficou vazia e silenciosa. apanhei o barco de regresso a lisboa. sonhara atravessar o tejo abraçado a ti, o vento frio a acariciar a cara. sonhei... naveguei sozinho. saí do barco e sentei-me num jardim a observar o rio a passar como se te observasse a ti passando por mim sorrindo.

não chegaste no comboio, não me visitaste, mas isso já eu sabia...

8.2.04

procuro-te em sítios em que sei que não te encontro. procuro-te em sítios em que sei que me vou encontrar. procuro-me na expectativa de perceber que sou realmente aquilo que sou, aquilo que me penso. esperança vã. se eu pudesse ser metade do que julgo ser seria o dobro do que sou... ainda assim persisto e não desisto até percorrer aquelas ruas e descobrir que, de facto, sou teu.

7.2.04

deitada na cama ouves a música que toca, moves as mãos delicadas ao som da melodia com medo de a quebrar, pensas, revisitas as mágoas passadas tornadas presentes, seguras as lágrimas com todas as forças que tens até que exausta acabas por chorar, encolhes-te o mais que podes e quando te olho disfarças a tristeza sorrindo. ponderas decisões, caminhos a seguir, equilibras as emoções para continuar um pouco mais. murmuras a letra da canção e relembras tudo aquilo que a música te trás. encolhes-te o mais que podes, como tentando abraçares-te a ti mesma. acabas cobrindo-te com a manta, o frio da alma tornou-se o frio do corpo, a lágrima tornou-se a chuva que cai lá fora. encolhes-te cada vez mais, choras cada vez mais, até que num grito levantas a tempestade na tua alma e no mundo.