prometemos oferecer-nos, mutuamente, a morte. sem romantismos, apenas um adorno para a vida para a qual não gostávamos. a qual não queríamos viver.
hoje atrevi-me a rever-te. revisitando assim, anos depois, todos os lugares e sentimentos pelos quais passámos e prometemos passar. não sei se aguento. não sei se quero isto. ainda assim, prossigo.
aproximas-te e o nervosismo afasta-se. agora que não tens a cara recém-lavada em lágrimas a tua beleza realça. nunca me pareceste tão bonita. ao falar-te enfrento os fantasmas do amor que quase vivemos, dos encontros fugazes e apaixonados que vivemos no teu corpo.
o teu sorriso tem agora outro encanto, ou tem agora encanto. já não sorris para esconder a tristeza crónica de que padecias. tens agora uma nova vida com um novo brilho sob um novo olhar.
da conversa pouco ficou para além do teu sotaque (que sempre adorei). na despedida beijei-te, para recordar que a morte não é mais que um ornato.
11.2.04
10.2.04
onde estás? quem te levou? partiste um dia sem olhar para trás?, deixaste-me só ao acordar e não mais dormi, a tua falta é demasiado grande para que possa voltar a adormecer, ainda estendo a mão para o outro lado da cama para segurar a tua. talvez tenhas ido iludida por uma eventual paixão e esqueceste o amor que em mim tinhas, destroçaste-me, sabias? ainda hoje te procuro, não pelo mundo, mas pela minha alma, pois foi na minha alma que tu sempre exististe, e de onde partiste...
9.2.04
o relógio da estação marcava nove horas e trinta e um minutos, ao longe avistava-se já o comboio. há já uma semana que a cada minuto imaginava a tua chegada, como seria rever-te depois de tanto tempo. saias da carruagem, abraçava-te, beijava-te.
o comboio entrou na estação, parou, as pessoas começaram a sair, instalou-se o caos na estação, cumprimentavam-se pessoas e eu olhava, procurava-te no meio da multidão mas não te via, desesperava um pouco mais a cada pessoa que não tu que saia do comboio. sentei-me num banco na esperança que ao desfazer-se a balbúrdia te visse, de mala na mão, sozinha no cais. esperando-me.
a confusão desfez-se e a plataforma ficou vazia e silenciosa. apanhei o barco de regresso a lisboa. sonhara atravessar o tejo abraçado a ti, o vento frio a acariciar a cara. sonhei... naveguei sozinho. saí do barco e sentei-me num jardim a observar o rio a passar como se te observasse a ti passando por mim sorrindo.
não chegaste no comboio, não me visitaste, mas isso já eu sabia...
8.2.04
procuro-te em sítios em que sei que não te encontro. procuro-te em sítios em que sei que me vou encontrar. procuro-me na expectativa de perceber que sou realmente aquilo que sou, aquilo que me penso. esperança vã. se eu pudesse ser metade do que julgo ser seria o dobro do que sou... ainda assim persisto e não desisto até percorrer aquelas ruas e descobrir que, de facto, sou teu.
7.2.04
deitada na cama ouves a música que toca, moves as mãos delicadas ao som da melodia com medo de a quebrar, pensas, revisitas as mágoas passadas tornadas presentes, seguras as lágrimas com todas as forças que tens até que exausta acabas por chorar, encolhes-te o mais que podes e quando te olho disfarças a tristeza sorrindo. ponderas decisões, caminhos a seguir, equilibras as emoções para continuar um pouco mais. murmuras a letra da canção e relembras tudo aquilo que a música te trás. encolhes-te o mais que podes, como tentando abraçares-te a ti mesma. acabas cobrindo-te com a manta, o frio da alma tornou-se o frio do corpo, a lágrima tornou-se a chuva que cai lá fora. encolhes-te cada vez mais, choras cada vez mais, até que num grito levantas a tempestade na tua alma e no mundo.
6.2.04
sonhei contigo... não, não faças isso... não me peças para to contar... faz antes assim: olha-te ao espelho e verás o meu sonho. apenas a tua imagem em fundo negro.
teus olhos brilhando... teus lábios sorrindo...
5.2.04
ainda que não o saibas eu estou aqui, persigo com o olhar todos os teus movimentos em volta da sala. ainda que não o saibas deixo-me lentamente fascinar com o teu sorriso, com o brilho do teu olhar. abstraio-me do livro que tenho para ler e leio os sinais que sonho que me envias. quase a querer forçar um sentimento.
aproximas-te e eu tento disfarçar olhando para o livro, sem o ler. aqueles poucos e eternos metros que caminhaste até mim quase me roubaram o ar. disseste gostei da forma como me olhaste e roubaste-me um beijo que eu sei que não foi roubado. e roubaste-me um beijo e eu disse-te vamos sair daqui. pegaste-me na mão e conduziste-me para um qualquer outro lugar. fizeste-me acreditar...
4.2.04
talvez não merecesses toda aquela atenção. afinal de contas, nada fizeste para o merecer. amava-te, duvido que fosse recíproco. umas vezes pensava que sim. outras não. retríbuias os meus sorrisos de vez em quando. mas o olhar, por vezes, não enganava, dizia claramente que estávamos irremediavelmente apaixonados. mas eram só os olhares, eventualmente um sorriso, uma brincadeira ou outra. por qualquer razão que ignoro as circunstâncias não permitiram que a paixão (ou a ausência dela) se consumasse.
eu dava-te toda a atenção que podia dar, guardava apenas uma réstia para murmurar uma resposta a uma pergunta que me pudessem fazer. exceptuando os sim, não, pois, que era obrigado a pronunciar por uma questão de etiqueta e para justificar a minha presença física naquele grupo de pessoas. só tinha atenção para ela.
registava o mais pequeno movimento, os olhares, os sorrisos, a forma de pegar no cigarro, a maneira de ajeitar o cabelo ou a roupa, a maneira de te sentares, de falares. registei tudo isto e muito mais na memória de forma extremamente minuciosa. a certa altura ias embora, eu balbuciava um xau, ia também para casa.
ao sentar-me no sofá, montava o meu próprio filme contigo. deitado na cama a ouvir música clássica para dar um toque épico. junta o teu terceiro sorriso daquela tarde, com o primeiro olhar. a frase x com a frase y. mais ainda, pegava em palavras soltas e constítuia frases que saíam da tua boca e soavam no meu coração abstémio de afecto. conversava contigo. noites e noites a fio conversava contigo sobre tudo e sobre nada. na minha cabeça.
assim te amava, como uma marioneta da minha imaginação. um entretém para os meus momentos de solidão crónica.
3.2.04
peço-te, deixa-me só... contigo. peço-te um beijo e um abraço para que te sinta aqui comigo. está frio e o teu abraço aquece. estou melancólico e o teu beijo ressuscita. peço-te que fiques comigo esta noite, tenho medo de ficar sozinho. quero entregar-me a ti enquanto estou frágil. por isso, peço-te, consome-me e faz-me esquecer que a dor e as lágrimas vieram para ficar. não há neste momento olhar que eu suporte que não o teu.
diz apenas que sim, ou que não, ou não digas nada. mas, peço-te, fica, porque esta noite é também tua e este sentimento é por ti. a noite, eventualmente, acabará e aí peço-te que me faças sorrir uma última vez e que, de seguida, te vás embora levando contigo a recordação desta noite.
