o relógio da estação marcava nove horas e trinta e um minutos, ao longe avistava-se já o comboio. há já uma semana que a cada minuto imaginava a tua chegada, como seria rever-te depois de tanto tempo. saias da carruagem, abraçava-te, beijava-te.
o comboio entrou na estação, parou, as pessoas começaram a sair, instalou-se o caos na estação, cumprimentavam-se pessoas e eu olhava, procurava-te no meio da multidão mas não te via, desesperava um pouco mais a cada pessoa que não tu que saia do comboio. sentei-me num banco na esperança que ao desfazer-se a balbúrdia te visse, de mala na mão, sozinha no cais. esperando-me.
a confusão desfez-se e a plataforma ficou vazia e silenciosa. apanhei o barco de regresso a lisboa. sonhara atravessar o tejo abraçado a ti, o vento frio a acariciar a cara. sonhei... naveguei sozinho. saí do barco e sentei-me num jardim a observar o rio a passar como se te observasse a ti passando por mim sorrindo.
não chegaste no comboio, não me visitaste, mas isso já eu sabia...
9.2.04
8.2.04
procuro-te em sítios em que sei que não te encontro. procuro-te em sítios em que sei que me vou encontrar. procuro-me na expectativa de perceber que sou realmente aquilo que sou, aquilo que me penso. esperança vã. se eu pudesse ser metade do que julgo ser seria o dobro do que sou... ainda assim persisto e não desisto até percorrer aquelas ruas e descobrir que, de facto, sou teu.
7.2.04
deitada na cama ouves a música que toca, moves as mãos delicadas ao som da melodia com medo de a quebrar, pensas, revisitas as mágoas passadas tornadas presentes, seguras as lágrimas com todas as forças que tens até que exausta acabas por chorar, encolhes-te o mais que podes e quando te olho disfarças a tristeza sorrindo. ponderas decisões, caminhos a seguir, equilibras as emoções para continuar um pouco mais. murmuras a letra da canção e relembras tudo aquilo que a música te trás. encolhes-te o mais que podes, como tentando abraçares-te a ti mesma. acabas cobrindo-te com a manta, o frio da alma tornou-se o frio do corpo, a lágrima tornou-se a chuva que cai lá fora. encolhes-te cada vez mais, choras cada vez mais, até que num grito levantas a tempestade na tua alma e no mundo.
6.2.04
sonhei contigo... não, não faças isso... não me peças para to contar... faz antes assim: olha-te ao espelho e verás o meu sonho. apenas a tua imagem em fundo negro.
teus olhos brilhando... teus lábios sorrindo...
5.2.04
ainda que não o saibas eu estou aqui, persigo com o olhar todos os teus movimentos em volta da sala. ainda que não o saibas deixo-me lentamente fascinar com o teu sorriso, com o brilho do teu olhar. abstraio-me do livro que tenho para ler e leio os sinais que sonho que me envias. quase a querer forçar um sentimento.
aproximas-te e eu tento disfarçar olhando para o livro, sem o ler. aqueles poucos e eternos metros que caminhaste até mim quase me roubaram o ar. disseste gostei da forma como me olhaste e roubaste-me um beijo que eu sei que não foi roubado. e roubaste-me um beijo e eu disse-te vamos sair daqui. pegaste-me na mão e conduziste-me para um qualquer outro lugar. fizeste-me acreditar...
4.2.04
talvez não merecesses toda aquela atenção. afinal de contas, nada fizeste para o merecer. amava-te, duvido que fosse recíproco. umas vezes pensava que sim. outras não. retríbuias os meus sorrisos de vez em quando. mas o olhar, por vezes, não enganava, dizia claramente que estávamos irremediavelmente apaixonados. mas eram só os olhares, eventualmente um sorriso, uma brincadeira ou outra. por qualquer razão que ignoro as circunstâncias não permitiram que a paixão (ou a ausência dela) se consumasse.
eu dava-te toda a atenção que podia dar, guardava apenas uma réstia para murmurar uma resposta a uma pergunta que me pudessem fazer. exceptuando os sim, não, pois, que era obrigado a pronunciar por uma questão de etiqueta e para justificar a minha presença física naquele grupo de pessoas. só tinha atenção para ela.
registava o mais pequeno movimento, os olhares, os sorrisos, a forma de pegar no cigarro, a maneira de ajeitar o cabelo ou a roupa, a maneira de te sentares, de falares. registei tudo isto e muito mais na memória de forma extremamente minuciosa. a certa altura ias embora, eu balbuciava um xau, ia também para casa.
ao sentar-me no sofá, montava o meu próprio filme contigo. deitado na cama a ouvir música clássica para dar um toque épico. junta o teu terceiro sorriso daquela tarde, com o primeiro olhar. a frase x com a frase y. mais ainda, pegava em palavras soltas e constítuia frases que saíam da tua boca e soavam no meu coração abstémio de afecto. conversava contigo. noites e noites a fio conversava contigo sobre tudo e sobre nada. na minha cabeça.
assim te amava, como uma marioneta da minha imaginação. um entretém para os meus momentos de solidão crónica.
3.2.04
peço-te, deixa-me só... contigo. peço-te um beijo e um abraço para que te sinta aqui comigo. está frio e o teu abraço aquece. estou melancólico e o teu beijo ressuscita. peço-te que fiques comigo esta noite, tenho medo de ficar sozinho. quero entregar-me a ti enquanto estou frágil. por isso, peço-te, consome-me e faz-me esquecer que a dor e as lágrimas vieram para ficar. não há neste momento olhar que eu suporte que não o teu.
diz apenas que sim, ou que não, ou não digas nada. mas, peço-te, fica, porque esta noite é também tua e este sentimento é por ti. a noite, eventualmente, acabará e aí peço-te que me faças sorrir uma última vez e que, de seguida, te vás embora levando contigo a recordação desta noite.
2.2.04
sentado no meu canto olho à minha volta. não falo porque sei que se o fizer acabarei chorando. a minha boca é a última barreira contra as lágrimas. se falar estarei a libertar os fantasmas que trago dentro de mim. os fantasmas que tanto amo e que não quero que se escapem. eu sei, basta uma palavra para que tudo termine, basta um não para que tudo desapareça. a tristeza. a solidão. as noites sem sono. não que isso possa mudar o passado, apenas me trará o caminho para a felicidade. algo que temo profundamente. tenho medo de voltar a ser feliz por poder afundar no tenebroso silêncio sentimental da depressão. e tenho medo da noite, tanto medo da noite como de mim mesmo.
quando o sol se põe e a cidade acalma é como se eles estivessem mais próximos. as suas vozes ecoam no silêncio. amo-os e nada consigo fazer contra isso. se, por acaso, me perguntarem se amo alguém digo que não. como irei eu explicar que amo os fantasmas que carrego na alma?
hoje cansei-me. quis dormir. quis sorrir. disse não! e os fantasmas partiram. chorei, até adormecer. quando acordei senti-me vazio, continuei triste. tinha saudades do meu amor que tinha partido...
1.2.04
é a verdadeira antítese da vida, a verdadeira fuga para além da dor ou do sofrimento, da alegria e do orgasmo. é o não sentir absolutamente nada. é ver e ouvir, apenas. receber e não dar. apenas observar sem interferir.
a dor antecipada de saber que eventualmente todo este estado desaparecerá. o conhecimento que, eventualmente, terei que voltar a viver, voltar a desejar nunca ter nascido, voltar a desejar morrer. a solidão não mata, enlouquece... suicida-me. corrói me de dentro para fora, até restar apenas a capa externa de pele. até não ficar mais nada senão um corpo deambulante.
penso, se não me mato agora acabarei por morrer depois mas, morrer novo é poético e evita chatices. antes que a anestesia passe... porque aí deixa de haver coragem.
