8.2.04

procuro-te em sítios em que sei que não te encontro. procuro-te em sítios em que sei que me vou encontrar. procuro-me na expectativa de perceber que sou realmente aquilo que sou, aquilo que me penso. esperança vã. se eu pudesse ser metade do que julgo ser seria o dobro do que sou... ainda assim persisto e não desisto até percorrer aquelas ruas e descobrir que, de facto, sou teu.

7.2.04

deitada na cama ouves a música que toca, moves as mãos delicadas ao som da melodia com medo de a quebrar, pensas, revisitas as mágoas passadas tornadas presentes, seguras as lágrimas com todas as forças que tens até que exausta acabas por chorar, encolhes-te o mais que podes e quando te olho disfarças a tristeza sorrindo. ponderas decisões, caminhos a seguir, equilibras as emoções para continuar um pouco mais. murmuras a letra da canção e relembras tudo aquilo que a música te trás. encolhes-te o mais que podes, como tentando abraçares-te a ti mesma. acabas cobrindo-te com a manta, o frio da alma tornou-se o frio do corpo, a lágrima tornou-se a chuva que cai lá fora. encolhes-te cada vez mais, choras cada vez mais, até que num grito levantas a tempestade na tua alma e no mundo.

6.2.04

sonhei contigo... não, não faças isso... não me peças para to contar... faz antes assim: olha-te ao espelho e verás o meu sonho. apenas a tua imagem em fundo negro.

teus olhos brilhando... teus lábios sorrindo...

5.2.04

ainda que não o saibas eu estou aqui, persigo com o olhar todos os teus movimentos em volta da sala. ainda que não o saibas deixo-me lentamente fascinar com o teu sorriso, com o brilho do teu olhar. abstraio-me do livro que tenho para ler e leio os sinais que sonho que me envias. quase a querer forçar um sentimento.

aproximas-te e eu tento disfarçar olhando para o livro, sem o ler. aqueles poucos e eternos metros que caminhaste até mim quase me roubaram o ar. disseste gostei da forma como me olhaste e roubaste-me um beijo que eu sei que não foi roubado. e roubaste-me um beijo e eu disse-te vamos sair daqui. pegaste-me na mão e conduziste-me para um qualquer outro lugar. fizeste-me acreditar...

4.2.04

talvez não merecesses toda aquela atenção. afinal de contas, nada fizeste para o merecer. amava-te, duvido que fosse recíproco. umas vezes pensava que sim. outras não. retríbuias os meus sorrisos de vez em quando. mas o olhar, por vezes, não enganava, dizia claramente que estávamos irremediavelmente apaixonados. mas eram só os olhares, eventualmente um sorriso, uma brincadeira ou outra. por qualquer razão que ignoro as circunstâncias não permitiram que a paixão (ou a ausência dela) se consumasse.

eu dava-te toda a atenção que podia dar, guardava apenas uma réstia para murmurar uma resposta a uma pergunta que me pudessem fazer. exceptuando os sim, não, pois, que era obrigado a pronunciar por uma questão de etiqueta e para justificar a minha presença física naquele grupo de pessoas. só tinha atenção para ela.

registava o mais pequeno movimento, os olhares, os sorrisos, a forma de pegar no cigarro, a maneira de ajeitar o cabelo ou a roupa, a maneira de te sentares, de falares. registei tudo isto e muito mais na memória de forma extremamente minuciosa. a certa altura ias embora, eu balbuciava um xau, ia também para casa.

ao sentar-me no sofá, montava o meu próprio filme contigo. deitado na cama a ouvir música clássica para dar um toque épico. junta o teu terceiro sorriso daquela tarde, com o primeiro olhar. a frase x com a frase y. mais ainda, pegava em palavras soltas e constítuia frases que saíam da tua boca e soavam no meu coração abstémio de afecto. conversava contigo. noites e noites a fio conversava contigo sobre tudo e sobre nada. na minha cabeça.

assim te amava, como uma marioneta da minha imaginação. um entretém para os meus momentos de solidão crónica.

3.2.04

peço-te, deixa-me só... contigo. peço-te um beijo e um abraço para que te sinta aqui comigo. está frio e o teu abraço aquece. estou melancólico e o teu beijo ressuscita. peço-te que fiques comigo esta noite, tenho medo de ficar sozinho. quero entregar-me a ti enquanto estou frágil. por isso, peço-te, consome-me e faz-me esquecer que a dor e as lágrimas vieram para ficar. não há neste momento olhar que eu suporte que não o teu.

diz apenas que sim, ou que não, ou não digas nada. mas, peço-te, fica, porque esta noite é também tua e este sentimento é por ti. a noite, eventualmente, acabará e aí peço-te que me faças sorrir uma última vez e que, de seguida, te vás embora levando contigo a recordação desta noite.

2.2.04

sentado no meu canto olho à minha volta. não falo porque sei que se o fizer acabarei chorando. a minha boca é a última barreira contra as lágrimas. se falar estarei a libertar os fantasmas que trago dentro de mim. os fantasmas que tanto amo e que não quero que se escapem. eu sei, basta uma palavra para que tudo termine, basta um não para que tudo desapareça. a tristeza. a solidão. as noites sem sono. não que isso possa mudar o passado, apenas me trará o caminho para a felicidade. algo que temo profundamente. tenho medo de voltar a ser feliz por poder afundar no tenebroso silêncio sentimental da depressão. e tenho medo da noite, tanto medo da noite como de mim mesmo.

quando o sol se põe e a cidade acalma é como se eles estivessem mais próximos. as suas vozes ecoam no silêncio. amo-os e nada consigo fazer contra isso. se, por acaso, me perguntarem se amo alguém digo que não. como irei eu explicar que amo os fantasmas que carrego na alma?

hoje cansei-me. quis dormir. quis sorrir. disse não! e os fantasmas partiram. chorei, até adormecer. quando acordei senti-me vazio, continuei triste. tinha saudades do meu amor que tinha partido...

1.2.04

é a verdadeira antítese da vida, a verdadeira fuga para além da dor ou do sofrimento, da alegria e do orgasmo. é o não sentir absolutamente nada. é ver e ouvir, apenas. receber e não dar. apenas observar sem interferir.

a dor antecipada de saber que eventualmente todo este estado desaparecerá. o conhecimento que, eventualmente, terei que voltar a viver, voltar a desejar nunca ter nascido, voltar a desejar morrer. a solidão não mata, enlouquece... suicida-me. corrói me de dentro para fora, até restar apenas a capa externa de pele. até não ficar mais nada senão um corpo deambulante.

penso, se não me mato agora acabarei por morrer depois mas, morrer novo é poético e evita chatices. antes que a anestesia passe... porque aí deixa de haver coragem.

31.1.04

hoje porque estava a chover fiquei em casa a ver as gotas deslizar na janela, a ouvir a chuva bater na janela. peguei na antiga máquina de escrever e ao som do bater das teclas escrevi quase sem parar para respirar:

i

como mortos, os dois corpos jaziam lado a lado naquele quarto de paredes despidas, gélidas, brancas. pureza essa apenas quebrada por uma janela que dava para um vale com um rio ao fundo que a noite não deixava ver.
o frio imperava e os corpos ressentiam-se disso. ganhavam um tom quase que anilado e o tremor dava um movimento engraçado à cena.

num dos cantos, no chão, um ramo de flores já cansadas pelo tempo. estilhaços de uma garrafa de vinho espalhados por todo o chão, marcas de uma violenta discussão. escorrendo pela parede, uma gota de sangue.
a porta de madeira que rangia ao sabor do vento dava para uma casa que um sonho desfeito se encarregara de abandonar e preservar tal qual ficou desde o último momento em que fora habitada. os quadros na parede, os sofás onde quase ainda se podia sentir o calor de quem lá se sentou. na cozinha ainda o cheiro dos cozinhados da criada negra, uma das muitas que a senhora condessa tinha.

no ar, uma viciosa mistura de bafio e perfumes que se evaporaram ao longo dos anos. na biblioteca o deslumbramento do conhecimento antigo, abandonado. livros com páginas versadas de tanto uso. tesouros rectangulares de folhas feitos, valorizados pelas palavras.

os vidros partidos permitiam que o vento gélido entrasse provocando arrepios a qualquer corajoso aventureiro que tentasse explorar a casa. as cortinas bailavam ao som do mesmo vento. o assustador sibilo que o ar fazia ao passar pelas arestas dos fracturados vidros.

no quarto ainda os corpos moribundos, agora enlaçados numa luta desesperada pela sobrevivência. unia-os a simbiose indispensável daquele momento. já moribundos beijam-se, uma espécie de despedida para a morte já há muito anunciada.

na parede do quarto escorre ainda a gota de sangue que agora atinge o chão. liberta-se então por toda a casa um choro agudo de criança, maleficamente ensurdecedor. os corpos reagem com um último reflexo no olhar, tombando de seguida mortos. o frio daquele último abrigo e o medo daquele amor ser descoberto foram intoleráveis. a demência matou-os...


ii

um jovem poeta sabendo que naquela casa estava a sua inspiração, que daquele sítio vinham as vozes que ouvia na sua cabeça, entrou no edifício pela porta da cozinha. caminhou a medo até à sala, assustado pelo que poderia encontrar. chegando à sala deparou-se com o abandono. em tom de libertação gritou: “estou aqui! devora-me!”. naqueles momentos em que esperou ouvir uma voz de volta, pesou-lhe a desilusão nos ombros, a loucura. hesitou mexer-se, desafiando a mais que óbvia razão. frustrado pela falta de resposta sentou-se num só movimento, derrotado, num dos muitos sofás esperando que a voz vinda de lado algum finalmente respondesse.

fechou os olhos e imaginou vida naquela casa. o cheiro de comida misturado com o cheiro da lareira. o cheiro das pessoas. os raios de sol a entrarem pela janela numa manhã de outono. uma jovem bonita deitada no divã junto à janela a ler shakespeare e a sonhar com um amor eterno tal romeu e julieta. o lufa-lufa das criadas a preparar o almoço e em arrumações. os ramos de flores recém-colhidas por todo o lado.

abre os olhos e os resquícios do seu sonho duram ainda alguns segundos. os suficientes para gerar a dúvida entre sonho e realidade. não tendo outro sítio para onde ir o poeta vai em busca de uma cama onde se deitar.
no primeiro quarto em que entra encontra uma grande cama, com um aspecto suficientemente quente e confortável. na parede um quadro: dois corpos nus abraçados em cima de uma cama, o olhar moribundo durante um último beijo. paredes totalmente brancas exceptuando o rasto de uma gota de sangue do tecto até ao chão. na moldura o título: «retrato do amor eterno».

incansável e apressadamente, nos meses seguintes o jovem poeta escreveu o seu primeiro e único livro com o mesmo título do quadro. quem encontrou o seu manuscrito, estrategicamente disposto por baixo do quadro, junto ao corpo suicidário do jovem poeta, ao tentar lê-lo, apenas conseguiu decifrar o título e o capítulo final, orgasmo de caligrafia cuidada do poeta.