2.2.04

sentado no meu canto olho à minha volta. não falo porque sei que se o fizer acabarei chorando. a minha boca é a última barreira contra as lágrimas. se falar estarei a libertar os fantasmas que trago dentro de mim. os fantasmas que tanto amo e que não quero que se escapem. eu sei, basta uma palavra para que tudo termine, basta um não para que tudo desapareça. a tristeza. a solidão. as noites sem sono. não que isso possa mudar o passado, apenas me trará o caminho para a felicidade. algo que temo profundamente. tenho medo de voltar a ser feliz por poder afundar no tenebroso silêncio sentimental da depressão. e tenho medo da noite, tanto medo da noite como de mim mesmo.

quando o sol se põe e a cidade acalma é como se eles estivessem mais próximos. as suas vozes ecoam no silêncio. amo-os e nada consigo fazer contra isso. se, por acaso, me perguntarem se amo alguém digo que não. como irei eu explicar que amo os fantasmas que carrego na alma?

hoje cansei-me. quis dormir. quis sorrir. disse não! e os fantasmas partiram. chorei, até adormecer. quando acordei senti-me vazio, continuei triste. tinha saudades do meu amor que tinha partido...

1.2.04

é a verdadeira antítese da vida, a verdadeira fuga para além da dor ou do sofrimento, da alegria e do orgasmo. é o não sentir absolutamente nada. é ver e ouvir, apenas. receber e não dar. apenas observar sem interferir.

a dor antecipada de saber que eventualmente todo este estado desaparecerá. o conhecimento que, eventualmente, terei que voltar a viver, voltar a desejar nunca ter nascido, voltar a desejar morrer. a solidão não mata, enlouquece... suicida-me. corrói me de dentro para fora, até restar apenas a capa externa de pele. até não ficar mais nada senão um corpo deambulante.

penso, se não me mato agora acabarei por morrer depois mas, morrer novo é poético e evita chatices. antes que a anestesia passe... porque aí deixa de haver coragem.

31.1.04

hoje porque estava a chover fiquei em casa a ver as gotas deslizar na janela, a ouvir a chuva bater na janela. peguei na antiga máquina de escrever e ao som do bater das teclas escrevi quase sem parar para respirar:

i

como mortos, os dois corpos jaziam lado a lado naquele quarto de paredes despidas, gélidas, brancas. pureza essa apenas quebrada por uma janela que dava para um vale com um rio ao fundo que a noite não deixava ver.
o frio imperava e os corpos ressentiam-se disso. ganhavam um tom quase que anilado e o tremor dava um movimento engraçado à cena.

num dos cantos, no chão, um ramo de flores já cansadas pelo tempo. estilhaços de uma garrafa de vinho espalhados por todo o chão, marcas de uma violenta discussão. escorrendo pela parede, uma gota de sangue.
a porta de madeira que rangia ao sabor do vento dava para uma casa que um sonho desfeito se encarregara de abandonar e preservar tal qual ficou desde o último momento em que fora habitada. os quadros na parede, os sofás onde quase ainda se podia sentir o calor de quem lá se sentou. na cozinha ainda o cheiro dos cozinhados da criada negra, uma das muitas que a senhora condessa tinha.

no ar, uma viciosa mistura de bafio e perfumes que se evaporaram ao longo dos anos. na biblioteca o deslumbramento do conhecimento antigo, abandonado. livros com páginas versadas de tanto uso. tesouros rectangulares de folhas feitos, valorizados pelas palavras.

os vidros partidos permitiam que o vento gélido entrasse provocando arrepios a qualquer corajoso aventureiro que tentasse explorar a casa. as cortinas bailavam ao som do mesmo vento. o assustador sibilo que o ar fazia ao passar pelas arestas dos fracturados vidros.

no quarto ainda os corpos moribundos, agora enlaçados numa luta desesperada pela sobrevivência. unia-os a simbiose indispensável daquele momento. já moribundos beijam-se, uma espécie de despedida para a morte já há muito anunciada.

na parede do quarto escorre ainda a gota de sangue que agora atinge o chão. liberta-se então por toda a casa um choro agudo de criança, maleficamente ensurdecedor. os corpos reagem com um último reflexo no olhar, tombando de seguida mortos. o frio daquele último abrigo e o medo daquele amor ser descoberto foram intoleráveis. a demência matou-os...


ii

um jovem poeta sabendo que naquela casa estava a sua inspiração, que daquele sítio vinham as vozes que ouvia na sua cabeça, entrou no edifício pela porta da cozinha. caminhou a medo até à sala, assustado pelo que poderia encontrar. chegando à sala deparou-se com o abandono. em tom de libertação gritou: “estou aqui! devora-me!”. naqueles momentos em que esperou ouvir uma voz de volta, pesou-lhe a desilusão nos ombros, a loucura. hesitou mexer-se, desafiando a mais que óbvia razão. frustrado pela falta de resposta sentou-se num só movimento, derrotado, num dos muitos sofás esperando que a voz vinda de lado algum finalmente respondesse.

fechou os olhos e imaginou vida naquela casa. o cheiro de comida misturado com o cheiro da lareira. o cheiro das pessoas. os raios de sol a entrarem pela janela numa manhã de outono. uma jovem bonita deitada no divã junto à janela a ler shakespeare e a sonhar com um amor eterno tal romeu e julieta. o lufa-lufa das criadas a preparar o almoço e em arrumações. os ramos de flores recém-colhidas por todo o lado.

abre os olhos e os resquícios do seu sonho duram ainda alguns segundos. os suficientes para gerar a dúvida entre sonho e realidade. não tendo outro sítio para onde ir o poeta vai em busca de uma cama onde se deitar.
no primeiro quarto em que entra encontra uma grande cama, com um aspecto suficientemente quente e confortável. na parede um quadro: dois corpos nus abraçados em cima de uma cama, o olhar moribundo durante um último beijo. paredes totalmente brancas exceptuando o rasto de uma gota de sangue do tecto até ao chão. na moldura o título: «retrato do amor eterno».

incansável e apressadamente, nos meses seguintes o jovem poeta escreveu o seu primeiro e único livro com o mesmo título do quadro. quem encontrou o seu manuscrito, estrategicamente disposto por baixo do quadro, junto ao corpo suicidário do jovem poeta, ao tentar lê-lo, apenas conseguiu decifrar o título e o capítulo final, orgasmo de caligrafia cuidada do poeta.

30.1.04

hoje notei que lentamente estou a envelhecer. os estranhos com quem me cruzava na rua começam a desaparecer, a velha meia corcunda que todos os dias encontrava ao sair de casa com os sacos de compras, o velhote sempre com o seu fato estilo anos trinta, que sempre que via uma mulher tirava o chápeu e dizia bom dia menina, como vai? e continuava a andar, não sei para onde. nunca soube os nomes deles, eram apenas os estranhos com quem me cruzava todos os dias na rua, no autocarro, no metro, na tabacaria. estranhos que não o eram mais que alguns conhecidos. no fundo, eram parte da minha vida. faziam parte do meu dia a dia, quase que os conhecia. por muito que tentasse evitar acabava sempre ouvindo um pouco de uma conversa aqui, outro ali. ia conhecendo algo desses estranhos, que não o eram e são tanto assim.

agora que todas as caras com quem me cruzo são diferentes, ainda que igualmente familiares, penso se um dia alguém reparará que já não apanho o mesmo autocarro, já não passo pelas mesmas ruas, se a mulher bonita do autocarro notará que já lá não estou a olhar para ela e, sem ninguém saber, a fantasiar com ela, com um olá dela, um sorriso, um olhar mais cúmplice. ou se o velho que vestia roupas antigas pensou em mim antes de morrer (ouvi no café que tinha morrido), ou se algum tivesse ajudado a senhora com as compras ela tivesse vivido mais algum tempo. não o fiz. não o fiz porque aí deixavam de ser estranhos, e por muito familiares que fossem, perderiam o sentido se fossem conhecidos.

29.1.04

hoje porque passei o dia a falar, não consigo escrever. hoje, porque desperdicei a imaginação em palavras sem sentimentos, porque enquanto te olhava sentada na esplanada apanhando o sol de inverno soltei a imaginação. deixei que ela partisse e viajasse pelas ruas e observasse as pessoas e sentisse sentimentos novos ou sentimentos velhos de maneira diferente para que, voltando me trouxesse no sabor das palavras a magia de um novo sentimento.

queria dizer-te mil coisas que não disse, queria cantar-te nem que fosse só uma canção que nunca pude cantar, queria-te...aqui.

chegou a hora que marca o fim do meu dia, aquela em que vens em sonhos ter comigo e me dás a tua mão, eu seguro-a com força e não te quero largar nunca mais, és a vida e eu acabo por não saber viver.
porque vives num sonho, enquanto eu sonho em viver para ti.

(escrito em colaboração com o gonçalo do ver com os olhos)

28.1.04

shhh

atraí o silêncio para uma emboscada que não usei. antes deixei que me cobrisse que me completasse. shhhh... não fales... aprecia este momento porque momentos assim escasseiam. não estragues tudo com essas palavras que magoam a solidão. dá-me a honra desta dança, do silêncio que agora perturba. quão belo é o silêncio... quão mais belas são as coisas no silêncio...

podia dizer que te amo, que te quero ter só para mim neste mar de ausência de tudo que não se sinta, mas para quê? porquê? numa pequena luz de pensamento que se acende sei que o silêncio vale mais que tudo, que as palavras, por exemplo.

shhhh... não tentes dizer nada. abstém-te de fazer algo que não seja ouvir e dançar e sentir e o silêncio. deixa que ele se acomode, permite que o amor entre nós nasça neste canto do mundo abençoado por algo ou alguém.

agora que sentes, deixa-me beijar o teu corpo nu. abraça-me e permite que alcance a eternidade em teus braços enquanto ardemos nas chamas deste momento. deixa-nos voltar às cinzas de onde viemos para só assim podermos dançar o infinito silêncio.

27.1.04

tentei fechar a mão e segurar algo, a tua mão quem sabe, mas apenas o ar se opôs na resistência ténue que pode oferecer. acordei nesse momento do sonho em que vivia. da ilusão de que ainda estás aqui. desisti de me tentar convencer que nada mudou, que tudo está igual.

vou até à janela e através do meu reflexo vejo a rua, vazia, o reflexo das luzes cor-de-laranja no pavimento molhado. um cão abandonado. acendo um cigarro que aperto entre os lábios até ficar oval. tremo das mãos e não tento acalmar-me. deixo que o pânico me arraste até ficar parado, completamente imobilizado. enquanto esse orgasmo não chega e me congela o pensamento penso no que é feito de ti e sei que não sei e sei que não quero saber. num último esboço de pensamento antes do pânico percebo que apenas não quero pensar, que não quero morrer.

quase que por espasmo aperto a mão com toda a força e sinto a tua mão e sinto o teu olhar e beijo os teus lábios e levo-te de volta para a cama e fico ali contigo a olhar-te, agora calmo, agora feliz. acendo um cigarro com o anterior e acordo e tu não estás lá.

26.1.04

onde, quando, como. nada me importa senão porquê. porque é que sofro por ti. porque é que agora que estás a meu lado eu te quero abraçar e beijar. porque é que te quero num desejo carinhoso. porque é que sempre que penso e sinto sobre ti concluo: só te quero a ti.

25.1.04

sentei-me na tua varanda sobre o mar. no início apenas explorando o teu quarto por trás do vidro, sentindo a tua casa. tentando perceber-te um pouco melhor através dos teus objectos, da maneira como os espalhas pela casa. o modo como o posicionamento de cada coisa tem uma razão de ser. as fotografias na parede milimetricamente alinhadas, a secretária perfeitamente organizada e optimizada. na mesa de cabeceira o teu diário (que apesar da curiosidade não li) e um livro de poemas, o mesmo livro de que me falas sempre que falamos de livros.

ao conhecer o teu quarto percebi que não te conheço, que não és tudo aquilo que dizes que és, que não és como eu julgo que és. agora não sei se me arrependo de ter conhecido o teu espaço e percebido que não te conheço de todo. agora não sei se quero o teu beijo. hoje, ao contrário de ontem, sei que tudo vai ser diferente, sei que não sei se estou disposto a começar tudo de novo.