24.1.04

cruzo-me e troco olhares com tanta gente na rua todos os dias. porquê tu? porque é que te fotografei com o olhar e guardei a imagem só para mim? a toda a hora em todo o sítio esta fotografia mental que te tirei. agora, já paranóico, penso que te devo ter conhecido algures.

tento explicar a todo o custo a fixação. seja como fôr, a lógica já se perdeu e recorro à estupidez. espero que encontrando a razão te esqueça. percorro todas as memórias. percorro todo os locais onde estive e onde tu possas ter estado. não te conheço e assim não esqueço.

hoje quando já quase não me lembrava entrei no mentro e lá estavas, sentada ao pé da janela. como uma sonhadora que num túnel espera encontrar paisagem. sentei-me à tua frente com a certeza de que te iria falar. afastaste o olhar da janela e dirigiste-o a mim. apenas fui capaz de sorrir.

23.1.04

sentei-me na margem do rio e vi-o passar. o rio e o sonho. acendi um cigarro e deixei que a corrente levasse o fumo. inevitavelmente, pensei. no vazio e no silêncio. pensei que podia que podia usar melhor o meu tempo. podia ser útil. porém, nestes pedaões entre a solidão e o cansaço prefiro sonhar com uma vida que não a minha. ver uma pessoa passar e para ela criar todo um mundo imaginário de situações aleatórias. e porque não? se o mundo assim se torna um entretenimento e me impede de pensar noutras coisas.

não procuro a felicidade, nem o amor ou a paixão. procuro a total ausência de pensamento. nada mais.

22.1.04

é como se o cansaço me preenchesse por dentro. empurrando tudo o resto para um canto. o racíocinio já não existe. as frase saem soltas. sem nexo. sem ligação. não durmo há três dias. já não estou cansado. estou para além disso. estou absorvido por uma total abstînência de sentimentos. nem assim deixo de pensar. palavras soltas.

dormir. amanhã. dormir. viver. morrer. pensar. dormir. ela. amor. dormir.

preciso dormir.

21.1.04

hoje senti-me apaixonar... enquanto dançavas, pulavas, sorrias e a espaços cantavas, como uma criança. olhei-te e não consegui deixar de o fazer. pensei és fantástica e nesse momento encheste-me, completaste-me e fizeste-me acreditar que o amor acontece uma segunda vez. desejei-te, não o teu corpo suave, mas aquilo que tu és. uma paixão sem desejo.

depois olhaste-me e sentiste-te observada. sorriste, envergonhada. por momentos ficaste apenas fitando-me à espera que eu percebesse que não querias que te olhasse. depois pediste-me pára de olhar. sorri num quase riso de olhar atordoado. pensei és tu e antes de desviar o olhar observei o teu corpo e senti só podes ser tu.

amei-te num amor sem desejo. assim penso para afastar o sofrimento que me causarei por ti.

20.1.04

hoje decidi seguir o teu conselho. não achas que era altura de gastares o dinheiro que não gastas e encheres estas paredes, são arrepiantes? foi a primeira vez que vieste cá a casa. as paredes práticamente brancas nunca me fizeram impressão. sugeriste uma loja de quadros onde já tinhas comprado várias coisas.

pus-me a caminho, com o papel em que escreveste as indicações. sais do metro viras na primeira à esquerda, na segunda à direita e de novo na primeira à esquerda. passando a farmácia tens um largo do lado direito e a loja é do outro lado do jardim. perdi-me. o meu sentido de orientação é péssimo e a velhota a quem tentei perguntar se conhecia a loja só me soube dizer não sou de cá.

entrei numa loja para comprar tabaco e vi um postal, que comprei. colei-o na parede ao lado da minha secretária e passei o resto da tarde a fumar o maço de cigarros e a olhar para a fotografia do postal. ao fumar o último cigarro percebi, se as ruas em que caminho fossem como as de paris eu nunca teria esperança de ser feliz.


19.1.04

falas comigo e sinto-te distante. como se por telepatia tivesses descoberto aquilo que sinto por ti e que tento a todo o custo esconder. partilhei apenas com uma pessoa estes sentimentos. comigo. hoje quando fazia a barba olhei-me nos olhos e disse gosto de ti, e disse também isto nunca vai chegar a lado algum, nunca vou ser capaz de gostar de ti como quero gostar. nunca vou ser capaz de te amar. percebi-o ontem quando estavamos sentados lado-a-lado a olhar o mar, em silêncio. senti que o silêncio te incomodava. que tinhas necessidade de falar. de dizer algo. o silêncio foi-te desconfortável.

deste-me um abraço sabendo que seria o último que me irias dar. sabias já que eu me ia refugiar noutras pessoas. para te esquecer. sabias que se me voltares a ver nunca será como foi ontem. depois arrependes-te. mais tarde ainda percebes finalmente que já não me poderás ter. que aquela tarde foi a última vez em que eu quis entregar-me-te. agora não quero. é tarde demais. gostos das coisas simples e estes jogos irritam-me porque não sei jogar.

é domingo e já é tarde.

...apoderei-me do silêncio...

18.1.04

...o silêncio apoderou-se de mim...

agora não consigo falar, não consigo escrever. tenho medo de quando me voltar a sentar, a mão que segura a caneta se recuse a escrever. tenho medo de deixar de ter uma vida para além de mim, uma outra vida minha que não é minha de todo. tenho medo, tanto medo. medo do desconhecido. medo do amanhã. medo de continuar a viver. medo de me perder. quero estar só.

...o silêncio apoderou-se de mim...

16.1.04

hoje acordei e estava sol, tinha saudades, a chuva não parava de cair há uma semana. Algo me fez pensar que o dia ia ser diferente. Sol de pouca dura... Cruzei-me contigo, esforcei-me por te ignorar, mas tu vieste a correr a chamar-me para toda a gente ouvir. Não quis fazer uma cena. disse-te olá simulando um sorriso. perguntei-te tudo bem? tentando que isso soasse verdadeiro. não me parece que tenha resultado. disseste continuas o mesmo e viraste-me costas.

apanhei o metro e saí na estação da baixa-chiado. passeei um pouco por aquelas ruas aproveitando as últimas gotas de sol deste dia que julguei que pudesse ser diferente. pensei em ti enquanto caminhava. pensei o mesmo de sempre. que é melhor assim.

15.1.04

pensar perturba-me. é um mal que tenho, penso demasiado. não páro de pensar. nem quando estou a dormir. canso-me. censo em ti e concluo que o melhor é afastar-te. despir-me de ti. despedir-me de ti. até nunca mais.

é triste que as coisas tenham que ser assim. é triste que tudo aqui que dediquei a ti, só a ti, se perca agora. porque considero que o meu pensamento não perde valor pelo facto de o exercer permanentemente. a ti, dediquei muitas horas desse meu exercício involuntário. a ti, dediquei muitos sentimentos que agora, se pudesse, queria de volta. agora, se pudesse, queria-te longe, fora de mim.

ficarás apenas o tempo necessário para te extinguir em mim. o tempo suficiente para que este amor se transforme em ódio.