hoje acordei e estava sol, tinha saudades, a chuva não parava de cair há uma semana. Algo me fez pensar que o dia ia ser diferente. Sol de pouca dura... Cruzei-me contigo, esforcei-me por te ignorar, mas tu vieste a correr a chamar-me para toda a gente ouvir. Não quis fazer uma cena. disse-te olá simulando um sorriso. perguntei-te tudo bem? tentando que isso soasse verdadeiro. não me parece que tenha resultado. disseste continuas o mesmo e viraste-me costas.
apanhei o metro e saí na estação da baixa-chiado. passeei um pouco por aquelas ruas aproveitando as últimas gotas de sol deste dia que julguei que pudesse ser diferente. pensei em ti enquanto caminhava. pensei o mesmo de sempre. que é melhor assim.
16.1.04
15.1.04
pensar perturba-me. é um mal que tenho, penso demasiado. não páro de pensar. nem quando estou a dormir. canso-me. censo em ti e concluo que o melhor é afastar-te. despir-me de ti. despedir-me de ti. até nunca mais.
é triste que as coisas tenham que ser assim. é triste que tudo aqui que dediquei a ti, só a ti, se perca agora. porque considero que o meu pensamento não perde valor pelo facto de o exercer permanentemente. a ti, dediquei muitas horas desse meu exercício involuntário. a ti, dediquei muitos sentimentos que agora, se pudesse, queria de volta. agora, se pudesse, queria-te longe, fora de mim.
ficarás apenas o tempo necessário para te extinguir em mim. o tempo suficiente para que este amor se transforme em ódio.
14.1.04
hoje dei por mim a adoecer. atolei-me em fármacos e dormi toda a tarde. acordei melhor do corpo, pior da alma. acordei era já noite. desorientado. mergulhado directamente na noite, silenciosa, solitária. a alma doi-me. tomo um comprimido para dormir que não faz efeito. lembro-me que amanhã faço anos e isso deprime-me. deveria ficar contente. mais um ano completo, menos um que falta viver...
13.1.04
hoje, porque fiz uma viagem em vão, porque fui atrás de ti e tu ignoraste. porque esperei à porta de tua casa que tu saísses e tu não saíste. porque estou cansado de não ter dormido durante três dias. porque estou farto de comboios e das pessoas que viajam neles que só me deprimem ainda mais. estou farto de estar sempre a mais. estou farto de estar sempre só. FODA-SE! se não me queres por perto diz que não me queres por perto. escusava de ter saído de casa. por uma vez decidi agir e foi como se tivesse ficado no mesmo sítio. escusava de ter gasto oito contos no alfa pendular só porque achei que chegando mais rápido, te via mais depressa e mais depressa te devolvia para perto de mim. Mas nem assim. voltei com a mesma necessidade de chegar depressa para poder arremessar o meu corpo no sofá e lá ficar imóvel, numa total abstinência de viver.
estou derrotado. Porque achei que te ias dignar a abrir-me a porta, a perdoar-me, mas não... não podes fazer isso porque o teu orgulho te impede. voltei e quando o comboio parou numa qualquer estação (talvez Coimbra) levantei-me e fui a correr para a casa de banho para ter vergonha de mim mesmo. Saí de lá quando senti o comboio a andar de novo e quando retomei o controlo de mim mesmo. acho que a ideia de as pessoas na estação me verem no limiar do desespero me iria fazer chorar irremediavelmente até lisboa.
hoje, porque estou farto da apatia, tomei uma decisão.
8.1.04
sentei-me na cadeira junto da janela e não olhei para fora. antes, olhei para as fotografias que tenho na parede. mergulhei nelas e mergulhei no copo de vinho que pousado na mesa possuía o brilho da solução para todos os problemas. mergulhei nas fotografias e repito aqueles momentos, como se o tempo não passasse. como se aquelas histórias presas no tempo não acabassem nunca.
o copo já vazio perdeu a vida. na esperança de me ressuscitar enchi-o de novo e bebi-o de uma só vez. o brilho do vinho não passou para mim e a noite prometia ser longa.
chorei. sem ter vergonha das pessoas que passam e me vêm assim. não quis viver. quis ficar parado no tempo como as fotografias na parede. com um sorriso. para que as pessoas assim se lembrassem de mim. feliz.
7.1.04
Se estivesses aqui agora sei o que te diria. Se te visse agora saberia o que pensar. Se te pudesse tocar agora...
Vou à janela de onde te espero ver. Não te vejo e por isso escrevo uma carta que sei que não te vou entregar.
Passam-se horas até a conseguir começar e acabar. Tenho tanto para não te dizer. Tanto que te podia dizer e que prefiro guardar só para mim. Tanto quem me vou arrepender de não ter dito. De não ter feito..
Por isso pego numa folha em branco e escrevo:
«Gosto de ti»
Páro e penso um pouco. Acrescento um ponto final e dobro a folha que guardo numa gaveta juntamente com todas as outras cartas que jamais te escrevi.
5.1.04
Hoje tentei, juro que tentei. Hoje tentei não dormir cansado que estou de o tentar fazer sem conseguir. Para um lado. Para o outro. Fechar os olhos com todas as forças que tenho e ficar acordado. Hoje tentei ficar indiferente a ti. Hoje tentei falar com um amigo que perdi. Hoje tentei e nada consegui. Hoje acabei por dormir. Hoje não consegui ficar indiferente a ti. Hoje não consegui falar com aquele amigo que perdi.
Hoje prometi a mim mesmo que ia esquecer esta paixão estúpida que nasce. Por ti. Hoje tentei ignorar que mexes comigo e que cada vez que ris de algo que eu digo me sinto voar, que cada olhar teu é como se estremecesse por dentro. Hoje percebi que é inútil lutar. Hoje percebi que te quero, que nos teus olhos encontro-me e afasto os problemas. Hoje percebi que fechava os olhos e te via a ti. Sonhava contigo.
Hoje tentei falar a um amigo que perdi. Por minha culpa. Hoje perguntei-lhe se estava tudo bem. Que estava preocupado. Ele disse que sim e mais não disse. Depois ainda lhe desejei um feliz ano novo na trivialidade estúpida de tentar começar uma conversa, mas não pegou. Ele agradeceu e uma vez mais ficou por aí. Morreu ali a conversa. Como também começa a morrer a esperança de ver aquele amigo voltar. Hoje relembrei os momentos bons que passei com ele e relembrei o erro que cometi e nunca desejei tanto como hoje que o tempo pudesse retroceder. Nunca pensei descobrir, hoje, que me faz falta. Que tenho saudades das conversas que tínhamos. Agora falo com quem? A culpa é minha, como sempre.
Hoje tentei não dormir e não consegui. Adormeci deitado no sofá de livro na mão. Acordei com frio e fui-me deitar na cama, vestido. Desejei não acordar. Porque o melhor a fazer neste momento é não acordar. Dormir sem fim. A vida é injusta... Acordei e não consigo dormir...
4.1.04
Ponho o chá a fazer e espero junto da chaleira que fique pronto. Encho uma caneca e sento-me na poltrona perto da janela. Fico a ver chover. Há muito tempo que não chovia assim. Ao ponto das pingas fazerem barulho ao embater na janela, do vento se ouvir assobiar. Dou um trago no chá e sinto-me aquecer. Estou mais confortável. Molhei-me completamente no caminho de tua casa à minha. Penso em ti agora que já não estou contigo. Agora que não te voltar a ver ou a ter. Penso em que é que errei. Penso no que não fiz. Penso no que podia ter feito. Percebo que foi errado desde o início e não penso mais nisso. Nada havia a fazer...
1.1.04
Hoje disse basta. Disse-te que não te queria voltar a ver. Nunca mais. Hoje deixei para trás todos os teus jogos. Não sou mais brinquedo. Não sou mais aquilo que tu querias que eu fosse. Hoje a vida ensinou-me. Hoje disse basta. Disse não. Disse tudo aquilo que nunca tive coragem de dizer. Tudo aquilo que deixei por dizer. Hoje matei-te em mim. Hoje vi-te desfazer à minha frente. Suplicando. Hoje percebeste, finalmente, que me destruíste, que me impediste de viver e me prendeste a algo que eu sempre soube que jamais poderia resultar. Ser feliz. Contigo.
Hoje os meus medos fizeram-se verdade. Coragem. Surgiu no momento em que te disse não. No momento em que te disse amanhã quando acordar não te quero ver em minha casa nem sequer te quero voltar a ver. Apaguei o teu número. Esqueci o teu nome. Para sempre. Foi assim. Hoje acordei e percebi. Hoje abri os olhos e acordei. Para a realidade. Para tudo aquilo que nunca consegui ver porque tu não deixavas.
Agora és tu que rastejas porque me queres, agora és tu que sofres por mim, porque o que achaste que não aconteceria nunca, aconteceu. Manipulação. Perdeu o seu efeito. Não, já te disse que não. Não vale a pena chorares. Vai embora. Sabes onde fica a porta. Sabes que tudo isso vai acabar quando saíres desta casa. Quando encontrares outro eu para brincar. Mas eu não. Acabou.
A revolta agora é minha, quem manda sou eu. Não te quero ver. Não quero saber de ti. Nada. Matei-te em mim. Morreste. Quando saíres não me vou arrepender. Não vou chorar. Sei que fiz o que tinha que ser feito. A derrota agora é tua. Xeque-mate. Perdeste. Lamento. Por mim. Por todos os minutos de vida que desperdicei. Por todos os sóis que vi porem-se em que não pensei em outra pessoa ou outra coisa. Por tudo aquilo que me fizeste sofrer. Por todas as noites em que não dormi. Por todas as coisas que não fiz por estar deitado a pensar em ti. Adeus. Porque agora tenho a certeza que estou vivo. Mata-me. Em ti.
